Uma das promessas da Cultura Livre era a de que mudaríamos o foco do produto para o serviço. Esta promessa foi realizada pela metade, porque a outra metade ainda encontra no lucro empresarial e na publicidade seu alicerce econômico.
O código aberto provou ser um método mais eficiente (porque mais rápido) e mais barato de desenvolvimento. Manter uma comunidade de voluntários será sempre mais economicamente viável do que sustentar um grupo de desenvolvedores especializados. E aí jaz a encruzilhada.
Desde que esta constatação tornou-se o alicerce da maioria das empresas de tecnologia atuais, o lucro (fundamento comercial) e a ideologia (fundamento comunitário) encontraram-se mais uma vez ameaçando-se mutuamente por que não ficou claro quem financia o pensamento.
A economia universal é baseada na teoria da escassez (cujo postulado mais conhecido é a lei da oferta e da procura). Uma vez que o produto principal das empresas de tecnologia deixa de ser um bem escasso, como cobrar por ele? Pior ainda, como manter ativa uma comunidade e sua infraestrutura sem obter qualquer vantagem econômica desta atividade.
O Financiamento
A solução mais frequentemente utilizada (e em alguns casos encarada como a panaceia) é a publicidade. O Youtube, o Facebook e o Orkut são exemplos claros em que determinado serviço é oferecido gratuitamente àqueles que se dispuserem a aceitar newsletters de outros produtos e publicidade em seus perfis (o homem-sanduíche em versão digital). O que muita gente ainda não entendeu é o quanto esta solução é provisória.
O que a publicidade tem feito é empurrar um elo para a frente a cadeia de consumo. Não se compra o produto original, mas o produto que é anunciado nele. E o foco no produto persiste!
Por outro lado empresas como a Canonical, Mandriva, IBM e Novell (parcialmente) conseguiram manter a oferta gratuita de seus produtos enquanto financiam sua atividade com a oferta de serviços (para fabricantes e para o consumidor final).
Na web este desafio ainda não encontrou solução satisfatória. Um ponto em que algum lucro justifique a oferta de um serviço. Como crítico do mercado e do consumo não aceito soluções provisórias baseadas num mesmo modelo usado pela televisão nos últimos 50 anos.
Software dirigido pela comunidade e o software público
Comunidades como o Debian, o Slackware e o GoOO são, entretanto, um exemplo de organização e sucesso. Mantendo suas atividades por meio de voluntários, as comunidades desenvolvem seus próprios critérios e códigos de conduta. Transformam-se em centros de excelência na difusão de conhecimento e carregam consigo um histórico de superação. Mantém-se independentes da estrutura econômico-mercantil que as rodeia e são um porto seguro para as investidas da idéia de lucro.
Preciso deixar claro que não sou contrário ao lucro, ao capitalismo, etc. Apenas considero perigoso que esta seja a perna mais importante de um movimento como o software e cultura livres.
Paralelamente, iniciativas como o Software Público brasileiro demonstram que, tal qual a Comunicação (que sempre contou com investimento e iniciativas de caráter público dada a sua importância estratégica), a Tecnologia da Informação merece tratamento especial porque pode conduzir todo um país, sua estrutura econômica e educacional em direção à independência e ao domínio das ferramentas.
Conclusão
Não se pode, portanto, encarar o futuro do código livre e aberto apenas com uma solução comunitária. E creio encontrar-se neste ponto o desafio maior das comunidades. Ou como resumiu Matt Asay em seu “The Open Road”: Sem a “lógica” do lucro, o código aberto nunca poderia se tornar o fenômeno global que vemos hoje.
Texto escrito para a próxima edição da Revista Espírito Livre.