Universo Fer

27/04/2009

Sílvio Santos e Chacrinha

Arquivado em: Sociedade — Tags: — Fernando Leme @ 10:57 am

Quando eu era moleque ficava muito bravo com o fato de que minha vó adorava “shows de calouros” do Sílvio Santos, e quando eu fugia de lá, dava de cara com o chacrinha buzinando as pessoas na tevê de casa. Resumindo, a cruz e a espada.

A lógica de um show de calouros é exatamente essa. Há os pirados que vão se expor, sempre e insistentemente, mas a finalidade do esquema é ridicularizar a todos até que alguém consiga não ganhar o “troféu abacaxi”.

Não raro esse momento provoca alguma inflexão da ordem estabelecida, criando uma espécie de comoção e impingindo às pessoas a sensação de que “a justiça foi feita” no momento em que o talento oculto uma vez manifestado é aplaudido.

Bom, sabendo que este tipo de programa é assim desde sempre, não consigo entender o motivo da surpresa causada em torno de Susan Boyle, em seu “Britains Got Talent”.

Tenho a impressão de que, dada a pobreza geral de referências e perspectiva, a condição humana busca algum tipo de justificação. Talvez por isso “pegadinhas”, “vídeo-cassetadas”, “reality shows” e demais hits conquistem alguma audiência: o idiota somos todos.

Já que o ridículo é acachapante, faz parte de todo mundo, nos domina e nos reduz ao óbvio, todos erramos e todo mundo é feio; talvez sirva de consolo assistir isso na tevê.

ps. Vocẽs se lembram do Pedro de Lara?

25/04/2009

O Ubuntu e um novo paradigma

Arquivado em: Linux — Tags:, — Fernando Leme @ 11:23 am

Com a chegada do Ubuntu 9.04 decidi dar uma olhada nas tendências de notícias e buscas sobre o produto desde o seu surgimento; olha só o resultado:

ubuntu

Embora o gráfico aparente um crescimento exponencial nos dois primeiros anos e uma tendência de estagnação no período seguinte, uma análise mais cuidadosa apresenta perfil regular desde 2006. Qual seja: depois de atingida uma determinada margem de entusiastas, técnicos e colaboradores, o sistema encara o público “normal”, no qual seu crescimento é penoso porém contínuo.

É importante mencionar que o Ubuntu não é Linux que mais agrada aos “pioneiros” dada a quantidade de automatizações e excesso de importância das soluções em ambiente gráfico. Porém, tem sido a solução mais viável e de reconhecida utilidade para usuários  não-técnicos cansados do produto da Microsoft, que de outro modo não chegariam nunca no Linux.

Com seu desenvolvimento constante e o poder da empresa que o mantém, o Ubuntu está se tornando um centro em torno do qual gravitam empresas, desenvolvedores e principalmente middleware. E é aí que reside a chave para o sucesso do Linux como um todo. Enquanto não houver força capaz de opor-se a barreira de software corporativo disponível única e exclusivamente para Windows, haverá pouca chance.

Como tenho dito: a qualidade se impõe. Resta crer que em algum momento ficará claro que não faz sentido negligenciar sua própria segurança e estabilidade.

A instalação do versão mais atual foi rápida e tranquila; provavelmente uma hora de trabalho foi suficiente para instalar todos os plugins, softwares, pacotes de idioma e demais adicionais e depois de tudo pronto pude conferir que de fato o boot se deu em aproximadamente 17 segs e que o sistema está “up and running” consumindo miseráveis 128 MB de memória. Genial.

24/04/2009

E o Direito silencia

Arquivado em: Direito — Tags: — Fernando Leme @ 6:30 pm

No passado recente deste país, clarificada certa estupefação com os rumos da política econômica e social do governo Lula (de quem se esperava grandes transformações e tomadas de rumo alternativas) surgiu a crítica do silêncio dos intelectuais; os quais por não terem o que dizer ante apostas tão mal feitas, silenciaram. Crítica da qual uma das principais vítimas foi Marilena Chauí e seu reconhecidíssimo mau humor.

Se silenciaram por quê o fizeram? Visto que, dada a qualidade de seu trabalho e profundidade de seu conhecimento, certamente teriam algo a dizer quanto à frustração gerada pela continuidade da política econômica á lá FHC e o desprestígio de bandeiras históricas do petismo como a ética, os movimentos sociais e o combate à desigualdade, culminando com a expulsão da ala radical do partido, encabeçada por Heloísa Helena, Babá e cia.

Talvez por que, mesquinhamente, não quisessem dar o braço à torcer, admitir que se enganaram, que julgaram ao país, outro. Ou ainda, por que simplesmente nada tinham a dizer.

O mais recente acontecimento envolvendo dois Ministros do Supremo Tribunal Federal trouxe à tona silêncio ainda mais grave. O Direito silencia ante Gilmar Mendes. Justamente uma classe reconhecidamente prolixa, astuta, hábil ao discurso e à fundamentação, repentina e injustificadamente calou-se. Ainda que nauseados pela presidência despótica, obnubiladora e depreciadora dos valores até então tidos como inatacáveis no comportamento da Corte Suprema, como a independência e o rigor técnico.

Basta assistir ao gaguejar titubeante de Gilmar Mendes ao enfrentar questões técnicas que lhe escapem, ao ver exposta sua raíz de favorecimento e apadrinhamento político, ao quão facilmente sugere a censura ao reṕórter e o impõe à TV Câmara, para perceber que o déspota esta fora de seu termo, está sentado à presidência do tribunal ao qual não poderia sequer comparecer.

Embora o fala-aos-trouxas Reinaldo Azevedo insista em dizer que o presidente do Supremo não deveria ouvir a “voz rouca das ruas”, engana-se; o STF, além de defesa última da Constituição, é um tribunal político, que deve estar, sim, atento ao clamor popular e aos resultados práticos de suas intervenções técnico-doutrinárias. Exatamente como disse o grande Joaquim Barbosa. Inclusive não entrarei na discussão racial como fez, cobardemente,  o blogueiro mencionado por que a julgo descabida.

No silêncio dos que deveriam falar ecoa o mastigar ruminante do Consultor Jurídico e da OAB que saíram, endoidecidos, à defesa do indefensável, ainda que contrariando a lógica e a coerência. No silêncio dos que deveriam falar, ouve-se o suspiro distante da Democracia.

Gilmar Mendes é mais um dos sintomas, das dores de parto, do mal de existir, de democracias impúberes.

21/04/2009

Eu odiei o twitter

Arquivado em: Sociedade — Tags:, , , — Fernando Leme @ 11:09 pm

Eu, que já acho que este formato impõe suas lmitações, me vi seguindo a turba e twittando por dois dias. Me vi imerso numa experiência superficial e superficializante, envolvido com comentários irrelevantes, notícias sem fundamento e muito, mas muito tempo perdido.

Este primeiro parágrafo é um exemplo de como não se faz um lead. Embora apresente, grosso modo, o tema e os argumentos inciais que se pretende desenvolver, o texto é opinativo e adjetivador demais. Nada contra opiniões e adjetivos desde que a fonte seja alguém com méritos. O que, convenhamos, é coisa cada vez mais rara.

Não sei se acredito que existe um processo de decomposição da linguagem e do raciocínio correlato (E neste sentido, Daniel Everett tem mais a dizer do que eu), mas  se o jornal idiotificou-se assustadoramente nas últimas décadas, partindo de “Os Sertões” e terminando em “Zapping“; as pessoas seguiram a trilha (ou vice-versa). E o triste é constatar que o poço não tem fundo.

Um tempo atrás discuti (sozinho porque não obtive resposta, mas discuti) com um jornalista experiente, que ao escrever neste novo contexto, com aquelas coluninhas espremidas do blogger, fazia dissertaões intermináveis. Meu argumento era o de que monitores não são a mídia mais confortável para a leitura, ou ainda, que a natureza da internet (com múltiplas distrações) não a torna o meio mais eficaz de transmissão de conceitos complexos e histórias compridas.

Nisso cheguei à novidade. O twitter é um interminável papo de elevador com as figuras mais desconcertantes. O twitter é mais um esforço de idiotização. O twitter é uma prisão de 140 caracteres. Eu odiei o twitter.

O Estado, a terra, a luta

Arquivado em: Direito, Sociedade — Fernando Leme @ 1:01 am

O Estado de direito

É impressionante como o “Estado de direito” é uma expressão doce aos lábios da bandidalha. Hitler, Franco e a ditadura militar brasileira produziram, cada qual a seu modo, versões úteis do Estado de Direito, com suas devidas atrocidades.

A onda de repúdio na imprensa tradicional às movimentações do MST pouco têm à ver com sua eficácia ou risco (relativos ao ponto de vista), mas principalmente com a possibilidade de espetacularização negativa de seus atores. Que o abuso, violência e desmando sejam devidamente reprimidos não há dissenso. Há, no entanto, uma estratégia clara de vinculação direta da existência dos movimentos pela reforma agrária com os atos de violência de ambas as partes com vistas à desmoralização da iniciativa.

A terra

O que se faz é delegar à classe que conta com acesso irrestrito aos órgãos legislativos perpetradores do desmando e do descaso com o princípio constitucional da busca da paz e da justiça social, o privilégio da construção dos dispositivos legais e do direcionamento de verbas necessário a um projeto sério de assentamento.

Este mesmo direcionamento, contudo, é contrário à clara tomada de posição dos entes governamentais em favor do chamado “agronegócio”. Nada mais coerente com a “elite exógena” mencionada por Darcy Ribeiro e com a estrutura fundiária de um país doente – desde a formação – do mal do desprestígio do mercado interno em função das exportações. Uma análise – ainda que superficial – dos atos normativos mais recentes traz luz ao tema:

Medida Provisória 410
“Ainda em 2007, ao limiar do ano, precisamente em 28 de dezembro o governo
emitiu a MP 410 “que tratava, entre outras matérias, da dispensa de obrigatoriedade de
registro em carteira de trabalho dos trabalhadores rurais que executem trabalhos tem-
porários…”

O argumento era o da “flexibilização” das relações sazonais de trabalho no campo. Na prática permitem a continuidade de condições de trabalho análogas à escravidão e ao desfazimento de redes jurídicas de amparo ao trabalhador rural.

Medida Provisória 422
Ela permite ao Incra titular diretamente, sem licitação,
propriedades na Amazônia Legal com até 15 módulos rurais ou 1.500 hectares.

Este mecanismo permite vender “ao agronegócio/agrobanditismo mais de 50 milhões de hectares de terras públicas do Incra na Amazônia que deveriam ser reservadas para a Reforma Agrária, à demarcação de terras indígenas e ou quilombolas, a criação de unidades de conservação ambiental.”

O Projeto de Lei no 346/2007, de autoria do deputado Eduardo Sciarra (DEM-PR)
“O seu ponto mais delicado é o que prevê a exclusão do processo de reforma
agrária de quem invadir terras ou prédios públicos, pois assim se poderia, segundo
seu autor, “privilegiar as pessoas que tenham alguma vocação e experiência com terra ou formação
para cultivá-la”

A luta

Qualquer estrutura de concentração tem reflexos daninhos; pontos em que uma massa de brasileiros despossuídos e desassistidos clamará, insistentemente, por algum chão. Enquanto cai ano a ano o número de famílias assentadas, crescem os focos de tensão no campo e perpetua-se o processo desumano (e em última análise, burro, do ponto de vista social) da concentração de terras.

Este processo, como descrito pelo mesmo Darcy Ribeiro já mencionado, teve sempre seus lastros numa suposta legalidade e respeito à ordem. Criou-se, assim, uma estrutura fundiária descabida, que conta com uma noção perversa de produtividade e que expõe à própria sorte milhares de famílias sem acesso à terra.

Na recente decisão do STF sobre a reserva Raposa Serra do Sol, o voto da Ministra Ellen Gracie citou uma dívida histórica com os povos indígenas como um dos pilares da argumentação de que devem eles ter acesso ao chão de seus ancestrais. O mesmo caminho, num Brasil ideal, será tomado em relação às familias sem-terra, juntamente com o incentivo à agricultura familiar, a criação de modelos sustentáveis, de redes de financiamento e treinamento com vistas à manutenção no campo de quem nele quer permanecer e a uma ocupação racional do território.

Enquanto isso operam a violência, o desmando e a desinformação, com as graças de deus, da tradição, da família e da propriedade.

Fontes:

“DIREITOS HUMANOS NO BRASIL, 2008″. Relatório da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos.

Site do MST.

11/04/2009

Monoteístas o escambau

Arquivado em: Dá licença? — Tags:, , — Fernando Leme @ 5:59 pm

E as pessoas ainda tentam me convencer de que somos monoteístas. Nos últimos quatro meses eu comemorei o nascimento de um deus entre os homens (que segundo consta era uno e trino ao mesmo tempo).

Embora simultaneamente tenha criado um ídolo (uma árvore) e a adornado com um sem-número de oferendas a um tal de Papai Noel (que segundo consta é imortal e mora no pólo norte) para que ele se dignasse a trazer uns presentinhos para a criançada aqui em casa.

Dois meses depois descansava no maior intervalo de produtividade entre os países desenvolvidos a que nos acostumamos chamar de carnaval, período em que se comemora ou constata a prevalência da carne sobre o espírito  na conduta humana.

E hoje me vi montando um ninho para que o coelhinho da páscoa (símbolo pagão da Lua e da fertilidade) traga uns ovos de chocolate aqui em casa no domingo de manhã.

Curiosamente o ano nem chegou na metade.

Porque as pessoas sofrem para contar aos filhos “a verdade” sobre o Papai Noel e continuam mentindo quanto aos demais?

Thomas Mann trata disso com assustador brilhantismo nas quase mil páginas da minha edição econômica de “A montanha mágica”, em que o mais marcante é o fato de que tal superposição de datas inúteis é um processo de alienação entre o homem e sua verdade.

Toda alteridade

Arquivado em: Sociedade — Tags:, , — Fernando Leme @ 5:34 pm

A palavra “alienígena” é daquelas que perderam o significado ou o tiveram transformado no decorrer dos séculos. O “online etymology dictionary” confere à “alien” os significados “estranho”, “estrangeiro”. E a relaciona com a palavra latina “alienus”, cuja raiz de inúmeras palavras em português fica evidente.

Neste sentido, não se precisa sair do planeta para encontrar relações de alteridade, alienação, em que frequentemente à vista ou visita do outro corresponde a estranheza e a incompreensão. Talvez daí o estranho e estrangeiro do sentido original.

Em suma, referir-se ao outro traria consigo sempre a idéia de distanciamento.

O recurso de se referir às nossas construções ideológicas, instituições e organização social em função da visita de uma nova espécie “alienígena” foi trazida ao discurso popular através da ficção científica, nos quais monstros com dentes grandes, babando sangue chegam sempre ao planeta ávidos por destruir o “way of life” norte-americano.

De fato, não seria fácil explicar a um “alien” para quê serve o PMDB. Ou pelo menos o que o Sarney faz por lá nos últimos 40 anos. Ou ainda qual a “alienação” decorrente do fato do analfabeto funcional que vai obrigatoriamente à urna eletrônica com um papel na mão com uns números que o fazem crer que seu voto (enquanto único) valerá “1″, desconhecendo que algumas eleições são majoritárias e outras proporcionais, o que confere a seu voto valores distintos variando em função de qual lugar do país ele se encontra e qual é a eleição específica.

Portanto, no nosso próprio planeta encontramos correspondentes mais ou menos graves ou danosos de alteridade e estranhamento. A recente estratégia do presidente americano de se aproximar dos povos de origem árabe é uma demonstração clara da dificuldade de romper com um choque de civilizações que se dá desde Heródoto.

Civilizações não apenas distintas, mas em alguns sentidos contrárias, o que em tese justificaria a conduta de Arnaldo Jabor e Reinaldo Azevedo de chamá-los de bárbaros ou monstros. Expressão curiosa vinda de descendentes de vândalos e visigodos.

Desde a invasão judaica em terras árabes no século passado este choque entre culturas distintas tem endereço e telefone. Os invasores judeus clamam uma propriedade paleolítica sobre o território habitado por árabes e desde então, justificando-se por uma moral religiosa, uma ordenação divina, têm sido assassinos atrozes. Muito mais bárbaros ou monstruosos que a imagem padrão do terrorismo islâmico.

Quem dera vivêssemos toda alteridade como o “alien” simpático e bonzinho de Spielberg.

10/04/2009

Da imprevisão e da sacanagem

Arquivado em: Sociedade — Tags:, — Fernando Leme @ 11:08 pm

A matéria exibida no Bom Dia Brasil e publicada no site do g1 dá o tom das dificuldades de lidar com o resultado da sacanagem, imprevisão e inépcia administrativa.
79 computadores portáteis foram furtados de uma escola de ensino fundamental. Computadores estes que haviam sido doados por universidades particulares da região e serviam à alfabetização dos alunos.

Do acesso à informática

É aparentemente positivo que algumas crianças tenham acesso aos computadores (não é de hoje que Nicholas Negroponte e cia. tentam produzir pc’s portáteis a preços irrisórios de modo a disseminar seu uso pedagógico) e portanto, qualquer iniciativa que vise propiciar seu uso é vista com bons olhos.

Porém, computadores são máquinas extremamente poderosas cuja utilização pode ser absolutamente positiva ou absolutamente deletéria do ponto de vista do aproveitamento.
Antes de tratar do furto em si cabe questionar:
1. Qual era o planejamento pedagógico do uso da informática?
2. Quais eram as ferramentas utilizadas?
3. Qual foi o treinamento prévio dado aos professores?
Estas três perguntas, por si, indicam se os resultados do trabalho tenderiam ao sucesso ou fracasso, visto tratarem-se de vetores a partir dos quais se tem máqunas como auxiliares do aprendizado ou como obstáculo a ele.

Do furto

Ao que consta não houve arrombamento nem qualquer outro sinal de violência. O que levaria a conclusão óbvia de que se trata de alguém com acesso à estrutura. Mas o que chama a atenção é o fato de a mesma escola ter sido vítima do mesmo crime uma semana antes!
Com a paciência que nos resta, perguntemos:
1. Alguma chave foi trocada?
2. Alguém foi preso?
3. A polícia tem algum suspeito?
4. Algum procedimento auxiliar de segurança foi adotado?
Ao que parece, todas as respostas serão negativas. E portanto não cabe lamentar, cabe responsabilizar os gestores uma vez que imprudência e negligência têm limites.

Da sacanagem

Ainda que houvesse um contexto amplamente favorável; tremenda sacanagem roubar o brinquedo da molecada, hein?

07/04/2009

Gestão?

Arquivado em: Sociedade — Tags:, — Fernando Leme @ 11:07 am

Luis Nassif, no post de hoje de seu blog menciona a urgência de uma revolução de qualidade na gestão pública. Cita o atraso relativo de qualidade e produtividade mas não deriva para as possíveis causas; quando o faz, infelizmente, atira no vazio ao citar a necessidade de articulação de diversos atores, independentemente do partido ora no poder.

Pois é, quem não concordaria que alguma articulação entre os agentes de produção se faz necessária? O que considero uma questão de fundo, no entanto, é o processo de sucateamento e deseduçação que se dá no ambiente público.

Quando se pensa nos métodos de trabalho da atividade pública, a primeira constatação é de que se trata uma organização de outra economia. A atividade pública brasileira ainda se dá na era do carbono. Getulista, tem no apadrinhamento e no favorecimento parte fundamental de sua estrutura. Conceitos como o de produtividade, tecnologia e racionalização não fazem parte de seu vocabulário.

Seu atraso relativo parte do fato de que as relações homem-empresa e empresa-meio tem experimentado transformações profundas nos últimos anos. O mecanicismo de atividades irracionais deveria ter sido substituída por uma análise mais interessada e a gestão, por pessoas mais interessantes.

Um Estado assim justifica posições mais abertamente liberais, no que concerne exclusivamente a entrega de serviços públicos com alguma razoabilidade.

A construção do SUS é uma indicação do caminho a ser seguido. Seu fundamento ideológico de acesso universal obriga a uma conta que dificilmente fecha no positivo. Porém, dadas as dificuldades intrínsecas e a inépcia dos gestores, é um sistema que ainda consegue recepcionar um sem-número de cidadãos todas as manhãs nas milhares de unidades básicas pelo país, que entrega medicamentos em parceria com o governo do estado e tem uma taxa razoavelmente administrada de exames e intervenções cirúrgicas.

Qual é este caminho? O SUS não conta com a habilidade, inteligência ou conhecimento dos gestores municipais (em última instância os responsáveis pelo programa). Criou-se uma série de ferramentas administrativas de prestação de contas, que são operadas pelos gestores diretos. Basicamente, o trabalho de desenvolvimento das diversas políticas públicas (que envolve preparo, conhecimento, bom-senso, etc.) não passa pelo crivo municipal, a quem cabe a mera função de executor. E sem discricionariedade.

Embora não seja invejável do ponto de vista técnico, é eficiente do ponto de vista prático, visto que opera à míngua de recursos e financiamentos. Trata-se de um sucedâneo de administração, enquanto não se opera o processo de refazimento do Estado em novas bases, como a estrutura de financiamento político, a transparência e a responsabilidade jurídica dos gestores.

04/04/2009

Além das redes de colaboração

Arquivado em: Internet, Sociedade — Tags:, — Fernando Leme @ 4:41 pm

untitledpdf-paginasO livro ainda está sendo digerido por mim, mas a atualidade do tema, a qualidade e quantidade de autores e a menção ao organizador me obrigam a terminar a leitura em pouco tempo.

Porém, não resisti à tentação e sugiro a leitura deste livro de Nelson De Luca Pretto e
Sérgio Amadeu da Silveira.

O livro pode ser baixado neste link.

“O que se buscou no projeto como um todo foi fazer recombinações e as correlações entre coisas aparentemente distintas e distantes, mas incrivelmente intrínsecas. Buscamos mostrar que a razão instrumental não consegue ficar imune diante do intercâmbio comunicativo entre os nós das redes. Necessário se faz, portanto, efetivamente ir além das redes de colaboração e evidenciar as possibilidades, a potencialidade e os riscos que as tecnologias do poder trazem para a diversidade cultural e para a emancipação das subjetividades.”

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