Universo Fer

25/02/2009

Há que se ler a Folha de agora em diante?

Arquivado em: Jornalismo — Tags:, , — Fernando Leme @ 1:12 pm

Abaixo reproduzo o texto do Idelber Avelar que, sozinho, já esclarece o tema. De qualquer forma, houve ecos de internet por toda a parte, e em sua grande maioria, amplamente contrários à postura no mínimo canalha da editoria da Folha.

Folha de São Paulo, cínica e mentirosa. Todo o apoio a Fabio Konder e Maria Victoria Benevides
Convenhamos que de ser “cínica e mentirosa” a Folha de São Paulo entende. Mas ela nunca, sejamos justos, havia nomeado dois profissionais, professores de currículo infinitamente superior ao de qualquer um dos membros de seu Conselho Editorial, para uma injúria gratuita. Com a agressão a Fabio Konder Comparato e Maria Victoria de Mesquita Benevides, o jornal já conhecido como Façamos Serra Presidente chegou a um novo limite, um mais recente e enlameado piso. Pouca coisa o diferencia do lamaçal de publicações como a Veja. Neste episódio, o mais urgente, acredito, é assinar a petição em defesa dos Professores e de protesto contra a injúria. A petição é encabeçada pelo maior crítico literário brasileiro, o Mestre Antonio Candido.

O já infame editorial da Folha, além de insultante à memória das vítimas da ditadura militar brasileira e comprometido com a ocultação da história colaboracionista do próprio jornal, fazia exatamente o contrário do que deve fazer o jornalismo: ele desinformava, contava uma mentira. Qualquer bom professor de história do primeiro grau sabe que não há nenhuma tradição bibliográfica de uso do termo “ditabranda” para designar o regime militar brasileiro, a ditadura de 1964-1985. Aos escrever as chamadas “ditabrandas” -caso do Brasil entre 1964 e 1985, o jornal simplesmete mentia aos leitores. Não “errava” ou “tinha um ponto de vista diferente”. Mentia, pois a ditadura brasileira não é “chamada” de ditabranda por ninguém. Não era, pelo menos, até o dia 17 passado.

Se tivessem, para compensar os livros que não leram, utilizado por dois minutos a internet que tanto temem, os membros do Conselho Editorial da Folha teriam descoberto que o termo “ditabranda” vem do espanhol e foi usado para caracterizar o regime que precedeu a República Espanhola dos anos 30. Depois, na Argentina, a ditadura de Onganía (1966-70) chegou a ser chamada de “ditabranda”, a princípio por falta de notícias sobre a extensão de seus crimes, e depois ironicamente, para acentuar os horrores da outra ditadura que se seguiria (1976-83).

O termo não tem qualquer história bibliográfica no Brasil para designar o período 1964-85, e é curioso que um jornal suspeito de ceder seus automóveis para a repressão, colaboracionista até a medula na divulgação das versões mentirosas dos assassinatos cometidos pelo regime, venha fingir que a ditadura brasileira tenha sido chamada de “ditabranda” — e, para completar, chame de “cínicos e mentirosos” dois professores com os currículos de Fabio Konder e Maria Benevides, pelo simples fato de eles não aceitarem a chantagem da falsa comparabilidade entre o regime cubano e os regimes militares da América do Sul com os quais a Folha colaborou.

Por uma postura de opinião – abalizada por vastas obras, diga-se –, intelectuais são chamados de “cínicos e mentirosos”, sem direito de resposta, por um jornal de tiragem de 300 mil exemplares, cuja história colaboracionista é vastamente conhecida. Não é o máximo? São esses os lacaios que vêm nos falar de “liberdade de imprensa” todas as vezes em que são questionados. São esses os lambe-botas que vêm posar de “linchados” quando sua cumplicidade com os poderosos é desvelada. São esses os que falam de “apurar notícias” e até hoje não nos disseram quais são os jornalistas que recebem dinheiro de Daniel Dantas e se a lista que circula por aí – com Noblat, Fernando Rodrigues, Miriam Leitão – é verdadeira ou falsa.

Onde estão os jornalistas que se indignaram tanto e chamaram de “linchadores” os dois blogs que fizeram posts sobre as peroratas racistas da correspondente da Globo, agora que um jornal de 300 mil leitores chama de “cínicos e mentirosos”, por uma opinião política, dois professores com as histórias de Fabio Konder e Maria Victoria Benevides?

O mais cretino, o mais absurdamente revoltante dessa história, o mais fundamental que passou até agora sem menção, é que se você tomar os currículos de todos os jornalistas funcionários do Globo, da Folha, da Veja e do Estadão – eu disse se você tomar todos eles em conjunto –, você não chega a algo remotamente comparável ao currículo de Fabio Konder Comparato. Não adianta o Pedro Dória honestamente matutar de lá pra cá se ele não entender essa premissa básica que deve estar sobre a mesa para o início da conversa: o paupérrimo, o assombrosamente rasteiro nível intelectual da grande mídia brasileira. Além de mentirosos, venais e pouco transparentes, são fraquíssimos.

Não percebem, por exemplo, que é vergonhoso o maior jornal brasileiro não saber de onde vem o termo “ditabranda”.

Com o insulto a Fábio Konder e Maria Benevides, o portal UOL perdeu de vez minha assinatura. O Biscoito entra em fase de apoio radical a qualquer ridicularização, boicote, ataque verbal, protesto, charges, manifestação ou sabotagem não violenta dirigida contra os Frias, os Marinho, os Civita e suas corjas de servidores. Cada assinatura que eles percam, cada desmoralização que sofram, cada restinho de credibilidade que escoe pelo ralo, é mais um tijolinho no prédio da democracia.

Dawkins and Fitzgerald’s Buttons and watches

Arquivado em: Dá licença? — Tags: — Fernando Leme @ 12:57 am

Richard Dawkins’ “The Blind Watchmaker” and Fitzgerald’s book “The Curious Case of Benjamin Button” woke up and are stoping me from sleeping.

Dawkins’ blind watchmaker has hidden himself below the sadness from Fitzgerald’s character, and the strange ways of the unseen hand of Providence returned analogously a incredulous and the incredible. While the first one works hard to make commons from obvious, the second one turned the impossible onto his theme and gave us the chance of arguing ourselves (to be born, to grow old and die): how?

Of course there is the irritating beauty of Mr. Pitt wich either turns the discussion superficial and works as a feeling-and-not-being-beautifull youth perfect parable. If the watchmaker works so hard to make a clock goes backwards, could we ask that strong for our lives to grow back?

Lies here a powerfull argument (for a book) and a indeniable nietzschinian questioning (for a life).

Anyway, if Dawkins wants to free me from God (and, God, would I wish that?), and even if I stoped asking if there’s a god, what else would I ask? And worse, for whom would I ask for? Facing the fact that we are all blindly watchmaking, trying to go backwards, looking forward, watching genius’ works like these trying to get, at least, inspired.

17/02/2009

Richard Bona

Arquivado em: Música — Tags:, , — Fernando Leme @ 3:10 am

2 da manhã, fim de expediente e Richard Bona para dar razão à madrugada.

Recado para uma amiga

Arquivado em: Dá licença? — Tags: — Fernando Leme @ 2:19 am

Seu rosto é familiar… mas eu acho que não te conheço.
Se te conhecesse talvez gostasse de você,
mas ouvi dizer que quem te conhece nem sempre te ama.

Então fique assim onde você está,
me dá gosto admirar sua inteligência,
sem ter que disputar.

Cave seus buracos e vê se enterra seus medos;
vocẽ sabe o que eu espero de você,
mas vê se me decepciona de vez em quando…

e admite que pra ser feliz
o tempo todo
é preciso ser uma besta.
Contente-se em ser feliz às vezes.

Soundtrack: Gravity by Steven Dunston

A pieguice é tanta que deu arrepio quando eu vi o resultado final.
Mas digamos que serve como pesquisa da técnica de se acrescentar áudios aos posts.

16/02/2009

A popularidade como medida de tudo

Arquivado em: Jornalismo — Tags:, — Fernando Leme @ 3:04 am

subindo!

Gilson Caroni Filho, em seus artigos recentes para o site jornalístico carta maior, tem dado manifestações cada vez mais eloquentes de que diante da popularidade inquestionável do presidente Lula, qualquer de suas condutas, impropriedades e erros não são apenas desculpáveis, como transformam-se em ouro. O ouro de Lula.

Estranhamente acusa de falaciosos aqueles que (por falta de opção melhor, má índole, desconhecimento ou vítimas de particularidades do jornalismo tradicional, não importa, falaremos disto em breve) apresentam fatos ao invés de argumentos.

Em artigo intitulado “O terror econômico da grande imprensa” afirma, ao perceber na atividade jornalistica viés ideológico, que o noticiário catastrófico das últimas semanas tem como único objetivo a instalação de uma agenda favorável a José Serra.

Gilson não pretende fazer nenhum esforço histórico e interpretativo, nem tentar recordar que durante as duas principais crises econômicas que atingiram o governo FHC (a queda da Nasdaq, em 2002; e a chamada crise dos tigres asiáticos, em 1997) um cenário econõmico menos catastrófico que o atual amealhou igual exposição no jornalismo tradicional, com subsequentes erros de leitura e interpretações atravessadas de conceitos econõmicos.

Que o noticiário deixa a desejar é evidente (algo como presenciar Valdo Cruz, da Folha, e Cristina Lobo, na Globonews, trocando um reles “o que vocẽ acha?” ao mencionar a crise atual), o que não significa que a popularidade de Lula em alta sirva de medida de insucesso do intento da imprensa.

Gilson Caroni Filho entorta o entendimento coletivo ao apresentar relações de causalidade inexistentes. A imprensa é ruim porque é catástrófica; é catástrófica porque age de má-fé; age de má-fé porque quer derrubar Lula; A imprensa é ruim porque não consegue derrubar Lula.

Ao denunciar a inépcia da imprensa o colunista de Carta Maior comete seu próprio argumento: não obedece a qualquer procedimento mais sofisticado. Não sei em que planeta ele vive, mas do lado de cá a coisa parece que anda mesmo feia. Com ou sem pesquisa de opinião.

09/02/2009

Fórum social mundial

Arquivado em: Política, Sociedade — Tags:, , , — Fernando Leme @ 9:23 pm

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07/02/2009

A prova indireta e a inversão do ônus

Arquivado em: Direito, Jornalismo — Tags:, , , — Fernando Leme @ 10:46 pm

bruxa-grdVeja, tendo como porta voz seu astuto “fala-aos-trouxas” Reinaldo Azevedo, acabou de emitir mais uma vez seu conhecimento jurídico transverso em favor de seus interesses, sejam eles quais forem.

Reinaldo Azevedo, em artigo intitulado “Chefe da Abin confirma que agência grampeou Gilmar Mendes. OUÇA O ÁUDIO! Só faltou o “équio” do Seu Creysson…” acabou de acrescer à jurisprudência pátria a condenação que diz que vazar determinada informação, prova sua validade.

Ao ter acesso a gravação de uma reunião do Gabinete de Segurança Institucional e ao áudio em que o ministro Jorge Félix admite que houve vazamento para a imprensa por parte de servidor da Abin quanto ao suposto grampo no gabinete de Gilmar Mendes, Reinaldo Azevedo só teria duas conclusões possíveis:

1- Houve vazamento.

2- Houve grampo.

Obviamente que ele escolheu a segunda, embora a prudência e a inteligência dissessem o contrário. O fato de um servidor dar a um jornalista determinada informação é prova irrefutável de sua veracidade? O fato de um ministro admitir que um servidor sob suas ordens entregou determinada informação é algum tipo de confissão por via indireta?

Em suma, o que o ministro do GSI diz no único trecho que pode interessar aos outsiders, é que algum servidor disse algo a um jornalista. Sinto muito Reinaldo, por mais que você queira tanto insuflar um clima qualquer de estranhamento e desordem na instituição, mas isso não prova nada!

Nisto não está incluído meu desejo de que esse tipo de situação se resolva apropriadamente.

Faz parte da tergiversação característica do nobre autor de um blog que entende tanto de tudo, que ainda se enfurna em preces católicas que lhe salvem a alma.

O áudio da malfadada frase do ministro Jorge Félix está aqui.

A constatação triste, no entanto, é que basta dar uma olhada nos comentários do artigo do colunista de Veja que seus leitores imediatamente compraram sua história. O autor, tal qual bruxa na masmorra, cruzando os dedos e salivando, sorri.

Atualização em 08 de fevereiro:

O autor do blog de Veja se viu instado a esclarecer a natureza técnica de “vazamento” dizendo: “VAZAR”, leitor, em jornalismo, é como se designa a prática da fonte que passa a um repórter uma informação sigilosa ou que deveria ter ficado restrita a um grupo — que nunca inclui a imprensa. Não se diz coisas como: “Fulano vazou o boato…” ou “Beltrano vazou uma mentira”. Isso não é VAZAMENTO.”

Sorrindo, devo-lhe lembrar que o esclarecimento mantém as características originais do meu aviso. Além disso, até onde tive tempo de pesqiusar, Jorge Félix não é jornalista e talvez não trate com tal rigor técnico sua terminologia.

Sabem quem mais comprou a história de Veja e fez um suco de provas, grampos e vazamentos? O Consultor Jurídico, cada vez menos consultável e sem dúvida, nem um pouco jurídico.

Atualização em 20 de agosto:

O áudio do tal do grampo no gabinete do Gilmar Mendes não apareceu até hoje. Devo acrescentar à definição de vazamento acima o seguinte:

“VAZAR”, leitor, em jornalismo, é como se designa a prática da fonte que passa a um repórter uma informação sigilosa, boato ou mentira que deveria ter ficado restrita a um grupo…”

06/02/2009

Aniversários

Arquivado em: Música — Tags: — Fernando Leme @ 12:19 am

Pausa em tudo, nas ciências e ignorâncias, doutrinas e misticismos, convergências e discordâncias.

Pausa na briga entre direita e esquerda; enquanto não decido se leio Keynes ou Marx; pausa na minha vontade de estudar no MIT e ajudar o MST.

Vou dar uma pausa em tudo e em homenagem ao aniversário do Lenine, vamos à pipoca e ao DVD.

MST no Fórum: sectarismo preocupante

Arquivado em: Sociedade — Tags:, , — Fernando Leme @ 12:04 am

Texto escrito por Gilberto Maringoni para o site Carta Maior que divulgo aqui graças a sua objetividade  (enquanto texto) e honestidade (enquanto crítica).

stedileO Movimento dos Trabalhadores Sem Terra é um patrimônio nacional. Seus 25 anos de existência mostram como um trabalho sério, dedicado e constante transformaram as lutas pela democratização da propriedade no Brasil. Por causa disso, o MST conta com o ódio visceral da direita brasileira e da maioria dos meios de comunicação. Ao mesmo tempo, alguns líderes do Movimento têm assumido, nos últimos meses, uma postura sectária e pouco construtiva para a convivência e convergência das forças democráticas e populares. O ápice da falta de tato, beirando os maus modos, foi dada por um dos principais dirigentes do Movimento, João Pedro Stédile, em discurso no Fórum Social Mundial (FSM), realizado em Belém do Pará.

Vale a pena nos determos na atuação de alguns dirigentes do MST em ato realizado na tarde do dia 29 de janeiro último, no ginásio da Universidade Estadual do Pará (UEPA). A cerimônia, que contou com a participação de quatro presidentes sul-americanos, representou um dos pontos marcantes do FSM, para bem e para mal. A mesa foi composta por Evo Morales (Bolívia), Rafael Correa (Equador), Fernando Lugo (Paraguai) e Hugo Chávez (Venezuela), além de Stédile e outros dirigentes de movimentos sociais. Lula não foi convidado. Um segundo ato, realizado na noite do mesmo dia, em outro local de Belém, o reuniria aos seus colegas. As alegações pouco claras para a exclusão do brasileiro davam conta de que o tema em tela seria a Alternativa Bolivariana para as Américas (Alba), proposta de integração regional, lançada pela Venezuela, da qual o Brasil não faz parte.

Fora da Alba
“Não convidamos o presidente Lula porque o Brasil está fora da Alba. Não se trata de um problema político ou de retaliação. Nós não fomos convidados para o ato de Lula com estes mesmos presidentes e compreendemos, porque o ato não incluiu os movimentos sociais. Assim como aqui não caberiam países fora da Alba”, explicou ao portal Vermelho João Paulo Rodrigues, da coordenação nacional do MST. A CUT era uma das promotoras do ato noturno e, até onde consta, é um movimento social.

O curioso é que a proposta da Alba mereceu apenas menções laterais por parte dos oradores daquela tarde chuvosa e abafada. A causa principal para a exclusão parece ter sido a alegada paralisação dos projetos de assentamento para a reforma agrária ao longo do segundo governo Lula.

Tudo bem, não quer convidar, não convida. Mas é preciso ficar claro: realizar um ato em território brasileiro com quatro chefes de Estado estrangeiros, por mais afinados politicamente com estes que se possa ser, não tira de cena a péssima educação de quem patrocina o evento e a quebra de qualquer decoro diplomático do gesto. Presidentes de outros países não podem participar unilateralmente de audiências de qualquer ordem no interior de qualquer país sem a anuência da diplomacia local. Não são pessoas físicas, são representantes de outras nações. Inexiste demanda possível de ser atendida por eles que não passe pelos canais democráticos e institucionais nacionais.

“Frouxos”
Discursando em espanhol para uma platéia majoritariamente brasileira, ao final do ato, João Pedro Stédile citou os governos brasileiro e argentino como progressistas e integrantes de “um movimento histórico da América Latina de rompimento com o neoliberalismo na região”. Se é assim, o sectarismo é maior. Mas o dirigente foi além e, após uma curta análise da situação regional, disse, entre outras coisas, o seguinte:

1. “Os governos que me perdoem, exponho o que pensam os movimentos. Vocês têm andando muito frouxos. Fazem suas reuniões aí, comentam algo de conjuntura, mas nós esperamos mais de vocês, queremos mudanças estruturais, não remédios para o capital. Nas próximas cúpulas regionais, convidem os movimentos de seus países”, cobrou.

Quer dizer, Chávez que enfrentou e derrotou um golpe de Estado, Morales que venceu a direita separatista no processo constituinte, Correa que realiza uma auditoria de sua dívida pública e Lugo que mandou à lona uma ditadura de 60 anos do Partido Colorado não seriam mais do que “frouxos”. Sensacional.

2. Comentando a reunião da Cúpula da América Latina e do Caribe (CALC), realizada nos dia 16 e 17 de dezembro, na Costa do Sauípe, na Bahia, o dirigente Sem-terra declarou: “Todos os presidentes da América Latina estiveram lá e nada decidiram. Comeram bem, andaram na praia e nós na expectativa de mudanças”. Hugo Chávez não passou recibo: “Eu não fui à praia”. Em tom de brincadeira, Stédile corrigiu: “Alguns gordos não foram à praia”.

O encontro na Bahia teve o caráter simbólico de se contrapor à OEA – que exclui Cuba e inclui os Estados Unidos – e buscar caminhos para uma maior integração continental. Cuba estava presente e os EUA não. Trata-se de um evento inédito e alentador, do ponto de vista político. Não se deve subestimar o acontecimento, que foi atacado sem dó pela grande mídia.

3. A certa altura, Stédile opinou que as eleições não resolvem os problemas da região. “Se fosse assim, a Itália estaria muito bem”, disse ele. Curiosa lógica. Todos os mandatários latinoamericanos foram eleitos, reeleitos e referendados em seguidas consultas populares. Fazem parte de uma vaga eleitoral antiliberal. Se a democracia real não conseguiu resolver os problemas, as soluções devem ser buscadas nas combinações de demandas sociais com o alargamento dos espaços institucionais. O próprio Fórum Social Mundial não existiria se governos democráticos não tivessem sido eleitos e investido dinheiro e estrutura em iniciativas desse tipo.

O MST, sempre que se vê acuado em seus embates com a direita, solicita apoio de governos e parlamentares progressistas, eleitos pelo povo, o que é muito justo. Mudará de tática daqui por diante?

Anti-política
É bom lembrar que o discurso antieleitoral, pretensamente radical, esconde o fato de que as eleições diretas foram uma conquista democrática da sociedade. Estiveram no centro da maior mobilização de massas da história do Brasil, organizada por partidos e movimentos sociais. Falamos da campanha das Diretas Já, em 1984.

Os ataques à participação eleitoral têm por base a idéia de negação da atividade política e da prática partidária, que seriam espaço de uma mal denominada “institucionalidade burguesa”. Os movimentos sociais seriam o haveria de mais avançado na sociedade. É preciso mediar as coisas.

Movimentos são por natureza organizações com reivindicações focadas em temas determinados, como terra, salário, direitos, água, etc. Em seu conjunto, podem fornecer as bases para a formação de um programa de ação abrangente e transformador. Isoladamente, buscam a satisfação de objetivos determinados. Equiparar sua atividade a de partidos, que buscam formular e articular projetos mais amplos é incorrer em comparações entre sujeitos de naturezas diversas entre si.

Os ataques da direita
O MST enfrenta hoje uma tentativa de isolamento social, promovida pelos meios de comunicação e pelo grande capital. No meio disso tudo, o governo Lula paralisa-se, subordinando-se à lógica do agronegócio voltado para exportação.

A expansão do capitalismo no campo coloca em xeque um tipo de reforma agrária produtivista, historicamente pleiteada pela esquerda brasileira. O latifúndio agora é agronegócio e não mais um anacronismo econômico. Tornou-se parte do pólo dinâmico de uma economia que se reprimariza. É uma modalidade que emprega poucos trabalhadores e os submete – especialmente aos da cana – a condições de trabalho extremamente precárias. Para completar o quadro, na área de grãos, o patenteamento de sementes geneticamente modificadas aumenta exponencialmente a produtividade da terra, tornando culturas de trigo e soja característica cada vez mais de lavouras extensivas e não de pequenas propriedades.

Embora, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento Agrário, exista um aumento de recursos para o financiamento da agricultura familiar – modalidade em que se enquadra grande parte dos trabalhadores já assentados – os números de novos assentamentos estacionaram. Essa contradição, entre os que já têm terra e os que não tem, coloca o MST em uma encruzilhada. Assentados e acampados formam a base social do movimento. Um setor conta com mais recursos e outro vê suas esperanças de conquistar um lote serem reduzidas. Neste caminho difícil, o Movimento busca encontrar um norte. A luta pela terra no Brasil, tarefa de todos os que se batem pela justiça social, precisa ter este nó desatado o mais rápido possível.

Sem lugar
Uma lembrança final. O ato entre os movimentos sociais e os quatro presidentes, sem Lula, estava planejado para acontecer no Hangar, imenso centro de convenções da capital paraense. Quatro dias antes de sua realização, o governo do Estado comunicou ao MST que a cessão do espaço não seria possível. Na mesma noite aconteceria ali a cerimônia com os cinco mandatários, promovida pela CUT, pelo Ibase e pelo Instituto Paulo Freire.

Os dirigentes do movimento tentaram em vão obter o empréstimo de outro lugar que comportasse o número de pessoas previsto para a atividade. Em vão. Todos os locais fechados da capital paraense estavam com as agendas lotadas para o dia 29.

A saída foi buscar o auxílio do PSOL, que realizaria uma plenária sindical no ginásio da UEPA. O partido abreviou suas atividades, que iriam até o final do dia, e com isso, cerca de 1,2 mil ativistas de diversos movimentos puderam participar do encontro.

Um pedido foi feito pelo partido ao MST: que um representante seu pudesse saudar brevemente os presentes. Tudo foi acertado no dia anterior. Quando a atividade tem início, surpresa! O representante do PSOL é convidado a se retirar do palco. A explicação para a quebra do acordo foi do dirigente João Paulo Rodrigues: “É uma plenária de movimentos, na qual não cabem partidos”. Pode ser, mas a boa educação não funciona bem assim.

Não é bom para a democracia brasileira e para a esquerda que dirigentes de uma organização com a respeitabilidade internacional do MST incorram em sectarismos de tal ordem. O movimento não vai alcançar seus objetivos sozinho, sem a luta política dos partidos populares, sem os o auxílio de governos progressistas e sem a ampliação de sua base de apoio, à esquerda e à direita.

Gilberto Maringoni, jornalista e cartunista, é doutor em História pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de “A Venezuela que se inventa
– poder, petróleo e intriga nos tempos de Chávez” (Editora Fundação Perseu Abramo).

05/02/2009

Pensamentos que vão mudar o mundo

Arquivado em: Jornalismo — Tags:, — Fernando Leme @ 11:52 am

Quando o gmail vai deixar de ser beta?

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