Universo Fer

31/08/2009

A Míriam a soldo

Arquivado em: Jornalismo, Política — Tags:, , , — Fernando Leme @ 4:49 pm

Embora o tema careça de resultados e provas objetivos, Míriam Leitão decidiu bater na mesma tecla. Indefinidamente.
Se ao tratar de economia, o jargão e a indefinição próprios do tema permitem certa margem para interpretações as mais descabidas, em política sua escolha pessoal (ou profissional) deixa evidente um projeto de desestabilização do governo e de inviabilização da candidatura Dilma.
Hoje a Míriam cometeu os seguintes argumentos:

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Milton Jung: O resultado da fiscalização na receita caiu sob a gestão Lina. É o que os números mostram?
Míriam: Eu acho que estão manipulando os números e portanto não se pode confiar neles. O governo está querendo desmoralizar a Lina, desautorizando-a divulgando informações que reduzam o respeito por ela e tal.
Fernando: A arrecadação caiu sob a gestão Lina, isso é um fato. Claro, deve-se a diversos fatores, mas não há que se falar em factóide em relação à arrecadação.
O “governo está tentando” é um recurso fácil demais, Míriam, e você sabe disso. A própria Globo está supervalorizando um tema paralelo, explicado em detalhes no “Entre Aspas” (com direito a um mico da Mônica Waldvogel) com um painel de interesses distintos, mas unânimes em admitir a incompetência da ex-secretária; resultado claramente diverso do que esperava a direção do programa.

Míriam: Se os assessores de Lina são incompetentes, porque foram nomeados? Porque foram nomeados pelo próprio ministro Guido Mantega.
Fernando: Os assessores de Lina foram nomeados por ela, seguindo sua lógica sindical particular. E você sabe disso.

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É uma pena constatar o jornalismo à serviço de projetos outros que não a construção de um país. Ou o besta sou eu.

Vou pedir uma carona para o Belchior.

27/08/2009

Míriam Leitão ou Não pode porque não pode

Arquivado em: Economia, Jornalismo — Tags:, , — Fernando Leme @ 1:21 am

A argumentação é fator fundamental de qualquer discussão. Em contexto jurídico a ausência de argumentos pode conduzir à sucumbência ou a revelia. Em política não ter nada a dizer significa expor-se ao escárnio; e no jornalismo?

No jornalismo pode. No jornalismo tradicional tudo pode. Inclusive não argumentar quando se pretende defender uma tese.

O IPEA divulgou recentemente um estudo em que afirma que a produtividade do setor público cresceu mais nos últimos anos do que a do setor privado. Ótimo, fiquei surpreso, dei uma olhada nos gráficos da apresentação, mas como entendo lhufas da metodologia aplicada e não estou disposto a investir tempo nisso agora, guardei a informação na fila de “Assuntos Auspiciosos”.

Fui obrigado a abrir minha gaveta de novo por causa da Míriam. Vamos lá, supõe-se que ela tenha:
1. Mais tempo;
2. Mais fontes (documentos e pessoas);
3. Mais conhecimento;
Afinal de contas trata-se de uma jornalista especializada em economia. Qual foi minha surpresa?
Nem tempo, nem conhecimento e as fontes (ah, as fontes) ela foi buscar no PSDB. Vejamos os argumentos:

===== Cena 1, eu em casa com a Míriam no telefone =====

Fernando – e a produtividade?
Míriam – O comunicado da presidência… normalmente feitos sob medida para justificar alguma medida (sic) do governo, defender o governo…
Fernando – (atento) Tudo bem Míriam. Mas e a produtividade?
Míriam – segundo os economistas com quem eu conversei isso é um erro técnico elemntar porque é muito difícil comparar o valor adicionado entre os dois setores. Porque, vamos pegar a indústria: quantos carros a mais se faz com o mesmo número de empregados? Então isso é um aumento da produtividade.
Fernando – (levemente espantado) Míriam, isso: “Quantos carros a mais se faz com o mesmo núemro de empregados?” é uma pergunta. Para respondê-la influem diversos fatores: quais empregados, com qual ferramental tecnológico e principalmente, quais carros. Esta pergunta não É aumento de produtividade.

===== Neste momento as luzes piscam e o porquinho da índia sorri meio confuso ====

Míriam – O que é produção no setor público? É muito difícil saber o que é produção no setor público … é…  é…. ele…. ele não vende. É uma atividade não-mercantil. E até quando é uma atividade não-mercantil no setor privado é mais fácil de medir … pelo preço, … é…. pelo preço se as pessoas estão pagando aquilo é porque vale aquilo.

==== Os três arapongas que se revezam no grampo, desta vez ouvindo juntos, sorriem ====

Fernando – Querida, pare, respire. Produtividade não se mede unicamente pelo valor. Aproveitamento de insumos, desgaste do material, quantidade, são alguns dos fatores passíveis de análise. Mas o mais importante; como que você pretende medir (em qualquer setor) uma atividade não-mercantil (que não está à venda, portanto) pelo preço. Míriam, pelamor!

Míriam – é, então você não compara uma coisa com a outra, esse estudo é para dizer que o setor público é mais produtivo que o setor privado. Uma briga de fla-flu entre os dois setores que este governo está incentivando para justificar seu estatismo, o aumento de salário de funcionários e tal.

(narrador: quando o Lula dá exemplos de futebol todo mundo reclama)

Fernando – Você está começando a me irritar. Você já disse duas vezes que não se pode comparar uma coisa com outra porque não se pode comparar uma coisa com outra. Cadê o argumento Leitão?
Míriam – o prof. Samuel Pessoa estava me explicando e também o José Roberto Afonso, que faz parte da equipe de assessores do Tasso Jereissati…
Fernando – (rindo) De quem?

==== A bancada do PSDB na câmara regurgita o último camarão ====

Míriam – O que ele explica, tecnicamente, ele explica tecnicamente a crítica que ele faz e prof. Samuel Pessoa também dizendo isso: não há como você comparar as duas coisas.

(narrador: parei meu, assim não dá. Ô diretor!)

Fernando – (boquiaberto, embasbacado, translúcido)…
Míriam – … umas coisas esquisitas. Roraima teve um aumento de 136%, foi o estado em que mais cresceu a produtividade…
Fernando – (chorando) Não sei se sim, não sei se não. Porque não pode?
Míriam – São Paulo teve um aumento de 1,7% na produtividade…
Fernando – (dores abdominais crescendo) Não sei se sim, não sei se não. Porque não pode? Tem gente que toma Gingko Biloba e tem gente que toma viagra…
Míriam – não faz o menor sentido esta comparação. Ela é tecnicamente equivocada. Porque não se compara a produtividade do setor público com a produtividade do setor privado.

==== O diretor, o narrador, o claque, cinco transeuntes, os três arapongas e um professor de lógica já se retiraram. Fernando, O Bravo, segue firme na lida ====

Fernando – Míriam, eu preciso ir ao banheiro mas te dou a última chance e prometo que se você me responder eu te dou três tentos. PORQUÊ não se pode comparar produtividades?
(silêncio)

==== cai a ligação, entra o jingle da CBN e a Míriam “pensa” em voz alta: Enrolei mais um ====

25/08/2009

Um incentivo à deduragem

Arquivado em: Direito, Política — Tags: — Fernando Leme @ 12:08 pm

Fonte: http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2009/08/13/um-incentivo-a-deduragem/

Delatar é um ato não raro possuído por uma exuberante certeza – e desejo – de poder sobre a vida dos outros. A delação encontra trânsito e é incentivada pelo Estado policial (ou com vocação policial) e exerce o papel de controle do cidadão sobre o cidadão, no pressuposto de que cada indivíduo é potencialmente um fiscal, um agente do Estado capaz de apontar os pretensos inimigos da “ordem”; e cada indivíduo é pontencialmente um criminoso. Do lado do indivíduo que delata, o poder a ele conferido pela delação é o de sair da planície dos cidadãos com os mesmos direitos e regidos pelas mesmas leis e o de ascender ao aparelho de Estado, mesmo que pela porta da atividade repressiva.

Os dois lados, do delator e do Estado que incentiva a delação, são alimentados e justificam seus atos pela ideia de que sobre o que julgam verdade e justiça não há possibilidade de dissenso – a controvérsia é condenável, intolerável e em princípio pode ser criminosa. O nazismo, a União Soviética de Stálin e o Estado policial incentivado pela ação do senador Joseph Raymond McCarthy entre 1950 e 1956, nos Estados Unidos, são os exemplos clássicos da relação entre delação e autoritarismo. Nesses casos históricos, a delação serviu igualmente para alimentar ambientes políticos fortemente radicalizados e forçar “consensos” aparentes, formados na verdade por ações repressivas que incluíam a inserção do cidadão no papel de vigia de seu vizinho. Pelo medo, portanto.

A Lei Antifumo do governador José Serra parte de uma premissa altamente democrática – a de que o não-fumante tem o direito de preservar a sua saúde, ameaçada pelo uso do cigarro em ambientes fechados. A partir desse correto entendimento do direito do não-fumante, foi elaborada uma lei conceitualmente discutível. Todo o texto legal foi montado em torno da delação. A pessoa que fuma em locais públicos fechados não será punida, ou melhor, ela apenas será punida se for denunciada pelo dono do estabelecimento em que fumou. Quem delata fica com a razão; quem não delata assume o crime. Se o fumante acende um cigarro dentro de um restaurante e um fiscal flagra a transgressão, o dono do restaurante será multado. O fumante irá para casa sem que nada tenha acontecido a ele. Se, todavia, o dono do restaurante chamar a polícia e delatar o fumante, estará livre de punições, e o transgressor será punido. Nessa hipótese, o dono do restaurante será premiado pela delação e não sofrerá as sanções previstas na lei para os estabelecimentos cujo ambiente não está livre do fumo.

Pela lei, a delação passa a ter status de prova. Uma pessoa qualquer que estiver no restaurante quando alguém acender um cigarro lá dentro poderá ligar para um 0800 e fazer uma denúncia, ou preencher um “formulário” na internet. A sua palavra é prova contra o restaurante e dela decorrerão sanções legais. Para a lei, basta que o denunciante diga que não mentiu para que a sua denúncia seja considerada verdade. O estabelecimento acusado, no entanto, terá que provar que a denúncia foi mentirosa para ser considerado inocente.

Outra situação: o morador de um condomínio pode usar o mesmo 0800, ou o site da lei antifumo, para denunciar um vizinho que tenha fumado em áreas fechadas e públicas do condomínio. O vizinho-delator tem autoridade, pela lei, de autorizar a entrada dos fiscais no condomínio. Mais uma vez, a denúncia será a prova, e certamente não existirá uma outra: até que os fiscais cheguem ao condomínio, o morador delatado pelo uso do cigarro certamente já terá dado um sumiço no cigarro. É uma situação onde dificilmente ocorrerá um flagrante. Nesse caso também a multa é do condomínio. Aí também prevalece o conceito de que é preciso vigiar o vizinho para que não haja prejuízo coletivo.

A ideia da delação é central na lei, e essa intenção foi propagandeada pelo governo do Estado. O secretário de Justiça do Estado, Luiz Antônio Marrey, ao comentar uma pesquisa do Instituto GPP e da InformEstado que indicava que 64,9% dos entrevistados não pretendem denunciar locais com fumantes, disse que, num primeiro momento, a “metade que vai denunciar é suficiente para colaborar com a fiscalização”. A tendência é que a delação aumente, para o bem de todos, disse o secretário de Estado da Saúde, Luiz Roberto Barradas Barata: “O uso do cigarro em ambiente interno é culturalmente aceito há anos. Começamos a mudar isso só agora. Por isso, nesse primeiro momento, a intenção de denunciar não aparece. Acredito que, com a aplicação da lei e os donos de bares se engajando em preservar os estabelecimentos, as denúncias vão surgir”.

Portanto, o governo do Estado julga desejável que os paulistas se dediquem à delação. E seus representantes deixam claro que a intenção da lei é exatamente essa.

A tempo: sou ex-fumante e a fumaça do cigarro me incomoda profundamente, mas não mais do que o incentivo à deduragem.

22/08/2009

Um país na vanguarda do mundo

Arquivado em: Música — Tags:, — Fernando Leme @ 2:26 am

É raro presenciar tamanho grau de sofisticação, cuidado e qualidade técnica.

Outono, o disco mais recente do baterista brasileiro Nenê conta com um pianista (Írio Jr.) que traz do erudito uma profundidade harmônica meio Jobim/Koellreutter enquanto o Nenê, sempre verborrágico e adepto de andamentos estratosféricos, desta vez joga com o time, diminui a velocidade e produz uma obra-prima com o baixista Alberto Lucas.

Um disco com tamanho aprimoramento artístico e qualidade de gravação coloca o Brasil na vanguarda do mundo.

20/08/2009

Richard Bona numa tarde chuvosa

Arquivado em: Jornalismo — Fernando Leme @ 6:32 pm

Para animar uma tarde cinzenta nada como ouvir Bona.

19/08/2009

OpenDNS ou A Net está me irritando

Arquivado em: Internet — Tags:, — Fernando Leme @ 1:42 am

Eu fugi da Telefônica e do Speedy antes que os tais problemas de conexão atingissem o nível que atingiram. A verdade é que o Speedy, pelo menos no período em que fui assinante, nunca funcionou direito.

Fugi assim que pude e assinei o Virtua da Net. Fui um usuário absolutamente feliz por quase dois anos. Nos últimos meses, provavelmente por causa do crescimento assustador no número de usuários, a Net criou um problema interessante.

A velocidade da conexão em si não caiu (ou pelo menos não além daquela falácia de usarmos 10% da “velocidade” contratada). O que diminuiu assustadoramente foi a capacidade dos servidores do Virtua de “resolver” os endereços IP, o tal DNS.

Basicamente este serviço é aquele responsável por transformar um pedido alfabético (digamos www.google.com) para um número de IP e permitir a conexão.

Pois é, nestes últimos meses a qualidade da resolução de DNS no Virtua caiu verticalmente.

Daí que um tempo atrás eu havia descoberto o OpenDNS, resumindo muito é um grupo de servidores que gratuitamente se encarrega de resolver seus endereços.

Ainda não entendi o modelo de negócio e não sei que lucro maria leva. O que sei é que funciona. Desde quando resolvi minha falta de coragem de mudar a minha lenta porém estável conxẽo de internet para outro servidor fiquei feliz da vida.

O serviço é mesmo gratuito, é absolutamente estável e rápido. Recomendo.

http://www.opendns.com/

A ilusão do tempo

Arquivado em: Dá licença? — Tags:, , — Fernando Leme @ 1:17 am

-Nossa! Como este ano está passando mais depressa que os outros!

Todo mundo já ouviu esta frase ou suas diversas variações alguma vez na vida. Pode ser por surpresa, falta de assunto ou sei lá; mas é geralmente sincera.

O problema é que a constatação, embora por vezes assuma feição apocalíptica, tem fundamento matemático.

Digamos que uma pessoa tenha 20 anos. Isso significa que ela viveu 7.300 dias; para esta pessoa um mês corresponde a 0,41% da sua vida. Ao fazer 30 anos, um mês para esta mesma pessoa corresponderá a 0,27% dos dias que ela viveu.

Considerando que a nossa sensação fisiológica do tempo não se altera durante a vida temos que a soma de cada um dos anos que vivemos vai soterrando a proporção dos demais de modo que a nossa ilusão tende a diminuir o espaço correspondente. E assim:

Este ano passou mais rápido que o anterior. E o próximo passará mais rápido que este.

Claro que estamos expostos a duas correntezas em sentidos contrários. A primeira é que a relevância matemática se dissolve na nossa capacidade/necessidade de esquecer os dias e as coisas que vivemos. A memória do passado, pelo menos para mim, é um poço com as bordas esbranquiçadas em que palavras e pessoas se misturam e desaparecem na medida em que me afasto delas. A segunda é que, segundo Einstein, nossa percepção de tempo/espaço é ilusória e trata-se de uma construção mental de caráter fisiológico.

Assim, olha só que besteira, ainda que o sintamos mais rápido ou mais devagar, o Tempo (tal qual o imaginamos) nunca esteve lá mesmo e portanto perder “tempo” pensando nisso é um duplo desperdício.

Mas a vida não é isso mesmo? Encher o espaço vazio com um monte de penduricalhos de modo a ter a impressão de que a vida vai de cá para lá. Emprestar um sentido besta à existência é um jeito de não enlouquecer. Ou pelo menos para poder conversar com a vizinha no elevador.

18/08/2009

Sarah Palin – the best of

Arquivado em: Política, Sociedade — Fernando Leme @ 3:38 am

Esta mulher foi candidata a vice-presidente dos Estados Unidos na chapa do McCain. Dá para acreditar? O TPM se deu ao trabalho de editar os melhores momentos da besta neste vídeo:

ps. É este tipo de pessoa que recebe o apoio de gente como o Reinaldo Azevedo e do Noblat.

ps 2. A referência ao “the horror, the horror” no começo foi genial.

ps 3. Ainda faço a legenda…

15/08/2009

Esquecimento útil

Arquivado em: Política — Tags:, , — Fernando Leme @ 1:03 am

A direita brasileira e seus canais de comunicação andam tão ocupados numa briquinha fraticida entre a direita que finge apoio ao governo e a direita que tenta fazer oposição que utilmente se esqueceu de mencionar a vergonhosa conduta da direita norte-americana.

Segundo alguns estrategistas políticos do lá de lá do Caribe, embora o partido republicano tenda à irrelevância, seu comportamento atual ainda consegue respaldo de uma parcela crescentemente envelhecida e desinformada da sociedade americana.

Não se pode classificar seu comportamento de nada menos que vergonhoso. A mentira mais óbvia, a manipulação mais crua e cara-de-pau mais evidente se encontram por lá. Dignamente representados pelos apresentadores da Fox News.

Coincidentemente a imprensa nacional decidiu ignorar o tema da reforma do sistema de saúde americano, fazendo análises pontuais e irrelevantes sobre uma ligeira queda na popularidade do Presidente Obama. Tudo bem, este é um lado da questão; mas será que ficaram todos envergonhados da postura nazista dos membros e entusiastas do partido republicano?

Não sei por aqui, mas na CNN e na MSNBC o bicho tá pegando.

07/08/2009

Sinais de opressão e o Estado Laico

Arquivado em: Direito, Sociedade — Tags:, , — Fernando Leme @ 12:39 am

Toda defesa sanguínea traz consigo preconceitos arraigados ou traumas inconfessáveis. E toda defesa das manifestações públicas de religiosidade carrega consigo a necessidade atávica daquele que crê em provar aos demais, mas principalmente a si mesmo, sua fé.

Como (é um) bem intangível a fé não pode ser provada, ainda que manifestada publicamente. A fé é antes de tudo um exercício. Uma masturbação do entendimento que busca, a partir do invisível, a justificação da existência. As demonstrações públicas servem assim para dar alguma materialidade, trazer à tona, um sentimento daquele que crê. Infelizmente tais manifestações vão em sentido contrário ao ensinamento do próprio Cristo que apregoava “não saiba atua mão esquerda o que faz a direita”.

Se a oposição às manifestações públicas tivesse apenas este caráter moral, privado, já seria pertinente. Quanto mais quando tratam-se de manifestações do Estado, como nos casos de crucifixos em prédios públicos. Será que é tão difícil assim compreender que há demonstrações privadas e há demonstrações públicas? Será que é tão difícil compreender que ao Estado não cabe carregar nenhuma  nas costas?

Hipocrisia é dizer que aceita a fé de todos, inclusive a não-fé (sem caracterizá-la como entorpecimento) mas continuar enfiando a sua, goela abaixo das minorias. Tanto mais quando se diz, na tentativa de ridicularizar a iniciativa de retirar sinais distintivos de fé, que se deveria então derrubar o Cristo Redentor.

Desenhos e bandeiras remetem ao sentimento tribal, mítico e primitivo, que constrói a partir de sinais a sua identidade e permite a distinção cultural e belicosa entre grupos. Tais sentimentos, atrelados à inescapável relação entre significante e significado, são transportados através dos tempos pelos crucifixos, crescentes, véus e burcas e são incompatíveis com o esforço para a construção de um Estado não apenas laico, mas plural.

Sinais de fé são assim não apenas manifestações privadas de religiosidade e transcendência, mas um acinte.

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