Não teria coragem de redefinir a arte. Eu a sinto, entretanto, como uma oposição à natureza humana imperfeita e ao ruído desorganizado do mundo. Ainda que imperfeito, descontínuo, o homem busca recriar na natureza (e através dela) um sentimento de beleza sem correspondente no mundo natural. Sentimento que, indepentendemente de qualquer racionalidade aplicada ao objeto, reconhece nele a tentativa de perfeição. O desejo angélico.
Ou ainda, como diria o Zé Wisnik em “O som e o sentido”, tratando das experiências vocais:
“Cantar em conjunto, achar os intervalos musicais que falem como linguagem, afinar as vozes significa entrar em acordo profundo e não visível sobre a intimidade da matéria, produzindo ritualmente, contra todo o ruído do mundo, um som constante (um único som musical afinado diminui o grau de incerteza no universo, porque insemina nele um princípio de ordem).”
O problema é que essa busca se depara com o fastio humano pela repetição indefinida dos mesmos temas e propósitos. Buscar limites novos para os sons (e para as imagens) incluiu admitir e tornar natural ao ouvido o que antes era entendido (e sentido) como ruidoso, desagradável. As tensões harmônicas, admitidas passo a passo pela produção erudita, deixaram de representar o diabo para personificarem-se em colorido novo ao mesmo encadeamento.
O ruído, finalmente entendido, não começou com a bateria corajosa de Bonham, nem com guitarras saturadas e vocais desafinados. Estas representações, na verdade, são uma simplificação do processo que chegou em Sex Pistols, que embora crias de um caminho inaugurado no mesmo instante do nascimento da música ocidental, arrogavam-se certa originalidade. E prepararam gerações seguintes para a ausência de critérios na escolha do que ouvir. Segundo Caetano:
“Recentemente ouvi de Arto Lindsay que os músicos e produtores dessas formas mais em voga de dance music (techno) são consumidores vorazes justamente desse repertório heroicamente defendido por Augusto. Assim, muito mais do que Paul (McCartney) pode ter ouvido Stockhausen, esses garotos ouvem Varèse e Cage, Boulez e Berio. E, me diz Arto, só falam nisso. O que pensar? Nos anos 70, vozes conservadoras (e muito úteis) já se levantavam para protestar contra “o modernismo nas ruas”. Mas onde e como se formará o ouvido coletivo naturalmente familiarizado com a música dos pós-serialistas ou pós-dodecafônicos? E que mundo será esse em que uma música assim soe como música ao ouvido de “todos”?”
Ou como a arte dadá, que começa mentirosa no nome, a verdade é que o “erro” e o ruído sempre precisaram de justificação teórica (consciente ou não) para sua existência. E somente justificados sagram-se como verdade e estabelecem um novo limite do suportável.
Só que eu sinto uma certa tristeza com a valorização do erro em si. Do erro enquanto erro, enquanto preguiça de consertar. Um colega (Armando Coló), legitimamente defendendo um ponto de vista, disse certa vez:
“Obrigado pela retífica, passou-me despercebido o erro. Hoje em dia, creio que concorde comigo, estamos encerrados num mundo onde não podemos errar. Qualquer erro serve para deteriorar, senão aniquilar, todos os acertos. É uma pena, é até injusto. Mas é real. Aproveitarei, contudo, para não corrigir o texto. Se assim fizesse, além de tirar o sentido do solitário comentário objetivo que você fez, estaria eu admitindo e corroborando para que os erros nunca sejam, nunca aconteçam: mas eles acontecem. Sim, acontecem.”
Ou ainda a iniciativa mais recente de Tom Soares, o ErroDito, em suas próprias palavras:
“Parte do Projeto ErroDito. Gravado ao vivo, sem edição de áudio ou vídeo, testando meu sistema orgânico e a tecnologia do novo Ichat da Apple.”
Porque isso é a negação do processo de buscar (ou impor) ordem no universo. Principalmente porque o erro, ainda que justificado pela busca da incorporação do ruído, não tem nada de novo, nada de original e representa, no máximo, a continuação de um processo milenar. O improviso, a ausência de edição e revisão sempre foram o caminho mais simples em qualquer processo, e por isso seu avesso (o cuidado, a edição bem feita, o texto corrigido, etc.) sempre foram valorizados.
Ou vai ver eu é que sou da velha guarda.