Universo Fer

09/11/2009

30 anos de algumas coisas

Arquivado em: Dá licença? — Tags: — Fernando Leme @ 12:30 am

O mundo deveria saber que alguma coisa estava para acontecer. Eletricidade e névoa no ar. Segundos imóveis entre a tensão e o orgasmo do relógio de ponto às oito e às seis. Havia uma energia quicando nas cabeças que só aumentou quando descobriu-se:

Os Estados Federados da Micronésia haviam se tornado auto-governantes!

Feliz sou eu, que nasci no pré-aquecimento global (quando for pro forno já vou descongelado) em que aquele territoriozinho já se sabia náufrago sem ninguém explicar porquê.

O mundo não era mais o mesmo.

Inicio hoje, para continuar sempre que tiver tempo, uma séríe de posts sobre o ano que datou meu nascimento e ao qual (faz 30 anos) devoto uma certa atenção desmerecida. Para justificar que foi mais um daqueles anos que não foram 1968 (mas também teve um maio daqueles – puta piada difícil; maio foi o mês que eu nasci) porque, felizmente, acabou.

1979, ou setinovi pros íntimos e pra minha preguiça de cadastro no banco, foi um daqueles anos em que algumas coisas muito interessantes foram soterradas pela alternância morna de manhãs e noites. Calor e frio. Abba e Jessé.

Eu nasci quando o Brasil já estava acostumado a redigir o óbvio e ignorar o necessário. Quando se fazia Lei pra mudar nome de escola. Eu nasci num ano curto. Um resuminho.

“O POVO DE UNAÍ, por seus representantes na Câmara Municipal decreta, e eu, em seu nome, sanciono a seguinte Lei:
Art. 1º A Escola Municipal Pernambuco, situada na Fazenda Bocaina, neste
Município, passa a denominar-se Escola Municipal Nossa Senhora do Carmo.
Art. 2º Revogadas as disposições em contrário, esta Lei entra em vigor na data desua publicação.

Unaí, 17 de maio de 1979.”

Eita ano intenso.

24/10/2009

O erro e a negação da arte

Arquivado em: Dá licença?, Música, Sociedade — Fernando Leme @ 5:56 pm

Não teria coragem de redefinir a arte. Eu a sinto, entretanto, como uma oposição à natureza humana imperfeita e ao ruído desorganizado do mundo. Ainda que imperfeito, descontínuo, o homem busca recriar na natureza (e através dela) um sentimento de beleza sem correspondente no mundo natural. Sentimento que, indepentendemente de qualquer racionalidade aplicada ao objeto, reconhece nele a tentativa de perfeição. O desejo angélico.

Ou ainda, como diria o Zé Wisnik em “O som e o sentido”, tratando das experiências vocais:

“Cantar em conjunto, achar os intervalos musicais que falem como linguagem, afinar as vozes significa entrar em acordo profundo e não visível sobre a intimidade da matéria, produzindo ritualmente, contra todo o ruído do mundo, um som constante (um único som musical afinado diminui o grau de incerteza no universo, porque insemina nele um princípio de ordem).”

O problema é que essa busca se depara com o fastio humano pela repetição indefinida dos mesmos temas e propósitos. Buscar limites novos para os sons (e para as imagens) incluiu admitir e tornar natural ao ouvido o que antes era entendido (e sentido) como ruidoso, desagradável. As tensões harmônicas, admitidas passo a passo pela produção erudita, deixaram de representar o diabo para personificarem-se em colorido novo ao mesmo encadeamento.

O ruído, finalmente entendido, não começou com  a bateria corajosa de Bonham, nem com guitarras saturadas e vocais desafinados. Estas representações, na verdade, são uma simplificação do processo que chegou em Sex Pistols, que embora crias de um caminho inaugurado no mesmo instante do nascimento da música ocidental, arrogavam-se certa originalidade. E prepararam gerações seguintes para a ausência de critérios na escolha do que ouvir. Segundo Caetano:

“Recentemente ouvi de Arto Lindsay que os músicos e produtores dessas formas mais em voga de dance music (techno) são consumidores vorazes justamente desse repertório heroicamente defendido por Augusto. Assim, muito mais do que Paul (McCartney) pode ter ouvido Stockhausen, esses garotos ouvem Varèse e Cage, Boulez e Berio. E, me diz Arto, só falam nisso. O que pensar? Nos anos 70, vozes conservadoras (e muito úteis) já se levantavam para protestar contra “o modernismo nas ruas”. Mas onde e como se formará o ouvido coletivo naturalmente familiarizado com a música dos pós-serialistas ou pós-dodecafônicos? E que mundo será esse em que uma música assim soe como música ao ouvido de “todos”?”

Ou como a arte dadá, que começa mentirosa no nome, a verdade é que o “erro” e o ruído sempre precisaram de justificação teórica (consciente ou não) para sua existência. E somente justificados sagram-se como verdade e estabelecem um novo limite do suportável.

Só que eu sinto uma certa tristeza com a valorização do erro em si. Do erro enquanto erro, enquanto preguiça de consertar. Um colega (Armando Coló), legitimamente defendendo um ponto de vista, disse certa vez:

“Obrigado pela retífica, passou-me despercebido o erro. Hoje em dia, creio que concorde comigo, estamos encerrados num mundo onde não podemos errar. Qualquer erro serve para deteriorar, senão aniquilar, todos os acertos. É uma pena, é até injusto. Mas é real. Aproveitarei, contudo, para não corrigir o texto. Se assim fizesse, além de tirar o sentido do solitário comentário objetivo que você fez, estaria eu admitindo e corroborando para que os erros nunca sejam, nunca aconteçam: mas eles acontecem. Sim, acontecem.”

Ou ainda a iniciativa mais recente de Tom Soares, o ErroDito, em suas próprias palavras:

“Parte do Projeto ErroDito. Gravado ao vivo, sem edição de áudio ou vídeo, testando meu sistema orgânico e a tecnologia do novo Ichat da Apple.”

Porque isso é a negação do processo de buscar (ou impor) ordem no universo. Principalmente porque o erro, ainda que justificado pela busca da incorporação do ruído, não tem nada de novo, nada de original e representa, no máximo, a continuação de um processo milenar. O improviso, a ausência de edição e revisão sempre foram o caminho mais simples em qualquer processo, e  por isso seu avesso (o cuidado, a edição bem feita, o texto corrigido, etc.) sempre foram valorizados.

Ou vai ver eu é que sou da velha guarda.

13/09/2009

Talvezes

Arquivado em: Dá licença? — Fernando Leme @ 1:06 am

Talvez seja difícil ver-se cru. Rindo acho que ver-se cozido deve, no mínimo, doer. Mas a antítese foi sem querer.

Talvez difícil mesmo seja ouvir Bryan Adams o dia inteiro. Mas admito que é mais chato me ouvir resmungar frases sem efeito, que precisariam de pé e cabeça. Mas não as encontro.

Sei que todo mundo já disse isso. Mas hoje pensei o dia todo numa só construção: três palavras, indicativas, heterogêneas, sugestivas até. Criei dois ou três caminhos em volta delas de modo que seu sentido ampliara-se.

Largada lá em volta do rodeio que lhe criei a pobre frase viu-se transformada. Cozida no meio de tanta pretensão, sua imaginação e frescor originais haviam-na deixado.

Talvez eu devesse admitir que a frase é melhor do que eu. Talvez fosse melhor não rodear. Desistir dela sem essa obrigação de perfeição.

Mas na hora de escrevê-la crua, a esqueci. Faltou um elo que a despiu e desfez.

Talvez culpa da dificuldade de admitir o óbvio.

03/09/2009

Grand Finale

Arquivado em: Dá licença? — Tags: — Fernando Leme @ 3:21 am

(homem e mulher, sentados frente à frente, vestidos de qualquer jeito, fumando, música)

Ele – Que bom te ver de novo, faz exatamente um ano,  não?
Ela (sorrindo) – Faz. Porque foi que você fugiu? Foi decepcionante…
Ele – Não sei também, foi um recurso de defesa talvez. Eu precisava fugir da ascendência que você tem sobre mim. Seu sorriso e sua negação constante me fizeram descobrir o que eu tenho de pior em mim. Fiquei envergonhado, me senti infantil. Precisava ir embora.
Ela – Seu amigo não me contava nada. Perguntei inúmeras vezes sobre o que você estava fazendo. O máximo que eu recebia eram notícias vazias, roubadas, convites do facebook…
Ele (risos) – Como é que você está?
Ela – Minha vida virou de cabeça pra baixo. Estou indo embora desta vidinha medíocre. (acende mais um cigarro e aperta play de novo na música da Adriana) Descobri que não quero o mesmo que todo mundo. Descobri uns cistos na alma. Não quero ganhar dinheiro, não quero parecer importante. Acho que vou em menos de três meses.

(ele concorda)

Ele – Vai fazer o quê?
Ela – Sei lá. Trabalho voluntário, em outro país ou no interior.
Ele – Eu preciso conversar. Me perdi, deixei de ser quem eu achei que fosse. Posso deitar no seu colo?
Ela – Não.
Ele – Ah, ó, aqui ó, não vai incomodar. Pronto, já deitei. Então. Eu sempre fui bom em tudo e agora não consigo pagar as contas sem trocar os zeros e os cartões. Preciso de alguém pra conversar. Tenho uma proposta: que tal se nos próximos meses, antes de você ir embora, a gente se visse todos os dias? A gente podia assistir uns filmes, falar sobre coisas irrelevantes, sobre futebol…

(ela ri)

Ele – Eu adoro vocẽ. Deixa eu ver seus dedos curtos…
Ela – E sem unha…
Ele – Credo, ninguém é perfeito mesmo.
Ela – Te falei que virei ovolactovegetariana?

(ele sorri muito)

(mais um play)

Ele – Preciso te dar um presente antes de que você vá embora.

(silêncio)

Ele – Por sua causa eu descobri que todas minhas qualidades eram um jeito cretino de falsificar a verdade e me transformar no pior mentiroso do mundo… mentindo pra mim mesmo.
Ela – É. Falta muito pra você chegar onde quer?
Ele – Basicamente eu sou muito bom para aquilo que não me interessa. Inadequado para aquilo que dá dinheiro e incompetente para o que gostaria de fazer. Seu propósito é invejável.
Ela – Sei que é simplista, mas pelo jeito depende só de você mesmo.
Ele – Sempre depende só da gente. Preciso ir embora.
Ela – é…

(stop e um silêncio intencional, enquanto a fumaça esvaece)

Ele – Dá cá um abraço…

02/09/2009

Insatisfações

Arquivado em: Dá licença? — Fernando Leme @ 12:38 am

De lá pra cá não sei.

Caminho ao longo do canal,

faço longas cartas pra ninguém…

Há algo que jamais se esclareceu,

onde foi exatamente que larguei naquele dia mesmo

o leão que sempre cavalguei.

19/08/2009

A ilusão do tempo

Arquivado em: Dá licença? — Tags:, , — Fernando Leme @ 1:17 am

-Nossa! Como este ano está passando mais depressa que os outros!

Todo mundo já ouviu esta frase ou suas diversas variações alguma vez na vida. Pode ser por surpresa, falta de assunto ou sei lá; mas é geralmente sincera.

O problema é que a constatação, embora por vezes assuma feição apocalíptica, tem fundamento matemático.

Digamos que uma pessoa tenha 20 anos. Isso significa que ela viveu 7.300 dias; para esta pessoa um mês corresponde a 0,41% da sua vida. Ao fazer 30 anos, um mês para esta mesma pessoa corresponderá a 0,27% dos dias que ela viveu.

Considerando que a nossa sensação fisiológica do tempo não se altera durante a vida temos que a soma de cada um dos anos que vivemos vai soterrando a proporção dos demais de modo que a nossa ilusão tende a diminuir o espaço correspondente. E assim:

Este ano passou mais rápido que o anterior. E o próximo passará mais rápido que este.

Claro que estamos expostos a duas correntezas em sentidos contrários. A primeira é que a relevância matemática se dissolve na nossa capacidade/necessidade de esquecer os dias e as coisas que vivemos. A memória do passado, pelo menos para mim, é um poço com as bordas esbranquiçadas em que palavras e pessoas se misturam e desaparecem na medida em que me afasto delas. A segunda é que, segundo Einstein, nossa percepção de tempo/espaço é ilusória e trata-se de uma construção mental de caráter fisiológico.

Assim, olha só que besteira, ainda que o sintamos mais rápido ou mais devagar, o Tempo (tal qual o imaginamos) nunca esteve lá mesmo e portanto perder “tempo” pensando nisso é um duplo desperdício.

Mas a vida não é isso mesmo? Encher o espaço vazio com um monte de penduricalhos de modo a ter a impressão de que a vida vai de cá para lá. Emprestar um sentido besta à existência é um jeito de não enlouquecer. Ou pelo menos para poder conversar com a vizinha no elevador.

03/08/2009

Melancolia

Arquivado em: Dá licença? — Tags: — Fernando Leme @ 12:55 am

Mania de romantizar o passado e, portanto, viver a vida com um atraso de uns cinco anos. Pesarosa.

25/06/2009

Quer dizer nada

Arquivado em: Dá licença? — Fernando Leme @ 6:42 pm

Me lembrei de que esqueci seu nome
e tentei, cavando, reencontrar o sentido
esforço inútil
se na verdade me esqueci de tudo

Ainda não me entendo
mas já sei me explicar
e vem tempo e vai tempo
neste lugar

E tem tempo que a riqueza de lembrar
justificava a ignorãncia de saber
não que se saiba mais ou menos
sem entender por quê

A memória pacifica
porque constrói na gente
a ilusão da caminhada,
e, do nada, uma existência

Me lembrei de que esqueci seu nome
dolorido que tanto significava
e tudo mais quer dizer nada

11/04/2009

Monoteístas o escambau

Arquivado em: Dá licença? — Tags:, , — Fernando Leme @ 5:59 pm

E as pessoas ainda tentam me convencer de que somos monoteístas. Nos últimos quatro meses eu comemorei o nascimento de um deus entre os homens (que segundo consta era uno e trino ao mesmo tempo).

Embora simultaneamente tenha criado um ídolo (uma árvore) e a adornado com um sem-número de oferendas a um tal de Papai Noel (que segundo consta é imortal e mora no pólo norte) para que ele se dignasse a trazer uns presentinhos para a criançada aqui em casa.

Dois meses depois descansava no maior intervalo de produtividade entre os países desenvolvidos a que nos acostumamos chamar de carnaval, período em que se comemora ou constata a prevalência da carne sobre o espírito  na conduta humana.

E hoje me vi montando um ninho para que o coelhinho da páscoa (símbolo pagão da Lua e da fertilidade) traga uns ovos de chocolate aqui em casa no domingo de manhã.

Curiosamente o ano nem chegou na metade.

Porque as pessoas sofrem para contar aos filhos “a verdade” sobre o Papai Noel e continuam mentindo quanto aos demais?

Thomas Mann trata disso com assustador brilhantismo nas quase mil páginas da minha edição econômica de “A montanha mágica”, em que o mais marcante é o fato de que tal superposição de datas inúteis é um processo de alienação entre o homem e sua verdade.

25/02/2009

Dawkins and Fitzgerald’s Buttons and watches

Arquivado em: Dá licença? — Tags: — Fernando Leme @ 12:57 am

Richard Dawkins’ “The Blind Watchmaker” and Fitzgerald’s book “The Curious Case of Benjamin Button” woke up and are stoping me from sleeping.

Dawkins’ blind watchmaker has hidden himself below the sadness from Fitzgerald’s character, and the strange ways of the unseen hand of Providence returned analogously a incredulous and the incredible. While the first one works hard to make commons from obvious, the second one turned the impossible onto his theme and gave us the chance of arguing ourselves (to be born, to grow old and die): how?

Of course there is the irritating beauty of Mr. Pitt wich either turns the discussion superficial and works as a feeling-and-not-being-beautifull youth perfect parable. If the watchmaker works so hard to make a clock goes backwards, could we ask that strong for our lives to grow back?

Lies here a powerfull argument (for a book) and a indeniable nietzschinian questioning (for a life).

Anyway, if Dawkins wants to free me from God (and, God, would I wish that?), and even if I stoped asking if there’s a god, what else would I ask? And worse, for whom would I ask for? Facing the fact that we are all blindly watchmaking, trying to go backwards, looking forward, watching genius’ works like these trying to get, at least, inspired.

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