Universo Fer

17/10/2008

Simulacros

Arquivado em: Internet, Política, Sociedade — Fernando Leme @ 4:28 am

Vamos deixar uma coisa clara: eu sou Obama, votaria nele vendado se pudesse ou precisasse.

1- Parece que o mundo, principalmente as relações entre países pobres e ricos quando da colonização e exploração mercantil anericana, não pode mais ser exposto da forma que o fez Eduardo Galeano. “Veias Abertas…” é um daqueles livros icônicos feitos com raiva à moda da criança que apanha por subir na árvore quando cai dela.

2- Tecnologia da comunicação é uma ferramenta de que não dispunhamos com tanta abundância e facilidade quanto agora. Assistir o último debate entre os candidatos à presidência americana expõe fraquezas invisíveis para o autor e descritor da colonização imperial ou comercial americana.

3- Estes debates expõem também, com assustadora clareza, o simulacro de democracia que se tornou a estrutura política americana. Inúmeros golpes certeiros não foram desferidos, e ambos os candidatos pretegem-se de descer à realidade da atuação federal que se resume, muito basicamente, à política externa, à escolha dos juízes da Suprema Corte e alguns financiamentos para programas federais postos em prática nos estados.

Existe, é claro, a estrutura bélica mais cara e tecnológica do mundo. Cujos contratos não são objeto de discussão e cuja limitação se  restringe a sair do Iraque agora ou daqui a pouco. Pensando assim, o exército americano é a democracia definitiva.

4- Satisfaz o ego, entretanto, ver que os “líderes do mundo” discutem internamente. Grupos de interesse violentamente se opõem. McCain e Obama discutem a validade dos contratos tanto quanto Peru e o BNDES fariam agora.

5- O FMI poderia,  sendo a instância econômica definitiva no que convencionou-se chamar de mundo moderno, ou pós New Deal, participar mais ativamente da crise que, nascendo norte-americana, se espalhou pelo mundo.

Tendo surgido e afetado, primeiramente, os países desenvolvidos a crise desfaz o alicerce teórico de existência do FMI; que é a presença de países-blocos estáveis, produtivos e em constante crescimento. A natureza da crise atual, e sua transformação numa “crise de confiança”, demonstra a fragilidade do sistema e apresenta uma possibilidade de reorganização dos agentes econômicos no mundo. Pena que aparentemente não estejamos prontos ainda para participar do processo.

15/10/2008

Michelle Obama para presidente!

Arquivado em: Jornalismo, Política, Sociedade — Fernando Leme @ 3:45 pm

Talvez a maior atravessada fora da faixa do Partido Republicano nesta campanha tenha sido a escolha de Sarah Palin para vice-presidente.

O nome surgiu motivado pela necessidade de – literalmente – oxigenar a caminhada de John McCain. Parecia útil do ponto de vista prático; seria alguém influenciável, sem papas na língua, que faria tudo para se tornar vice-presidente da maior potência do planeta saída de uma cidadezinha no interior do Alaska (!!) de 7 mil habitantes.

A entropia destas decisões manifestou-se, entretanto, com crueldade fora do comum, merecida ou não. Nominaram uma caipira, que fala muito mas fala mal, que para participar de um debate precisou de dias de aulas de postura e dicção (a ainda assim pronunciou nukular ao invés de nuclear), que caracteriza-se como a Hockey Mom daqueles filmes ruins da Disney, e compara-se a um Pitbull (?!?) com batom.

Nada, repita-se, nada da dignidade pela qual as mulheres lutaram e lutam por tantos anos se encontra nesta mulher. Ela é a Margareth Thatcher sem a cultura e o poder.

Por isso acabo de lançar a candidatura de Michele Obama, esposa do Barack, que, numa entrevista disponibilizada em videocast pela CNN, demonstrou inteligência, auto-controle, sensibilidade e conhecimento dignos da posição que – se tudo correr bem – alcançará em breve. E o fez sem queimar soutiens, sem se comparar a nenhum animal, sem descer ao baixo nível do discurso e sem subir às notas agudas da voz da Palin.

Resumindo, ela mandou muito bem.

10/10/2008

E o Adalberto não se elegeu

Arquivado em: Sociedade — Fernando Leme @ 4:53 am

Parece coisa do Dias Gomes. Mas depois de dois anos em Votorantim me acostumei ao caráter “sucupirano” da realidade local.

Um dos folclóricos chama-se Adalberto e candidatou-se a uma das honrosas cadeiras do legislativo municipal sem entender (como o faz a grande maioria, por sinal) lhufas da competência legislativa deste âmbito.

A campanha, igualmente folclórica, incluía calendários assinados na farmácia de Alto Custo (propaganda eleitoral em ambiente público?), sorrisos e promessas.

Minha convivência com ele foi a mais tormentosa. Discordávamos em tudo, desde princípios fundamentais da administração pública (como probidade e distinção público-privada) até a cor do papel higiênico. Para ser honesto, ele até me chamou de gênio numa ocasião em que eu fiz uma planilha somar dois e dois automaticamente.

E não é que Adalberto não se elegeu?

Mas é claro que a lógica da política partidária não é essa. Deu, pelo menos, para garantir uns votinhos na barganha. Ou não?

O documento com o resultado da votação para vereadores está aqui.

05/10/2008

Te amaré y después

Arquivado em: Música — Fernando Leme @ 2:07 am

Te amaré, te amaré como al mundo
Te amaré, aunque tenga final
Te amaré, te amaré en lo profundo
Te amaré, como tengo que amar

Te amaré, te amaré, como pueda
Te amaré, aunque no sea la paz
Te amaré, te amaré, lo que queda
Te amaré cuando acabe de amar
Te amaré, te amaré, Si estoy muerta
Te amaré, el día siguiente además
Te amaré, te amaré, como siento
Te amaré con adiós, con jamás

Te amaré, te amaré, junto al viento,
Te amaré, como único ser
Te amaré, hasta el fin de los tiempos
Te amaré, y después te amaré

Marina de la Riva

Link para a música.

04/10/2008

Ninguém fala português em Votorantim?

Arquivado em: Direito, Sociedade — Fernando Leme @ 2:22 am

Estive, nestes dias, dando uma olhada em estatutos municipais, analisando sua coerência, constitucionalidade e técnica jurídica.

Destes o mais impressionante foi o Estatuto dos Funcionários Públicos de Votorantim. Não consegui estudar o aspecto jurídico do texto porque o aspecto ortográfico-gramatical não permite.

Comecei a achar poético demais o uso constante do pretérito-mais-que-perfeito, mas foi só susto. Descobri em seguida que todos aqueles verbos se dirigiam ao futuro do presente (construirá, outorgará, etc) mas quem digitou “esqueceu” dos acentos. Pronto, pérolas da norma que trata do passado intangível.

Acentos ausentes, espaços demais, vírgulas fora de hora. Em suma, quem decidiu estudar acabou achando um livro grátis de humor.

Antes que meus amigos de Votorantim me liguem de madrugada para reclamar eu preciso dizer que: óbvio que há lusófonos por lá. Minha tristeza é que dos responsáveis por editar o regramento da cidade, nenhum deles quis, ou pode, ou conseguiu tornar aquilo uma peça de respeito. E pior, não sabendo que não sabem, não contrataram um revisor.

Cometemos erros todos, claro. Mas num texto legal que deveria ser lido e relido fica chato. E pior, cuja ambigüidade torna difíceis sua interpretação e eficácia.

Quando o Christovam Buarque passou dois meses falando que o Brasil precisa de escola teve gente que achou chato e repetitivo. Não, nem uma coisa nem outra. É o básico.

E eu me pergunto: se o português está asism, imagina o direito.

O documento (público) está disponível aqui.

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