Universo Fer

25/06/2009

Quer dizer nada

Arquivado em: Dá licença? — Fernando Leme @ 6:42 pm

Me lembrei de que esqueci seu nome
e tentei, cavando, reencontrar o sentido
esforço inútil
se na verdade me esqueci de tudo

Ainda não me entendo
mas já sei me explicar
e vem tempo e vai tempo
neste lugar

E tem tempo que a riqueza de lembrar
justificava a ignorãncia de saber
não que se saiba mais ou menos
sem entender por quê

A memória pacifica
porque constrói na gente
a ilusão da caminhada,
e, do nada, uma existência

Me lembrei de que esqueci seu nome
dolorido que tanto significava
e tudo mais quer dizer nada

17/06/2009

Notícia em foco, uma crítica

Arquivado em: Sociedade — Tags:, — Fernando Leme @ 11:50 pm

A estrutura atual de comunicação de massas encontra-se viciada. Pior, seus vícios são conhecidos pela sociedade atenta, mas passam desapercebidos pelo público-alvo das publicações. Uma das deficiências mais claras é a dificuldade de se permitir a pluralidade ou ao menos, dar voz ao contraditório. O Notícia em Foco, da CBN, nesta semana, produziu um destes eventos que a pretexto de informar acabam, intencional ou acidentalmente, influenciando um ponto de vista que seja favorável à estrutura vigente.

O debate nem poderia sê-lo, visto que não havia interlocutores em defesa das novas tecnologias ou mídias sociais, e o que se viu foi um desfile de desinformação e assombro ante o fim da mídia impressa, tido como inevitável. Uma vez que, no programa, esta voz (necessária à existência do debate como tal) não foi ouvida, responderei eu as perguntas.

Tema: O papel do jornalismo de fiscalizar o poder e denunciar abusos está ameaçado?
O tema é, em si, falacioso visto que não há nenhuma garantia real de que os diversos veículos existentes sejam fiscalizadores e denunciadores isentos. Ou então a mesma pergunta caberia em diversos temas: dependência ecônomica; defesa de  classe, corporativismo, interesse político, favorecimento. Porque todas estas questões já ameaçam a isenção e independência de qualquer veículo.

NF-CBN. O jornalismo está na categoria de espécie ameaçada?
Não acredito. Como Eugenio Bucci destacou, o que está em risco é um modelo de negócio fadado ao fracasso, em breve substituído por outro mais plural e democrático.

NF-CBN. A renda de internet é insuficiente para a manutenção do modelo.
Sim, que morra.

NF-CBN. O modelo que está em risco é o que possibilitou que a internet crescesse.
A afirmação de Marisa Tavares foi, no mínimo, mentirosa. O desenvolvimento tecnológico que resultou na internet que temos hoje nem de longe dependeu dos veículos de mídia impressa. A afirmação demonstra completo desconhecimento da estrutura técnica das ferramentas, das quais o jornalismo tradicional apenas fez uso.

NF-CBN. O “jornalismo” pela internet possibilitará, por ex., o envio de correspondentes internacionais ou seremos reféns do noticiário local?
Existe a possibilidade de que determinados modelos de negócios viabilizem o envio de correspondentes. A negação da afirmativa seria fatalista e infundada. O que é importante ressaltar, entretanto, é que a redução do número de intermediários entre os fatos e o leitor só pode ser vantajosa, visto que inúmeras e sucessivas interpretações e enganos tendem a desmontar a realidade objetiva. Deste ponto de vista reféns éramos há pouco tempo, porque dependíamos de agências e veículos em sucessão para nos trazer informação e atualmente podemos consultar in loco os acontecimentos. A cobertura independente do mais recente massacre israelense em Gaza é um exemplo.

NF-CBN. Se não é possível viabilizar economicamente o jornalismo investigativo, como ficamos?
Mais uma pergunta que tende mais à retórica do que a discussão coerente. Seria melhor formulada assim: Se os veículos de mídia impressa não puderem viabilizar economomicamente seu produto, como ficamos? Simples, não ficam, não há empresa sem lucro. O que também creio é que nunca faltarão investigadores, cidadãos atentos, remunerados ou não. Este monopólio da ética (que devido a sua própria natureza nunca pertenceu aos veículos de massa, convenhamos) é um recurso que busca a valorização dos meios em função de um suposto fim ou valor social. Mais uma vez, desacredito do monopólio da ética.

NF-CBN. Como o blog viverá sem ser alimentado pelos jornais, até para sustentar a audiência que tem hoje?
Já há diversos exemplos de veículos de internet que viabilizam seu produto por conta própria, sem depender do conteúdo dos jornais. Publicidade “relacionada ao tema” como o google ad-sense distancia anunciantes e expositores e é uma garantia de isenção. Este, no entanto, é só um exemplo e há diversos modelos viáveis. O que a pergunte esconde, antes mesmo de ser respondida, é a suposição de que não há blog com informação própria, o que é, de cara, uma mentira.

NF-CBN. Enquanto o jornalismo continuar a ver na internet um inimigo, estará condenado ao mesmo futuro da indústria fonográfica?
Sim. Na verdade não há salvação para este modelo; quer veja na internet um aliado ou não. A produção humana voltada ao meio desvinculou-se de seu conteúdo, e o que sobra é uma defesa burra do plástico (no caso da indústria fonográfica) e do papel (no caso da imprensa) enquanto o conteúdo (que é o que interessa) há muito sublimou-se.

NF-CBN. Quem paga os blogs, principalmente estes de linchamento virtual?
Embora não se deva tratar a exceção como a regra, vamos responder às duas questões.
As diversas plataformas gratuitas de comunicação (blogger, blogspot, wordpress, etc) têm cada uma seu próprio modelo de viabilidade econômica. E estão funcionando!
Quanto aos crimes de injúria, difamação, ofensa à dignidade, privacidade, ou quaisquer ofensas cíveis ou criminais terão seus responsáveis punidos nos termos da lei, como sempre, aliás.

NF-CBN. Qual o limite em que se vira refém de uma corrente de boatos?
A pergunta já foi respondida, com suficiente propriedade, acima.

NF-CBN. O incentivo do poder público não seria uma saída? Seria a BBC um modelo viável?
Há vários modelos em discussão. Todos eles mais ou menos viáveis, de acordo com a escolha dos empreendedores.
Há os modelos não-lucrativos, como o do cidadão informado e interessado, ou o jornalismo comunitário, agências independentes, etc.
Há os modelos de negócio mais tradicionais, vivendo de doações, marketing indireto, ou até mesmo as tradicionais assinaturas.
Enfim, essa discussão é irrelevante. Sempre haverá alguém com criatividade suficiente de desenvolver um modelo viável que se adapte a seus interesses ou objetivos. O que aparenta ser regra geral, todavia, é que esses modelos de negócios trabalham sempre com expectativas de investimento e retorno do capital exponencialmente mais baixas que a mídia impressa. Por vários motivos.

NF-CBN. A imprensa escrita acabará desenvolvendo um modelo analítico.
A especialização e a análise são estratégias de todo veículo moderno. Percebeu-se que o “clínico geral” do noticioso é superficial e tende a irrelevância.

Citando Gay Talese,”…o governo usa a imprensa mais do que a imprensa usa o governo…”.
NF-CBN. Em alguns veículos de comunicação, a principal fonte de receita vem da publicidade do governo, como ser independente assim?
De fato, as fontes de financiamento são fatores fundamentais no aprisionamento ideológico dos diversos veículos. A restrição à publicidade estatal, entretanto, revela um desvio da compreensão do tema. Visto que o governo não é o único grande anunciante no país. Empresas de telefonia, redes de varejo, o agronegócio, todos eles detém parcelas de lealdade da imprensa e ameaçam sua credibilidade.

NF-CBN. O blog da Petrobras.
O tema já foi suficientemente discutido. A internet vibrando e a mídia impressa esperneando. Acho que se trata de um exemplo da restrição do número de intermediários e a valorização das fontes primárias, não-interpretativas e menos sujeitas a edições com interesses diversos do jornalismo isento.

NF-CBN. E em relação às notícias atualizadas no twitter não correm o risco de servir a interesses?
Repito-lhe a pergunta: e um jornalão, caro, lento e carregado de dependẽncias econômicas diversas, não corre o risco de servir à “interesses”?

09/06/2009

O sucesso do blog da Petrobras

Arquivado em: Sociedade — Tags:, — Fernando Leme @ 6:08 pm

Que verifique-se a tendência, desde há algum tempo perceptível, de que as chamadas “mídias sociais” e sua aparente desorganização contribuirão para uma sociedade livre dos “formadores de opinião”.

A partir da criação das ferramentas de alimentação RSS cada leitor é o editor de seu próprio jornal. Cada um pode, livremente, escolher quais fontes lhe interessam e quantos intermediários inserir entre os fatos e as idéias.

Neste contexto alguma mente brilhante concebeu o blog da petrobras; se desde sempre precisou-se contar com o beneplácito das publicações tradicionais para a divulgação (Chateaubriend que o diga) de notícias, do mesmo modo dependia-se das mesmas publicações para consertar eventuais falhas (acidentais ou intencionais) na qualidade da informação.

O que se verifica, entretanto, é que os intermediários tradicionais, corporificados nos jornalões de que dispomos hoje são instrumentos poderosos na formação da opinão pública e o fazem seguindo uma ética particular. Afeita aos seus interesses e do seu grupo, interesses que raramente tangenciam o interesse público.

Com a criação da CPI e o foco inusitado surgido/criado sobre a Petrobras, a empresa viu nas mídias sociais um canal livre, aberto e sem intermediários entre si e o público interessado.

A Folha de S. Paulo enlouqueceu. Como assim? Uma das principais fontes de controvérsia e jogadas políticas saiu do meu controle? Eu não sou mais o único detentor de informações, de modo a poder editá-las como quiser, publicar apenas os comentários interessantes? Manipular a opinião pública?

Um dos cães da caça do jornal, Kennedy Alencar, um dos que tem permissão para escrever em primeira pessoa, redigiu um texto assustadoramente desencontrado. Quase um choramingo, o resmungo de quem, acostumado a roubar mangas, se vê sem árvores.

Felizmente a tendência é irreversível, parabéns à Petrobras e aos 140 mil acessos em pouquíssimo tempo. Vida curta aos jornalões.

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