Enquanto estamos ainda acompanhando como a uma novela os desdobramentos em Honduras, a diplomacia norte-americana da gestão Obama acabou de dar uma demonstração de organização, coerência e uso adequado dos serviços de inteligência.
Esta demonstração acabou por deixar claro que enquanto alguns trabalham, há os que preferem o palpite. Uma série de medidas tomadas pelo governo americano (de diversos níveis) foram alvo da grita da direita, que aqui no Brasil acusou Obama de ser um “estagiário patético”. Os argumentos foram:
1. Render-se à pressão da Rússia na desistência da instalação do “escudo antímísseis” no leste europeu. Esse argumento nem precisa de contexto. O tal “escudo” caiu por um motivo simples: ele não funciona. Depois de quase dez anos e milhões de dólares em investimentos o protótipo a que se chegou simplesmente não serve como escudo. Sabe-se lá quantos anos e dólares mais seriam necessários para uma proteção efetiva. Obviamente a direita americana escolheu o argumento de que Obama estaria tornando a “América” menos segura. Argumento repetido pela matilha nacional.
2. Ser “manso” com o Irã. A verborragia belicista da administração Bush não conseguiu NENHUM resultado positivo no que diz respeito ao enriquecimento de urânio e possível construção de um artefato nuclear no Irã. Por outro lado, Ahmadinejad já está fragilizado por causa das dúvidas em relação ao processo que lhe outorgou mais um mandato e a possibilidade de diálogo com o Ocidente desmonta seu argumento reincidente de que Satã é o outro, e desta forma conseguir alguma coesão nacional. Bom, quando Satã estende a mão, a quem culpar?
3. Pregar um mundo sem armas nucleares. Não sei você, mas eu não pretendo morrer incinerado nem enfrentar um pós-guerra nuclear. De qualquer forma, estas declarações emprestam ao governo americano um ar de coerência e compromisso com a criação de um mundo menos violento (ou pelo menos sem extinção em massa). Além disso, a possibilidade de que armamento atômico caia nas mãos de extremistas é um risco grande demais (para qualquer país) e, portanto, pregar a não-proliferação e a diminuição do número dos artefatos já existentes é uma meta honrosa.
4. Ser condescendente com a canalha Hondurenha. Vale ressaltar que a “canalha” a que as críticas se referiam são o presidente deposto e seus seguidores. Em Honduras havia uma ordem constitucional em risco, cuja solução deveria se dar pelos canais democráticos. O golpe militar, seu arrepio por direitos e garantias fundamentais (que culminaram no estado de sítio em que o país se encontra hoje) são, em si, o fim da democracia hondurenha. A falácia extrema deste argumento é antiga: vamos acabar com a democracia para defendê-la.
5. Que se submete à discurseira cretina do aquecimento global. Quanto a isso tenho a dizer o seguinte: “O Ministério da Saúde adverte: feiura, burrice e maldade não tem limites”.
Somente depois desta série de medidas o governo Obama revelou as mais recentes fotografias de construções não-declaradas em solo iraniano que poderiam servir para o enriquecimento de urânio. Assim, ao posicionar-se tão claramente naqueles temas, Obama conseguiu a simpatia da reticente Rússia quanto às possíveis sanções contra o governo iraniano (às quais sempre se opôs) e o apoio pessoal de Gordon Brown e Nicolas Sarkozy quanto à defesa clara da segurança internacional. Bingo!
Quem é patético mesmo?