No início não havia memória. Havia uma coexistência insalubre entre o monge e a prostituta. O monge era grato a ela com aquela devoção de cão sem dono. Irrefletida, gratuita, imoral.
Caminharia assim, sem cobrar nada, por anos a fio (como o fez enquanto ela o permitiu, aliás). Descrevia sua vida em parágrafos longos e, com palavras, tentava disfarçar o vazio da promessa que ela lhe fazia.
Foi aos poucos despindo-se de sua santidade, e enquanto desfrutava de sua presença e de seu sexo fácil, ignorava o caminho que o fez quem era. A trajetória que fizera dele monge imiscuía-se entre cheiro e tato. Paladar.
Acostumou-se à novidade e desistiu de deus. Suas limitações e regramentos não interessavam mais. Era outro, um pouco pior, menos honesto e mais covarde. Mais cruel e interesseiro, mais humano.
Mas se dava bem melhor com o mundo em volta e isso o fazia feliz. Conversava, com naturalidade e ausência de balizas surpreendentes. Nem tudo era ruim.
Era menos preconceituoso também. Passou a entender diferenças com a calma de quem suporta traições e desgostos; seguia em frente por que sabia que sua deusa burra faria dele um homem.
Foi quando se cansaram. Monoliticamente desviaram-se um do outro, e o monge, poderosíssimo, passou a caminhar sem rumar para os braços de sua prostituta. Inventou seu próprio destino e foi.
Neste dia nasceu o monstro. Ele era um caos de lembranças, sons, promessas e endorfina. Era mal educado também; surgia do nada em meio às discussões mais importantes, atrapalhava o foco; pulava em frente à televisão na hora do jornal. Cuspia na mesa sua retórica maluca na hora do café.
Com uma deficiência apenas: era pequeno e próximo, e sua presença mais marcante era subjugada quando enfrentava a realidade de um passado de ontem.
Mas enquanto o monge andava o monstro crescia. E a falta que sentia dela fazia dele um outro ser até que se deu conta de que, mesmo olhando para trás, não a via mais.
Sua defesa, a memória, passou a ser sua inimiga, por que desfazia a realidade para dar lugar ao que o monstro dizia. De repente a puta virou gente. Seu sarcasmo virava alegria e o sorriso de quem esgana se transformava no piscar de olhos de quem dá comida ao pobre.
O monge começou a sentir falta da mulher que havia abandonado, e para piorar, não sabia mais como a encontrar. Trazia consigo o monstro, que o queimava por dentro e indicava um caminho. Tortuoso, escuro e estranho, o caminho que o monstro lhe ditava parecia ser o único possível. Neste momento começou a duvidar: havia sido ele próprio a inventar seu destino ou isto havia sido a primeira artimanha do judas que carregava no corpo?
Decidiu ser como ela. Mas não tinha nem o talento nem o sexo da desgraçada. Não podia ser o mesmo, mas podia ser pior. Beber mais, foder mais, enganar mais. Sorria mentindo a quem lhe pedia abrigo e mentia sorrindo a quem encontrava nele proteção. Fez da superficialidade a regra e do transcendente - de onde viera - se envergonhava.
Desfez-se com tanta naturalidade e por tantos anos que o monstro - hoje um gigante - fez de sua nova existência vil, soturna e lacunosa, a regra. Qualquer integridade o desgostava.
Sua imagem, refletida no gigante a que dava abrigo, era a da pequenez da gente. A impossibilidade de mudar o que se quer e a realidade de nunca mais encontrá-la.
A imagem dela, por outro lado, virtuosa e pura, transformava-se no oposto daquela que conhecera. Virgem e discreta, sua prostituta resistia jovem ao passar dos anos. O quanto isto o embrutecia!
Olhava no espelho a cada dia sentindo-se mal por ser gente. Abominou o dia em que desceu da graça e despiu o hábito. Olhava no espelho só para perceber o quanto a vida - com suas estações de frio e calor impassíveis - enrugavam sua pele e jogavam na cara o fim próximo.
Se deu conta de que há muito não sorria; por que o sorriso era exclusivo daquela que partia, celestial e angélica, e dava às costas ao mortal.
Era outro. O tempo havia deixado nele todas as marcas que quisera; o monstro, hoje alicerce de sua sobrevida, era alimentado a cada dia com uma migalha de comentário aqui e ali. Com a sensação de que não havia mais nada a viver, que era de tudo sabedor e com a expectativa de encontrar, mais uma vez, o anjo que havia partido.
Foi quando ela apareceu. O monstro apavorado acorreu aos olhos para escurecê-los, disparou o coração e fez da boca uma terra seca. Mas não impediu que o monge a visse.
Puta e gente, não era nem de longe a imagem bela e etérea do passado. Havia envelhecido como ele, enegrecido como ele e sofrido do tempo a mesma erosão. Ao vê-la tão humana e falível - crível - sentiu escorrer dentro de si, como sangue lavado, o caldo do monstro gigante e belo.
Era de novo ele mesmo. Havia soterrado a história. Havia um ponto final.
Sorriu, de verdade desta vez.