Universo Fer

07/11/2009

Rick Bookstaber e o Mercado

Arquivado em: Economia — Fernando Leme @ 7:45 pm

Este senhor trabalhou em Wall Street, administrou um daqueles super bem-sucedidos e mal-falados “hedge funds” e escreveu o livro “A demon of our own design”.

Curiosamente para alguém tão envolvido com as áreas mais rentáveis do sistema financeiro, Rick Bookstaber foi extremamente sincero nesta entrevista para a Economist: ao tratar da necessidade de inovação em produtos do mercado financeiro ele primeiro cita a evidente assimetria de informação entre o agente econômico que cria os inúmeros produtos (papéis, derivativos, financiamentos e alavancagens diversas) e o público consumidor destes produtos (leigos, pequenos investidores e, quando muito, fundos de pensão pressionados por seus investidores para obter rentabilidade maior) que não têm condições de os valorar adequadamente.Tal assimetria permite que o vendedor saiba de detalhes que o comprador não sabe. A situação torna o mercado mais obscuro e mais vulnerável à crises como a mais recente.

Em seguida, menciona o fato de que os grandes agentes econômicos não criam produtos para tornar o mercado mais eficiente, ou ainda mais ironicamente, para tornar o mundo um lugar melhor. Estes produtos são criados apenas para gerar mais lucro. Se vocẽ tivesse a oportunidade de perguntar a um destes grandes agentes se ele pretende desenvolver alguma eficiência no mercado você o ouviria dizer que não.

Donde conclui-se que: 1) a lógica do mercado é incompatível com a humana, 2) sua regulação é um enigma a ser desvendado por quem espera soluções econômicas menos desiguais e 3) a “economia do comportamento” destes agentes é um caso clínico.

20/10/2009

O jogo é o jogo

Arquivado em: Economia, Sociedade — Tags: — Fernando Leme @ 11:00 am

favela-incendio2

Família reconstrói barraco após incêndio em São Paulo

Política e economia de vez em quando se enroscam. Toda teoria econômica, como tal, não é muito útil até que alguma escolha política a ponha em prática.

Mike Nichols, o diretor de Charlie Wilson’s War, demonstrou que, pelo menos no que dizia respeito ao Afeganistão, não havia qualquer interesse do governo americano em evitar catástrofes humanitárias ou mesmo em preservar geopoliticamente um território que proveria o acesso do bloco soviético às reservas de petróleo do Oriente Médio.

O importante era manter o jogo. Em que toda uma estrutura burocrática, em graus diferentes de cinismo, brincava de interesse público e de liberdade. O pior foi desconsiderar a obviedade de que não bastava jogar o joguinho da guerra fria. Era importante reconstruir as escolas…

Mas como resumu o próprio Charlie Wilson: “These things happened. They were glorious and they changed the world…

and then we fucked up the end game“.

No Brasil, políticas econômicas sucessivas têm sido incapazes de resolver o problema do inchaço das cidades. Curiosamente este problema não começou ontem; é um fenômeno que remete à ondas sucessivas de expulsão dos moradores das zonas rurais, das quais as mais recentes são a industrialização (!!!!) e a catástrofe meteorológica infinita do Nordeste.

A solução é complicada e passa pela redistribuição do campo, reorganização da estrutura econômica da produção agrícola, difusão do investimento público e estrangeiro (que por sua vez depende de infraestrutura) e portanto, muito capital político e idealismo seriam necessários para começar a resolver o problema.

Afora o fato de que correntes ideológicas distintas vêem soluções diferentes para o mesmo fato (quando não soluções mutuamente excludentes, de modo que ao aplicar uma política desfaz-se o efeito de outra), o que se vê ultimamente é a ausência de qualquer corrente ideológica. O jogo é o jogo, a desassistência é a regra (e não estamos falando de neoliberalismo).

Torço encontrar motivação legítima, comoção com o drama humano e com a ausência de perspectivas. Motivação honesta.

05/10/2009

Human mobility and development

Arquivado em: Economia — Tags: — Fernando Leme @ 4:06 pm

I am someone who saw several friends going away. But, despite personal interests, I’m quite amazed by the theme and conclusions excerpted from 2009 United Nations Development Program. In their own words:

The report investigates migration in the context of demographic changes and trends in both growth and inequality. It also presents more detailed and nuanced individual, family and village experiences, and explores less visible movements typically pursued by disadvantaged groups such as short term and seasonal migration.

Get it at: http://hdr.undp.org/en/media/HDR_2009_EN_Complete.pdf

27/08/2009

Míriam Leitão ou Não pode porque não pode

Arquivado em: Economia, Jornalismo — Tags:, , — Fernando Leme @ 1:21 am

A argumentação é fator fundamental de qualquer discussão. Em contexto jurídico a ausência de argumentos pode conduzir à sucumbência ou a revelia. Em política não ter nada a dizer significa expor-se ao escárnio; e no jornalismo?

No jornalismo pode. No jornalismo tradicional tudo pode. Inclusive não argumentar quando se pretende defender uma tese.

O IPEA divulgou recentemente um estudo em que afirma que a produtividade do setor público cresceu mais nos últimos anos do que a do setor privado. Ótimo, fiquei surpreso, dei uma olhada nos gráficos da apresentação, mas como entendo lhufas da metodologia aplicada e não estou disposto a investir tempo nisso agora, guardei a informação na fila de “Assuntos Auspiciosos”.

Fui obrigado a abrir minha gaveta de novo por causa da Míriam. Vamos lá, supõe-se que ela tenha:
1. Mais tempo;
2. Mais fontes (documentos e pessoas);
3. Mais conhecimento;
Afinal de contas trata-se de uma jornalista especializada em economia. Qual foi minha surpresa?
Nem tempo, nem conhecimento e as fontes (ah, as fontes) ela foi buscar no PSDB. Vejamos os argumentos:

===== Cena 1, eu em casa com a Míriam no telefone =====

Fernando – e a produtividade?
Míriam – O comunicado da presidência… normalmente feitos sob medida para justificar alguma medida (sic) do governo, defender o governo…
Fernando – (atento) Tudo bem Míriam. Mas e a produtividade?
Míriam – segundo os economistas com quem eu conversei isso é um erro técnico elemntar porque é muito difícil comparar o valor adicionado entre os dois setores. Porque, vamos pegar a indústria: quantos carros a mais se faz com o mesmo número de empregados? Então isso é um aumento da produtividade.
Fernando – (levemente espantado) Míriam, isso: “Quantos carros a mais se faz com o mesmo núemro de empregados?” é uma pergunta. Para respondê-la influem diversos fatores: quais empregados, com qual ferramental tecnológico e principalmente, quais carros. Esta pergunta não É aumento de produtividade.

===== Neste momento as luzes piscam e o porquinho da índia sorri meio confuso ====

Míriam – O que é produção no setor público? É muito difícil saber o que é produção no setor público … é…  é…. ele…. ele não vende. É uma atividade não-mercantil. E até quando é uma atividade não-mercantil no setor privado é mais fácil de medir … pelo preço, … é…. pelo preço se as pessoas estão pagando aquilo é porque vale aquilo.

==== Os três arapongas que se revezam no grampo, desta vez ouvindo juntos, sorriem ====

Fernando – Querida, pare, respire. Produtividade não se mede unicamente pelo valor. Aproveitamento de insumos, desgaste do material, quantidade, são alguns dos fatores passíveis de análise. Mas o mais importante; como que você pretende medir (em qualquer setor) uma atividade não-mercantil (que não está à venda, portanto) pelo preço. Míriam, pelamor!

Míriam – é, então você não compara uma coisa com a outra, esse estudo é para dizer que o setor público é mais produtivo que o setor privado. Uma briga de fla-flu entre os dois setores que este governo está incentivando para justificar seu estatismo, o aumento de salário de funcionários e tal.

(narrador: quando o Lula dá exemplos de futebol todo mundo reclama)

Fernando – Você está começando a me irritar. Você já disse duas vezes que não se pode comparar uma coisa com outra porque não se pode comparar uma coisa com outra. Cadê o argumento Leitão?
Míriam – o prof. Samuel Pessoa estava me explicando e também o José Roberto Afonso, que faz parte da equipe de assessores do Tasso Jereissati…
Fernando – (rindo) De quem?

==== A bancada do PSDB na câmara regurgita o último camarão ====

Míriam – O que ele explica, tecnicamente, ele explica tecnicamente a crítica que ele faz e prof. Samuel Pessoa também dizendo isso: não há como você comparar as duas coisas.

(narrador: parei meu, assim não dá. Ô diretor!)

Fernando – (boquiaberto, embasbacado, translúcido)…
Míriam – … umas coisas esquisitas. Roraima teve um aumento de 136%, foi o estado em que mais cresceu a produtividade…
Fernando – (chorando) Não sei se sim, não sei se não. Porque não pode?
Míriam – São Paulo teve um aumento de 1,7% na produtividade…
Fernando – (dores abdominais crescendo) Não sei se sim, não sei se não. Porque não pode? Tem gente que toma Gingko Biloba e tem gente que toma viagra…
Míriam – não faz o menor sentido esta comparação. Ela é tecnicamente equivocada. Porque não se compara a produtividade do setor público com a produtividade do setor privado.

==== O diretor, o narrador, o claque, cinco transeuntes, os três arapongas e um professor de lógica já se retiraram. Fernando, O Bravo, segue firme na lida ====

Fernando – Míriam, eu preciso ir ao banheiro mas te dou a última chance e prometo que se você me responder eu te dou três tentos. PORQUÊ não se pode comparar produtividades?
(silêncio)

==== cai a ligação, entra o jingle da CBN e a Míriam “pensa” em voz alta: Enrolei mais um ====

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