A argumentação é fator fundamental de qualquer discussão. Em contexto jurídico a ausência de argumentos pode conduzir à sucumbência ou a revelia. Em política não ter nada a dizer significa expor-se ao escárnio; e no jornalismo?
No jornalismo pode. No jornalismo tradicional tudo pode. Inclusive não argumentar quando se pretende defender uma tese.
O IPEA divulgou recentemente um estudo em que afirma que a produtividade do setor público cresceu mais nos últimos anos do que a do setor privado. Ótimo, fiquei surpreso, dei uma olhada nos gráficos da apresentação, mas como entendo lhufas da metodologia aplicada e não estou disposto a investir tempo nisso agora, guardei a informação na fila de “Assuntos Auspiciosos”.
Fui obrigado a abrir minha gaveta de novo por causa da Míriam. Vamos lá, supõe-se que ela tenha:
1. Mais tempo;
2. Mais fontes (documentos e pessoas);
3. Mais conhecimento;
Afinal de contas trata-se de uma jornalista especializada em economia. Qual foi minha surpresa?
Nem tempo, nem conhecimento e as fontes (ah, as fontes) ela foi buscar no PSDB. Vejamos os argumentos:
===== Cena 1, eu em casa com a Míriam no telefone =====
Fernando – e a produtividade?
Míriam – O comunicado da presidência… normalmente feitos sob medida para justificar alguma medida (sic) do governo, defender o governo…
Fernando – (atento) Tudo bem Míriam. Mas e a produtividade?
Míriam – segundo os economistas com quem eu conversei isso é um erro técnico elemntar porque é muito difícil comparar o valor adicionado entre os dois setores. Porque, vamos pegar a indústria: quantos carros a mais se faz com o mesmo número de empregados? Então isso é um aumento da produtividade.
Fernando – (levemente espantado) Míriam, isso: “Quantos carros a mais se faz com o mesmo núemro de empregados?” é uma pergunta. Para respondê-la influem diversos fatores: quais empregados, com qual ferramental tecnológico e principalmente, quais carros. Esta pergunta não É aumento de produtividade.
===== Neste momento as luzes piscam e o porquinho da índia sorri meio confuso ====
Míriam – O que é produção no setor público? É muito difícil saber o que é produção no setor público … é… é…. ele…. ele não vende. É uma atividade não-mercantil. E até quando é uma atividade não-mercantil no setor privado é mais fácil de medir … pelo preço, … é…. pelo preço se as pessoas estão pagando aquilo é porque vale aquilo.
==== Os três arapongas que se revezam no grampo, desta vez ouvindo juntos, sorriem ====
Fernando – Querida, pare, respire. Produtividade não se mede unicamente pelo valor. Aproveitamento de insumos, desgaste do material, quantidade, são alguns dos fatores passíveis de análise. Mas o mais importante; como que você pretende medir (em qualquer setor) uma atividade não-mercantil (que não está à venda, portanto) pelo preço. Míriam, pelamor!
Míriam – é, então você não compara uma coisa com a outra, esse estudo é para dizer que o setor público é mais produtivo que o setor privado. Uma briga de fla-flu entre os dois setores que este governo está incentivando para justificar seu estatismo, o aumento de salário de funcionários e tal.
(narrador: quando o Lula dá exemplos de futebol todo mundo reclama)
Fernando – Você está começando a me irritar. Você já disse duas vezes que não se pode comparar uma coisa com outra porque não se pode comparar uma coisa com outra. Cadê o argumento Leitão?
Míriam – o prof. Samuel Pessoa estava me explicando e também o José Roberto Afonso, que faz parte da equipe de assessores do Tasso Jereissati…
Fernando – (rindo) De quem?
==== A bancada do PSDB na câmara regurgita o último camarão ====
Míriam – O que ele explica, tecnicamente, ele explica tecnicamente a crítica que ele faz e prof. Samuel Pessoa também dizendo isso: não há como você comparar as duas coisas.
(narrador: parei meu, assim não dá. Ô diretor!)
Fernando – (boquiaberto, embasbacado, translúcido)…
Míriam – … umas coisas esquisitas. Roraima teve um aumento de 136%, foi o estado em que mais cresceu a produtividade…
Fernando – (chorando) Não sei se sim, não sei se não. Porque não pode?
Míriam – São Paulo teve um aumento de 1,7% na produtividade…
Fernando – (dores abdominais crescendo) Não sei se sim, não sei se não. Porque não pode? Tem gente que toma Gingko Biloba e tem gente que toma viagra…
Míriam – não faz o menor sentido esta comparação. Ela é tecnicamente equivocada. Porque não se compara a produtividade do setor público com a produtividade do setor privado.
==== O diretor, o narrador, o claque, cinco transeuntes, os três arapongas e um professor de lógica já se retiraram. Fernando, O Bravo, segue firme na lida ====
Fernando – Míriam, eu preciso ir ao banheiro mas te dou a última chance e prometo que se você me responder eu te dou três tentos. PORQUÊ não se pode comparar produtividades?
(silêncio)
==== cai a ligação, entra o jingle da CBN e a Míriam “pensa” em voz alta: Enrolei mais um ====