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Apenas mais um capítulo da luta

Publicado em Internet, Jornalismo por Fernando Leme em 14/12/2011

Cartaz do movimento Occupy Wall Street. O fenômeno é global.

Em resposta ao péssimo e mal intencionado artigo publicado por Marcos Guterman no Estadão.

O argumento central da diminuta peça de contra-informação publicada num dos mais irrelevantes blogs do Estadão é de que a questão da divulgação (ou ausência de) do lançamento do livro “A Privataria Tucana” resume-se a uma questão de “alinhamento”. Os blogs que divulgaram entusiasticamente o lançamento do livro apenas o fizeram porque foram, de alguma forma, cooptados pelo governo federal, ou pela legenda que o elegeu, o Partido dos Trabalhadores.

Se o argumento for válido, então há poucas desculpas para o fato de a mídia hegemônica não tê-lo feito, a não ser que reconheçam, como já o fizeram, de que estão alinhados ao grupo político dos acusados pelo livro. O argumento de que não houve tempo de analisar o “material” e de checar as provas nele contidas não é consistente com a história recente das mesmas publicações. Nos últimos anos a velha mídia especializou-se (tal qual as publicações de Rupert Murdoch) na criação de factóides com finalidades políticas e na alienação do seu imenso público-leitor como estratégia comercial-editorial. Provas disso são as frequentes acusações levantadas contra ministros de Estado, todas elas imediatamente repercutidas pelo grupo, sem qualquer preocupação com a veracidade das acusações.

O que se pretende, nestes casos, é produzir um julgamento político, a despeito de que as circunstâncias produzam (quando o fazem) julgamentos jurídicos infrutíferos.

Há vários, mas um exemplo do desinteresse da velha mídia por provas materiais foi a veiculação constante da notícia de que o então presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, havia tido suas conversas telefônicas gravadas. Estas conversas nunca apareceram (nem ficou evidente o benefício que alguém extrairia desse “grampo”) e nem por isso os jornais deixaram de publicar a notícia.

Chama a atenção também, que apesar do absoluto silêncio sobre o livro, o único espaço dedicado a ele foi uma oportunidade para que o principal acusado adjetive as denúncias como “lixo”, e outra para que tente-se sustentar que trata-se apenas de “marketing”. Nem uma única linha sobre o conteúdo. Nem uma única explicação sobre as acusações.

Nunca, em nenhum dos chamados “escândalos de corrupção” recentes, os acusados tiveram tão amplo e generoso espaço para desqualificar os fatos.

O que há de concreto é que a própria presidente da Associação Nacional de Jornais disse publicamente que os jornais que representa fazem a verdadeira oposição ao governo federal no Brasil (observatório da imprensa). E que o mesmo Estado de São Paulo apoiou publicamente o candidato José Serra nas eleições presidenciais do ano passado. Se é para tratar de alinhamentos, um deles pelo menos, já está evidente.

O comportamento da midia hegemônica no caso da publicação do livro é, portanto, absolutamente distinto do tratamento dado a denúncias de corrupção, por vezes menos graves, quando estas denúncias atingem seus adversários políticos.

O que percebe-se, portanto, é que não há na velha mídia nenhum interesse legítimo de combate à corrupção. O que está a operar é o braço midiático de um projeto político. Um projeto da elite.

Foi lendo Darcy Ribeiro que me deparei com uma de suas expressões mais importantes. Descrição que se abateu sobre mim com toda a sua força descritiva e seu poder de síntese. Em “O Povo Brasileiro” Darcy se referia aos grupos conservadores como “elite exógena”. Que não se via representada e não se sentia parte do povo com que convive. Elite que, historicamente, só veio ao Brasil para extrair dele seus recursos naturais, ou degredada junto com a Corte de Dom João VI quando abandonou Portugal. Elite que possui, portanto, um certo pendor babão por tudo que é gringo. Tratando-o como exemplo acabado de civilização e desenvolvimento.

Esta identificação da grande mídia com a elite é uma questão de classe, sustentada pela imensa concentração da propriedade dos veículos mais influentes. E também não é coisa de hoje. Estes veículos já contribuíram materialmente com a repressão perpetrada pela Ditadura Militar, já editaram debates entre candidatos para favorecer aqueles que apoiavam, e agora, impuseram silêncio absoluto sobre uma investigação que prejudica seus aliados.

Trata-se, se quiserem, de apenas mais um capítulo da luta entre o capital e o trabalho; mas trata-se, acima de tudo, de um enorme prejuízo quando a imprensa abandona seu papel e se transforma em partido político oculto sob o manto falso da imparcialidade.

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