A desafiadora lógica de Olavo de Carvalho
(entrevista dada ao JB não sei quando, mas também não me interessa, não é esse o meu foco. Meus comentários estão em itálico)
Qual seria o programa de um governo de direita no Brasil, hoje?
“Em primeiro lugar, ele teria um enfoque moral, religioso e tradicional. São valores e princípios gerais, veja bem, o governo não pode se meter a ser o grande moralista. O governo não deve educar ninguém nesse aspecto, são as entidades religiosas que devem se fortalecer e atuar.”
Não entendi; o enfoque do governo deve ser:
1- “Moral… mas o governo não pode se meter a ser o grande moralista”. A relação de adequação me escapa. Além disso, creio que a norma supra-legal de atividade do Estado seja a ética (própria das relações públicas), não a moral, própria das relações privadas.
2- “Religioso”. Mas religioso em qual sentido e principalmente, no sentido de qual religião? É possível ser pan-religioso? É preferível um Estado pan-religioso ou um Estado laico em que esse papo de religião seja escolha particular, de quem se interesse por ela?
3- “Tradicional”. Pode ser que eu concorde, pode ser que eu discorde. Depende de à qual tradição o prof. Olavo se refere. Podemos incluir na lista de tradições a seguir a tradição tribal indo-americana? A africana? Ou vamos ficar no papo de sempre dos senhores de cana e café?
“Em segundo lugar, a economia de mercado, que é a única que funciona. Não tem esse negócio de socialismo, intervenção do governo no mercado, isso não funciona. É só o governo meter a mão que a coisa vai para trás.”
Repita esta frase para qualquer governo, de qualquer país, que neste momento está intervindo em todas as economias, injetando no mercado bilhões de dólares de modo a devolver a ele um conceito abstrato como confiança. Ou, aparentemente, o princípio seja: não intervenha quando eu quero ganhar dinheiro, me financie quando eu estiver perdendo dinheiro.
Terceiro é educação clássica. Você tem que primeiro formar uma elite intelectual capaz de educar o restante do país. O governo vem com essa história de educar todo mundo, mas isso não funciona. Não é possível.
1-Qual o fundamento das afirmações? Fé por fé fico com a minha. Em que momento uma “elite intelectual” (seja lá o que isso for) terá compromisso de voltar às raízes e educar iletrados?
2- De qualquer forma, dinheiro público no Brasil já financia universidades que são a foz da elite econômica que consegue educar seus filhos.
3- O comentário soa a mim como a proposta da concentração de educação (como se não bastasse a de renda). Ou, mais maldosamente, já não que eu não consigo educar todo mundo, vou educar quem me interessa.
“Não é possível”.
Porquê não? Baseado em quê, com quais estatísticas e quais exemplos?
A educação então não deve ser para todos?
“Não. Educação é um processo irradiante, que vai por círculos concêntricos. Você educa dez, que educam cem, que educam mil, que educam um milhão e vai assim.”
Não sei não, mas quando do Delfim Neto ministro da economia do governo militar já contaram esta história de “espera o bolo crescer que depois a gente divide”.
Nem ao menos cuidar de erradicar o analfabetismo?
“Isso não adianta. Você vai investir um dinheiro maluco nisso e os caras vão sair todos analfabetos funcionais.”
De novo, baseado em quê?
“Porque se você não cria uma tradição de educação, a educação não pega. Se você não tem essa tradição, não tem o amor à cultura, ao conhecimento. A educação deve ser muito séria e começar por uma elite, que vai irradiando esse valor.”
Chegou onde eu temia. A estratégia de convencimento mais reles é nos fazer crer de nossa incompetência e inaptidão, e assim permitir que uma elite capaz e bem informada nos mostre o caminho.
“Quem vai dar a educação para todos?”
Todos. Ponto.
“A educação que se dá ao povo hoje não deveria ser dada a ninguém. Oferecer essa educação para meia dúzia de pessoas é um insulto. Para milhares, é um crime.”
Finalmente concordamos professor.
Conclusão
Diferentemente do que pareceu no decorrer do texto, eu não sou, a priori, contrário ao prof. Olavo. Senti, isso muito claramente, um desgostamento por determinadas escolhas e a falta de argumento técnico que justifique opções drásticas. Tudo soa muito superficial quando se discute proposições absolutas que escapam ao trabalho árduo e sem graça da análise do orçamento Estatal, da atividade do ministério público, da investigação dos crimes contra o patrimônio público e a defesa do interesse coletivo.