O caráter elusivo das revoluções árabes

As seguidas revoltas populares que tiveram início em diversos países árabes no começo do ano passado acabarão entrando para a história sob o epíteto pouco elucidativo de “primavera árabe”. Termo que evoca, grosso modo, a tentativa de reforma da Tchecoslováquia no final da década de 1960, a partir de um comunismo sob influência direta de Moscou e parte da política de estados-tampão própria da guerra-fria, a chamada “Primavera de Praga”
O termo desgastou-se não apenas pelo uso constante, mas por que deixou de simbolizar a luta pacífica e/ou os protestos não-violentos (apesar da repressão do estado) para se transformar em luta direta pelo poder político, com influência e ajuda dos governos do capitalismo central através de seus órgãos de inteligência e poder militar, que foi muito além da idílica estação das flores.
Na Tunísia e no Egito, os primeiros países a sentirem a pressão popular, os ditadores iniciaram a prática rotineira de ação política de “uma-no-cravo-outra-na-ferradura”. Aliaram à repressão mais sangrenta, declarações públicas em que supostamente cediam a diversas demandas e aceitavam vigilância internacional.
O que se assiste, no entanto, é uma série de golpes de estado, que têm apenas como pano-de-fundo o descontentamento popular, e a substituição dos detentores mais imediatos do poder por outros mais simpáticos ao “ocidente” e à lógica dos mercados.
No Egito de hoje reina absoluta uma junta militar que, apesar de ter promovido eleições para o parlamento e declarar publicamente que deixará o poder assim que um representante legítimo seja eleito, conduz uma repressão ainda mais violenta do que a promovida pelo ditador deposto Hosni Mubarak e um processo de abertura democrática cuja lentidão salta aos olhos.
O que fica evidente é que a tal junta militar, e suas quatro décadas de intimidade com o poder, não vai abandonar seus postos, seus aliados e seus contratos com as empresas bélicas norte-americanas e europeias na mão de qualquer eleito. Todas as medidas a serem tomadas pelo futuro representante egípcio já estão sendo decididas agora, com nenhum vigilância democrática nem internacional. A democracia de fachada, como se sabe, é um poderosissimo instrumento do status quo.
A Líbia é um caso ainda mais emblemático. Partindo de um suposto bombardeio, ainda a ser efetuado, das forças do Coronel Kadafi sobre o povo líbio, o Conselho de Segurança da ONU (em decisão em que o Brasil dignamente se absteve de votar) concluiu que era hora de impor uma zona de exclusão aérea sobre o território líbio, sob os auspícios do conceito de “Responsabilidade de Proteger”, tirado da manga na última hora e que acabou por justificar o bombardeio interminável não apenas da logística militar, como também dos supostos esconderijos de Kadafi, indo muito além do que prescrevia a resolução e abrindo caminho para as cenas atrozes dos rebeldes capturando e assassinando um Kadafi em farrapos.
No governo líbio provisório, hoje, encontram-se desertores que haviam sido contratados pela CIA e ex-agentes do MI6 (o serviço secreto inglês), cuidadosamente orientados pelo ex-ministro das relações exteriores de Kadafi então refugiado na Inglaterra, Moussa Koussa. Nenhum dos detentores do poder na Líbia atual passaria sequer no teste do carômetro.
Enquanto isso a Síria, com seus mais de 5500 mortos pela repressão oficial, e casos de tortura reportados por diversas organizações de Direitos Humanos (como a Human Rights Watch), continua recebendo meras visitas oficiais de comissões formadas por genocidas indiciados pela Corte Penal Internacional. A Organização das Nações Unidas rapidamente se esqueceu da “responsabilidade de proteger” e o massacre continua. Eu arrisco dizer que isso aontece por que lá não há elementos da oligarquia marcadamente pró-ocidente e pró-Israel que justifiquem uma mudança de regime que sejam úteis para o poder internacional.
Nós, no Brasil, país acostumado a “revoluções pelo alto” e pela alternância dos mesmos grupos no poder, a despeito do “caráter democrático” e título oficial do regime; sabendo do histórico de fomento à dissidência e financiamento dos grupos de oposição por parte dos países do capitalismo central, principalmente os Estados Unidos; ciosos das nossas riquezas, o petróleo, o potencial bio-energético da Amazônia e nossos recursos naturais em geral, imenso mercado consumidor, bem como nossa democracia popular, faremos bem se deixarmos as “barbas de molho” e continuarmos atentos às ameaças externas personificadas por uma Europa e Estados Unidos cada vez mais violentos e cuja crise estrutural do sistema econômico os torna capazes das medidas as mais desesperadas.
O chavão político da “defesa da democracia”, do “estado de direito” e do “combate à corrupção” têm sido constamente utilizados por aqueles que pretendem minar o apoio popular a um regime. Resta saber se quem os profere já esteve algum dia interessado nestes valores, ou os usa como argumento retórico que quando bem sucedido fará exatamente o contrário. A “primavera árabe” é uma mentira, quando muito uma aproximação pouco verdadeira, de uma realidade bem mais cruel.
Antes de apoiar uma revolução, cabe perguntar: quem sairá ganhando?
Atualização em 12/01/2012
Sobre a situação atual do povo egípcio, uma notícia da AlJazeera. A inflação e desemprego em alta, começa a faltar comida e o descontentamento aumenta. Mas pergunte se algum dos contratos de armas foi rompido. E o próximo passo é um acordo com o FMI, o que significa ajuste fiscal (nome técnico para redução do investimento público em bens públicos) e baixo crescimento pelos próximos anos.
Mais um vizinho de Israel aos pés do Império.



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