18/04/2008
02/04/2008
Sobre monopólios, formatos e a sua vida digital
Por Fernando Leme
Existe um determinado nível de discussão técnica cujas decisões influenciam a vida do planeta. Embora tais discussões e acordos não pertençam a todos, por desconhecimento ou desinteresse.
Formatos de transmissão de TV aberta, o espectro radiofônico e suas concessões, PPP’s, padrões ISO e afins são o alicerce técnico sobre o qual se assentam nossos hábitos e profissões e é neles que parte da atenção e interesse de um número crescente de profissionais deve se voltar.
Essa atenção pode representar segurança, desenvolvimento, economia, inclusão digital e novas alternativas e possibilidades de negócio num mundo crescentemente digital. Neste contexto o mundo acabou de perder uma batalha no caminho da liberdade de formatos.
Não deixa de ser impressionante que uma empresa que um dia foi chamada de inovadora e comprometida com o futuro da informática tenha se transformado num gigante corporativo, comprometido com a própria sobrevivência e nada mais. Impressionante porém não surpreendente, esta sempre foi a lógica do capital.
Havia uma discussão no meio técnico (do qual não participo por motivos óbvios, mas que acompanho e admiro) sobre o fato de a Microsoft ter submetido à aprovação da International Organization for Standardization (Organização Internacional para a Padronização – ISO) o seu formato de arquivos para a suíte de escritório, tecnicamente chamado OOXML.
Acontece que já existe um padrão ISO, o odf (open document format), que é um formato aberto, gratuito, desenvolvido por uma comunidade mundial de programadores e em crescente adoção por indivíduos, empresas e Estados.
Transcrevo abaixo alguns excertos apressadamente traduzidos do blog oficial do Google, no post em que se comenta a aprovação do formato da Microsoft.
“O assunto de padrões abertos de documentos cresce em importância não só para os técnicos, mas para todos que usam computadores para trabalhar editando documentos. Além do óbvio, padrões são cruciais. Eles asseguram que os equipamentos e tecnologia que você usa hoje continuarão funcionando amanhã, que os seus DVD’s tocarão em qualquer aparelho, que suas chamadas serão completadas em qualquer lugar, e que seus documentos serão acessíveis a partir de qualquer sistema que você escolha hoje ou no futuro.
Nós concordamos com a opinião da ODF Alliance e de muitos outros especialistas quando dizem que o OOXML não preenche os requisitos para um padrão globalmente aceito.
A discussão sobre os formatos dos seus documentos pode não interessar hoje, mas como alguém que depende de acesso constante a documentos, planilhas e apresentações editáveis, pode interessar imensamente num futuro próximo.”
Vê-se portanto um conflito de interesses. De um lado uma corporação norte-americana em busca da manutenção de sua zilionária cadeia de consumo e do outro o seu direito de escrever em computadores sem ter que pagar por isso, de poder acessar seus documentos indeterminadamente.
Formatos e padrões continuam desinteressantes?
