Por Fernando Leme
O tema do abortamento, tanto quanto outros que envolvam questões políticas, éticas, morais e religiosas tem a tendência de provocar discussões acaloradas que não tendem à convergência, mas a mera exposição de preconceitos arraigados que nunca serão fundamento suficiente para a busca de uma solução.
Neste contexto faz-se necessária uma nova abordagem. Uma que leve em consideração a busca das sociedades humanas principalmente ocidentais por uma sociedade laica. Primorosamente distante do Pater sagrado. Uma sociedade cujas regras de conduta e cujo esforço normativo dependam da compreensão humana e científica, empírica, do mundo. Não de preceitos religiosos e morais de interpretação duvidosa.
O primeiro ponto que escapa aos defensores da continuidade da proibição do aborto e de toda e qualquer pesquisa com células-tronco embrionárias é de que ambos já existem e, no caso do aborto, é praticado com relativa facilidade por quem possa pagar por ele. Políticas públicas proibitivas no Basil são sempre para pobre. Ricos e remediados deixam o país em caso de crise econômica. Pagam por seus abortos ilegais e o praticam na segurança de suas clínicas modernas e perfumadas.
Esquecem-se também de que uma prática corrente (e cara) como a da fertilização in vitro descarta anualmente mais de três vezes o número de crianças efetivamente geradas. A estas mães, cujo acesso ao procedimento foi obviamente bem pago, não cabe sanção? Quem tem dinheiro não comete crime no país de D. Pedro?
Existe uma hipocrisia reinante que induz o pobre ao sofrimento que a sociedade não é capaz de suportar como um todo. A CNBB e seus honoráveis senhores de batina (que nunca tiveram ou perderam um filho!) se dão o direito de impingir à sociedade uma decisão que não é religiosa, que não lhes cabe. Se se quer defender o não uso de métodos contraceptivos, se se quer pregar a castidade pré-nupcial, se se quer proteger latifundiários sob a órbita da família e da propriedade que o façam dentro de seus templos ricos e murados.
Quem será o responsável pelas crianças nascidas sem família e sem escola? Quem chamará a si a culpa pela ausência de inúmeros tratamentos possíveis prometidos pela tecnologia das células-tronco?
Além disso, todas as discussões esquecem o fundamental. De quem é o corpo que gera o feto? A ela não lhe cabe escolha? A voz das mulheres nestas questões tem de ser ouvida. Haverá avós católicas a clamar enlouquecidas pelo apocalipse. Haverá outras tantas que ignoram que deve haver distinção entre o que é público e o que é privado e que se esquecem de que aquilo que é permitido não é obrigatório.
Verá mesmo, como diziam Gil e Caetano, o Venerável Cardeal tanto espírito no feto e nenhum no marginal?