Universo Fer

29/01/2008

Shuffles, vassouras e a necessidade do escândalo

Arquivado em: Música — Fernando Leme @ 11:19 pm

Por Fernando Leme

Shuffles e vassouras são duas coisas cuja tradução verbal é quase tão estéril quanto a Namíbia. Só para que a conversa siga em frente vou tentar explicar:

Shuffle (é xâfou, não é suflair) é uma figura rítmica que pode ser sobreposta a várias fórmulas de compasso diferentes, mas traz em si um pulso de três notas por tempo, com um evidente acento na primeira e última notas. Meio complicado de se escrever, mas lembre-se do som de um trem passando pelos trilhos e você terá imediatamente a “imagem” daquilo a que eu me refiro.

Como fenômeno original poderoso, o shuffle teve a habilidade de ao nascer no gueto negro e pobre do sul profundo americano, expandir sua influência e musicalidade através de diversos sons que passamos a chamar de gêneros mais tarde. O blues é fortemente inflenciado pelo shuffle, qualquer um que preste atenção ao jazz descobrirá que ele (via de regra) usa a mesma pulsação (devidamente adaptada, improvisada, surrada, mas lá, presente como um prego no sapato). O soul, o gospel das igrejas negras e batistas e o rhythmn blues têm também seu pé no trilho de trem do shuffle.

Vassouras, por outro lado são a antítese da arte de se comunicar. Calma, eu explico. Existe uma tradição universal pela gritaria, e para tanto, desde os primórdios do batuque africano e asiático a tendência tem sido o uso de pedaços de madeira dura de diferentes comprimentos e diâmetros, variando do grande para caramba ao grande de doer. Sempre com propósitos claros, como o chamamento e a organização do exército para a guerra, a indução ao êxtase religioso, enfim.

Mas surgiram as vassouras. Vassouras são basicamente um feixe anárquico de finíssimos fios de metal ou plástico, que presos pelo meio nos induzem à imagem em miniatura daquela vassoura de piaçava ou da bruxa de Oz. E têm, simplesmente, som de nada. Quando usadas por um percussionista de qualquer instrumento têm som de agulha raspando o vinil, som de bombril na janela, som de sulfite com sulfite, sei lá, qualquer coisa indefinível entre o ruído e o incômodo. Mas não é que é bom. Vassouras nas mãos de alguns dos grandes bateristas de jazz e música brasileira se transformaram num dos meios mais eloqüentes de tocar sem ser notado.

Ouvir o Tony Willians tocando ‘Round Midnight’ no quinteto do Miles Davis no auge da forma e usando vassouras é como pedir para se sentir medíocre. Nem a Tereza, que limpou a minha casa por anos percutiu tanto e tão criativamente aquelas vassouras por todos os cantos, com tanta coerência, honestidade e respeito pela parede alheia.

Diferentemente da tradição universal de falar cada vez mais alto pra ser ouvido, a síndrome de Cauby Peixoto, como nos discursos inflamados do congresso, shuffles a vassouras são uma metáfora interessante da arte esquecida de ouvir antes de falar.

Portanto, não estranhe se me vir pela rua com vassouras no bolso ou nas mãos, sou eu filosofando.

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