Universo Fer

20/06/2008

Sobre anjos e sonhos

Arquivado em: Música — Fernando Leme @ 2:47 am

Por Fernando Leme

Há pessoas reais. E há sonhos.

Uma delas é um sonho lindo. Incomumente perfeita. De trajetória perfeita, como um círculo.

Chega e se vai sem dar notícias da origem e destino. Vai-se e leva consigo a lembrança do sorriso infantil, da voz de anjo.

Nunca soubre como cresceu, como se tornou o que era, de quem gostou, se sofreu. Não sei.

Deixa na memória a lembrança esmaecida, sons distorcidos, fragilidade imensa.

Meu sonho de perfeição. Claro que só um sonho, cujo maior talento foi manter-se como tal.

Leva consigo meus sonhos, carrega-os com carinho, canta para fazê-los dormir.

Canta.

15/06/2008

Propósitos

Arquivado em: Sociedade — Fernando Leme @ 1:34 pm

Por Fernando Leme

Algumas pessoas vieram para este mundo a passeio. Outras não.

Pense em alguém como o Mick Jagger, não há relatos de que ele tenha sido um aluno estudioso. Logo aos 19 anos ele montou uma banda e até hoje, com mais de 60 e tantos, continua nela, com suas turnês e discos esparsos para não cansar muito. Claro que de vez em quando ele cruza com alguma Luciana Gimenes, mas nada que tire o brilho e o sossego da trajetória.

Já outros vieram com vários objetivos. Lembra-se do Zé Dirceu? Esse é um cara múltiplo. Fez parte da resistência armada à ditadura militar, criou um esquema de suborno para domesticar o Congresso e talvez tenha como maior objetivo hoje matar o Roberto Jeferson.

Que por sua vez veio para cá para nada. Ou melhor, veio para ser gordo e defender o Fernando Collor, já está fazendo hora-extra desde 1992 e ainda arranja um tempo para alimentar instintos primitivos pelo Zé Dirceu.

Outros vieram para a luta. Por mais distintas e apaixonadas que sejam as opiniões sobre o Ernesto Guevara, uma coisa é indiscutível: Ele é icônico, ou foi reduzido a isso. Mas é um emblema, um exemplo de atitude e abnegação, concorde-se ou não com seus objetivos.

Parte do que somos é feita daquilo que a gente escolhe. E como é possível escolher diversos caminhos, o resultado final se dá pela proporção com que dividimos nosso tempo entre uma coisa e outra. Que você prefira uma cerveja a uma rodada de discussões sobre direito tributário, é compreensível. O triste é ficar só no pagodão.

Para fazer estas escolhas você precisa antes tentar adivinhar o que é que você está fazendo aqui. Ou como diria o Saramago: A que vieste? Mas há um fato, assim definido por Ibsen: “Whatever you are, be out and out; not divided or in doubt”.

Resumindo, nem todo passeio é interessante, nem toda luta.

10/06/2008

Bares subterrâneos

Arquivado em: Música — Tags:, — Fernando Leme @ 1:56 am

Por Fernando Leme

Uma puta saudade do meu amigo Ricardo…

“…no one told you when to run, you miss the starting gun…”

Muito chato quando alguém tão importante decide se mudar pra Nova Zelândia. Nada que fizesse muita diferença se ele estivesse por aqui. Há outros amigos nesta cidade com importância semelhante. E eu não os vejo nunca.

O chato é não poder. Os demais eu não vejo por que encontro razões. Falta tempo, sempre há alguma coisa esperando desesperadamente para ser resolvida.

O Rico eu não posso. Mesmo que eu abandone todos os meus compromissos, deixe a vida correr, e desencane de todas as obrigações, ele continuará solidamente afastado.

Ele ganhou uma música, obviamente escolhida sem intervenção racional. Retrato de um momento específico.

Estávamos nós, vivendo um momento de rockstar caipira e sem dinheiro (e pra ser sincero, sem público também). Mas havia desde então uma crença na nossa qualidade. Eu era mais pretensioso que ele, que sabia relativizar e usar sua irritante modéstia. Tocávamos num bar escuro e subterrâneo (não é figura de linguagem, é sério), fazíamos o melhor possível pra conseguir algum som. Tocávamos numa banda de rock, semiconvíctos, e começamos a introdução de Time, do Pink Floyd.

A introdução é (como era de se esperar) uma cacofonia de pulsos, guitarras e tambores. Mais um efeito que uma música. Meio que nem a Pamela Anderson, que é um apetrecho, não uma mulher.

Enquanto, distraidamente, me deixei levar pelas circunstâncias acabou a introdução e o Rico começou a cantar. Era aquilo. A música pedia um timbre, uma postura, um ódio, um vermelho. E eles estavam lá.

E eu também estava, mais estupefato que com ódio. Com tranças no cabelo, curtindo minhas férias neste planeta.

Curiosamente a música se chama Time. E eu não gostaria de passar pelas mesmas coisas tantos anos depois. Só anseio a mesma competência: a mesma postura, o mesmo timbre…

É. Os desafinados também têm um coração.

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