Universo Fer

29/03/2008

Mesas de três pés já!

Arquivado em: Jornalismo — Tags:, , , — Fernando Leme @ 2:08 am

Por Fernando Leme

Ando injuriado em perder uns goles de café ou cerveja nas mesas dos lugares em que sento só por causa de uma impropriedade geométrica dos construtores.

Não sei quem foi a alma pouco brilhante que estabeleceu a regra de que as mesas deveriam ter quatro pés cometendo uma sacanagem com todos que esperam um mínimo de estabilidade das superfícies.

Como se sabe, em geometria temos três conceitos fundamentais: Ponto, reta e plano. Sobre o ponto não há consenso, sabemos e provamos facilmente sua existência, e só. Retas podem ser consideradas um número infinito de pontos alinhados. Se juntarmos três pontos teremos um plano. Aí jaz a sacanagem.

Mesas com três pés constituiriam um único plano, fato que a adoção de um quarto pé perverte defintivamente. Um quarto ponto de apoio cria a possibilidade de que diferentes arranjos aumentem exponencialmente a possibilidade de planos distintos.

Conclusão: Mesas instáveis e café derramado, invariavelmente. Portanto, eu que enjoei de pagar e não beber acabo de lançar o Movimento Pelos Três Pés, indo ao encontro de movimentos ímpares semelhantes, como o movimento “Em Casa de Saci Uma Calça Dá Para Dois”.

Participe, a geometria já aderiu à nossa causa.

07/03/2008

A concepção e a assunção da verdade

Arquivado em: Direito, Sociedade — Tags:, , , — Fernando Leme @ 6:47 pm

Por Fernando Leme

O tema do abortamento, tanto quanto outros que envolvam questões políticas, éticas, morais e religiosas tem a tendência de provocar discussões acaloradas que não tendem à convergência, mas a mera exposição de preconceitos arraigados que nunca serão fundamento suficiente para a busca de uma solução.

Neste contexto faz-se necessária uma nova abordagem. Uma que leve em consideração a busca das sociedades humanas principalmente ocidentais por uma sociedade laica. Primorosamente distante do Pater sagrado. Uma sociedade cujas regras de conduta e cujo esforço normativo dependam da compreensão humana e científica, empírica, do mundo. Não de preceitos religiosos e morais de interpretação duvidosa.

O primeiro ponto que escapa aos defensores da continuidade da proibição do aborto e de toda e qualquer pesquisa com células-tronco embrionárias é de que ambos já existem e, no caso do aborto, é praticado com relativa facilidade por quem possa pagar por ele. Políticas públicas proibitivas no Basil são sempre para pobre. Ricos e remediados deixam o país em caso de crise econômica. Pagam por seus abortos ilegais e o praticam na segurança de suas clínicas modernas e perfumadas.

Esquecem-se também de que uma prática corrente (e cara) como a da fertilização in vitro descarta anualmente mais de três vezes o número de crianças efetivamente geradas. A estas mães, cujo acesso ao procedimento foi obviamente bem pago, não cabe sanção? Quem tem dinheiro não comete crime no país de D. Pedro?

Existe uma hipocrisia reinante que induz o pobre ao sofrimento que a sociedade não é capaz de suportar como um todo. A CNBB e seus honoráveis senhores de batina (que nunca tiveram ou perderam um filho!) se dão o direito de impingir à sociedade uma decisão que não é religiosa, que não lhes cabe. Se se quer defender o não uso de métodos contraceptivos, se se quer pregar a castidade pré-nupcial, se se quer proteger latifundiários sob a órbita da família e da propriedade que o façam dentro de seus templos ricos e murados.

Quem será o responsável pelas crianças nascidas sem família e sem escola? Quem chamará a si a culpa pela ausência de inúmeros tratamentos possíveis prometidos pela tecnologia das células-tronco?

Além disso, todas as discussões esquecem o fundamental. De quem é o corpo que gera o feto? A ela não lhe cabe escolha? A voz das mulheres nestas questões tem de ser ouvida. Haverá avós católicas a clamar enlouquecidas pelo apocalipse. Haverá outras tantas que ignoram que deve haver distinção entre o que é público e o que é privado e que se esquecem de que aquilo que é permitido não é obrigatório.

Verá mesmo, como diziam Gil e Caetano, o Venerável Cardeal tanto espírito no feto e nenhum no marginal?

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