Universo Fer

04/12/2009

Obama?

Arquivado em: Jornalismo — Fernando Leme @ 12:24 am
É, a lua-de-mel acabou. Mesmo. Não posso negar certa tristeza com a decisão por tanto tempo adiada e finalmente anunciada ontem sobre a estratégia norte-americana para o Afeganistão. Decidiu-se pelo aumento do número de soldados americanos em solo afegão, numa mudança de estratégia que pretende “limpar o terreno” e dar o fora.
O pronunciamento de Obama a respeito (do qual só assisti pedaços, infelizmente) apresenta um pragmatismo chato ao indicar que é impossível, neste momento e com esta economia, tentar construir um país no Oriente Médio seguindo o modelo ocidental (com nossos presidentes, eleições, o PMDB, essas coisas).
Mas o que doeu mesmo foi a menção ao fato de que a permanência americana naquele país (tão criticada por gente interessante como o Matthew Hoh) tem caráter “preventivo”. Doeu porque isso significa o governo Obama comprando a ideia da guerra eterna, de ataques não-provocados, sempre que o grande império julgar-se ameaçado. Basicamente, a Doutrina Bush.
Vá lá, ainda falta ver o “quadro amplo”, a “perspectiva”. Não sei de quais informações o presidente americano dispõe e quais seus objetivos latentes impronunciáveis em cadeia nacional. Mas daqui do chão fiquei chateado.

01/12/2009

Lixo em estado puro

Arquivado em: Jornalismo, Política, Sociedade — Fernando Leme @ 12:28 am
Por Alberto Dines, no observatório da imprensa.

Vamos criar uma igreja e deixar de pagar impostos? A manchete da Folha de S.Paulo de domingo (29/11) foi a mais comentada dos últimos tempos. Nem parecia ser o mesmo jornal que dias antes, na sexta-feira, produziu um lixo jornalístico dos mais repugnantes e que desde então está ocupando a seção de cartas dos leitores quase inteira.

A propósito da estréia do filme Lula, o filho do Brasil, a Folha publicou um depoimento do seu colunista Cesar Benjamin, dissidente do PT, a propósito de um comentário cabeludo feito há 15 anos pelo então candidato à presidência Lula da Silva (FSP, 27/11, pág. A-8).

Como foi constatado no dia seguinte, o comentário foi efetivamente feito mas em tom de troça, conversa de fim de expediente. A Folha rasgou e tripudiou sobre todos os seus manuais de redação, pisoteou 20 anos de trabalho dos seus ouvidores ao aceitar como verdadeira uma fofoca estapafúrdia sem qualquer diligência sobre a sua veracidade.

Não foi desatenção, erro involuntário, tropeço de um redator apressado: a Folha reservou uma página inteira para que o colunista contasse a sua saga nos cárceres da ditadura iniciada quando contava apenas 17 anos. Seu relato é impressionante, mas de repente, para desqualificar os 30 dias em que Lula passou no xadrez, Cesar Benjamin conta a sua anedota em três enormes parágrafos e com ela fecha o artigo.

Imprensa marrom

À primeira vista, parece mais um golpe publicitário da família Barreto (que produziu o filme), em seguida percebe-se que a denúncia é a vera, fruto de um ressentimento pessoal que um jornal do porte da Folha, que se assume “a serviço do Brasil”, não tem o direito de perfilhar.

A direção da Folha simplesmente não avaliou o tamanho do desatino. No dia seguinte, tentou consertar: mancheteou uma de suas páginas com o justo desabafo de Lula classificando o texto como “loucura” (FSP, 28/11, pág. A-10). No domingo, certamente arrependida, a direção da Folha providenciou a evaporação do assunto. Ficou apenas a reprovação do seu ouvidor Carlos Eduardo Lins da Silva.

Tarde demais. Já no sábado (28/11) o Estado de S.Paulo repercutia o episódio com destaque e, no mesmo dia, a Veja já o incorporara à sua edição. O Globo manteve-se à distância desta porcaria.

Se o leitor não sabe o que significa “imprensa marrom”, tem agora a oportunidade de confrontar-se com este exemplo – em estado puro – do jornalismo de escândalos e achaques.

29/11/2009

No susto, vai o que tem

Arquivado em: Jornalismo, Política — Fernando Leme @ 10:00 am
Sei que não é grande evidência de poderes adivinhatórios, mas no dia 13 deste mês eu disse aqui mesmo neste espaço, antecipando a pobreza de argumentos da oposição e a consequente desmoralização da campanha eleitoral: “O “choque de gestão” prometido pelo PSDB e abraçado meio no susto pelo DEM poderia ser o único argumento de uma campanha presidencial da qual não gosto por antecipação.”
Pois bem, a publicação pela Folha do artigo acusando o presidente Lula de estuprador (comentada aqui pelo Nassif) se apresenta como um dos primeiros atos em que a nível da campanha eleitoral do próximo ano é puxado para baixo, muito baixo, sem qualquer responsabilidade jornalística (investigação, contraditório, coleta de provas, aquelas coisas chatas que criaram Watergate, por ex.).
Concluiu-se já faz tempo que para criar um escândalo basta um meio e um covarde. Ambos estão representados neste caso.

26/11/2009

Caetano é lindo

Arquivado em: Jornalismo, Sociedade — Fernando Leme @ 10:17 pm

Caetano, em entrevista ao Blog do Moreno, acabou falando das suas rusgas e definindo em três palavras a Revista Veja:

- É inacreditavelmente canalha!

Conclusão pessoal: Caetano é lindo.

Ps. Quem quiser ouvir a entrevista toda, com contexto e tudo, clique aqui. Mas quem passar por lá, me faz um favor. Avisa ao Moreno para tirar o microfone de dentro da boca.

22/11/2009

A Mariamadame conseguiu

Arquivado em: Jornalismo — Fernando Leme @ 11:54 pm

Eu assumi recentemente a responsabilidade de produzir a Mariamadame. Curiosamente estes trabalhos não chegam quando vocẽ está absolutamente disponível, tem tempo sobrando e um planejamento extenso. Mas era um trabalho irrecusável, cujo primeiro objetivo era conseguir terminar a produção e fazer o lançamento do DVD, e criar uma estratégia de comunicação digital que fosse eficaz mas não incomodasse a já extensa lista de aficcionados.

É impressionante como estes objetivos dão trabalho e é também impressionante o quanto, embora ambos tenham sido bem-sucedidos, eu tenha ficado descontente com o meu desempenho. A estratégia de comunicação ficou pronta, mas foi executada pela metade, por absoluta falta de grana e tempo. O DVD já estava pronto e eu só colaborei com detalhes de revisão, layout. E talvez por isso eu tenha ficado tão contente com ele. É um trabalho bonito, de uma banda talentosa e responsável, ciosa de sua voz no mundo.

O que sei é que os resultados não teriam sido atingidos sem a colaboração (em vários momentos protagonismo) de Thaís Amendola; um talento e simpatia únicos que encontrei por sorte imensa. Não consigo mais pensar nenhuma das minhas estratégias de comunicação sem ela. Uma pessoa fadada ao sucesso.
Tenho muito orgulho de fazer parte da estrutura; acredito nas pessoas e acho que o produto tem espaço no mercado de cultura. A banda ainda tem muito a dizer e meu trabalho ainda não está pronto, o jeito é continuar produzindo. Felizmente.

19/11/2009

Viva o Fluxbox

Arquivado em: Jornalismo — Fernando Leme @ 12:11 am

Se não fosse o Fluxbox seria impossível (ou pelo menos bem irritante) trabalhar esses dias. Calma pessoal, o ostracismo está no fim!

16/11/2009

Lula e a vida em preto e branco

Arquivado em: Jornalismo — Fernando Leme @ 10:36 am

É uma tristeza que a polarização da imprensa se reproduza anencefalicamente numa polarização da discussão política. Se há coerência no fato de que partidos políticos opostos devem marcar posição em círculos contíguos ao adversário, o mesmo não deveria acontecer com o eleitor.

Este, por sinal, ainda desconhece meios de análise da atividade do Estado, desconhece a divisão de competências, não lê indicadores (de saúde, economia…). Fica preso ao denuncismo e à fábrica de escândalos em que se transformou a nossa "grande imprensa".

Deste modo, ou se é contra o Lula ou se é a favor. Ou você acata as ordens da Folha, ou você é petista.

Bani o maniqueísmo da minha linha de raciocínio desde que abandonei o discurso religioso, e desde então minhas posições dependem de uma abordagem mais plural e meus inimigos são um pouco mais difusos.

Difícil para você? Para mim é prazeiroso.

14/11/2009

Lançada edição nº 8 da Revista Espírito Livre!

Arquivado em: Jornalismo — Fernando Leme @ 9:28 pm

De: João Fernando Costa Júnior

A cada mês, uma vitória. Este não poderia ser diferente. Mesmo quando muitos acham que estamos cansados a ponto de desistir eis que despontamos em mais uma edição de qualidade, como os leitores por si só comentam. Esta edição da Revista Espírito Livre traz como tema de capa Comunidades e Movimentos Livres, apresentando aos leitores um pouco mais sobre este tema tão vasto. Tivemos contato com diversas comunidades que se prontificaram a apresentar suas histórias, seus cases, sua visão em matérias que demonstram o real valor e pontencial destas que iniciativas que arrastam exércitos e movem montanhas. Nossos agradecimentos a estes redatores convidados.

Como as comunidades de software livre se manifestam? Como se apresentam diantes da rede? Será que ao constituir uma comunidade tudo será mil maravilhas? Tentamos, através de várias matérias, apresentar as respostas consisas e focadas sobre estas e muitas outras indagações que permeiam as comunidades de software livre/código aberto.

Tivemos a honra de trazer como entrevistado principal Jon “maddog” Hall, considerado por muitos um exemplo de vida, superação e engajamento no movimento do software livre. Maddog “peregrina” em diversos eventos por todo o Brasil e sempre está alí disposto para mais aquela foto e para um bom papo sobre novas tecnologias.

Tivemos ainda novas participações em nossa equipe. Fernando Leme estava para fazer parte do corpo editorial e nesta edição ele aparece com falando sobre as armadilhas do mercado. João Marcello também foi uma grata surpresa… Ele começa sua participação na revista apresentando um case bem interessante sobre o “teco” de informática. Clayton Lobato é outro que estava para entrar em nossa equipe já a algum tempo, mas diversos fatores sempre atrapalhavam. Pois bem Clayton participa dessa edição com um assunto polêmico sobre as comunidades.

Continuamos uma nova coluna do Cárlisson, a Warning Zone, que apresenta uma perspectiva diferente sobre a narração da história em questão. Vale a pena conferir. Wagner Emmanoel, da Fuctura, apresenta ainda um review bem interessante sobre a mais nova versão do Linux para as massas, o Ubuntu 9.10 Karmic Koala.

O pessoal da ASL e do Ubuntu-BR também participaram enviando materiais, enriquecendo ainda mais a publicação. Já os colunistas fixos tais como Alexandre Oliva, Cezar Taurion, Sinara Duarte, Jomar Silva, Filipe Saraiva, Luiz Eduardo e aos tantos outros que de alguma forma participaram desta edição, meus sinceros agradecimentos!

Agradecemos a todos que não foram citados acima e continuamos a convidar cada vez mais o leitor a participar do processo de criação da revista.

Valew gente! Abraço a todos!

http://revista.espiritolivre.org

13/11/2009

A grande angular das escolhas

Arquivado em: Jornalismo — Fernando Leme @ 5:48 pm

Deve ser por outro motivo que não a marca do filme ou da câmera, mas o que se apresenta aqui é uma combinação única entre as geografias física e humana que muda a luz, amplia o horizonte e apresenta um desafio de organização.

O Brasil, diferentemente de países desenvolvidos já no século passado, luta contra sua própria história. Processo no qual se identifica uma série infinda de tentativas de reproduzir aqui o manual de soluções bem-sucedido em organizações humanas senão diametralmente opostas pelo menos diferentes.

Evidenciamos assim, como a luz da BBC sobre Londres resulta noutra quando sobre São Paulo, a inadequação de soluções importadas tão estupidamente quanto uma tradução malfeita. O asfalto inglês funciona aqui tão mal quanto o livre mercado americano.

A escolha partidária (ou a agenda, o programa de um partido), portanto, significa optar entre caminhos distintos que vão do cinismo ao idealismo (com seus subestágios: ignorância, ganância ou corrupção mesmo). Significa aquiescer com antigos pactos e relações de confiança estabelecidos com critérios diversos.

Aguardo ansiosamente para descobrir o saldo da Administração Serra-Kassab no Estado de São Paulo, seu reflexo nos indicadores que lhes dizem respeito. Porque do ponto de vista da comunicação e do diálogo democrático já faliu. O porquinho do Serra ao tratar da “gripe suína” é um desrespeito, uma ofensa a uma sociedade pensante que o foco do governador nivela por baixo. A “lei antifumo” e a tendência à via delatória em todas as esferas da vigilância estatal denunciam um viés autoritário pouco coerente com sociedades democráticas modernas e com a própria abordagem econômica liberal que representam. Laissez faire ou não?

O “choque de gestão” prometido pelo PSDB e abraçado meio no susto pelo DEM poderia ser o único argumento de uma campanha presidencial da qual não gosto por antecipação.

27/10/2009

A imprensa entre o quarto poder e o quarto partido

Arquivado em: Internet, Jornalismo — Fernando Leme @ 1:35 am

Fonte: Carlos Castilho, no Observatório da Imprensa.

O confronto entre o presidente norte-americano Barack Obama ao canal de notícias Fox News, também norte-americano, é mais do que uma escaramuça entre um governante e uma emissora de televisão. Também tem implicações mais amplas do que um mero bate boca entre uma assessoria presidencial que passou a ver o Fox News como um partido político de oposição e a emissora que contra-atacou alegando um suposto ataque governamental à liberdade de expressão.

O episódio mostra até que ponto as organizações da mídia estão dispostas a politizar o esforço para sobreviver à crise do seu modelo de negócios sem perder o status de “quarto poder”. Até agora o foco das preocupações dos analistas e estudiosos da indústria da comunicação jornalística era o esforço coletivo das empresas em busca de novas fórmulas capazes de recuperar receitas publicitárias e a queda de circulação provocadas pela migração de leitores e anunciantes para a Web.

Mas está ficando cada vez mais claro que os conglomerados empresariais da mídia estão decididos a levar seu esforço de sobrevivência também para o terreno da política institucional, transformando o conceito de “quarto poder” de um poder vigilante para um poder participante, ou seja, um partido político de fato e não de direito.

Neste sentido, a afirmação da secretária de imprensa de Obama, Anita Dunn, é muito mais uma constatação do que uma crítica. Ela estaria registrando mais ou menos o mesmo fenômeno em curso na Itália, onde o primeiro ministro Silvio Berlusconi se transformou no grande artífice do “quarto poder” formado pela aliança entre a imprensa conservadora e os partidos de direita.

O que se nota é que a estratégia de sobrevivência passa pela politização da imprensa na medida em que esta trata de alavancar seus interesses imediatos por meio da pressão política — seja de forma direta, como é o caso do canal Fox News, seja pela aliança com partidos conservadores, como é o caso da Itália, Venezuela e até mesmo da Inglaterra. O megaempresário Rupert Murdoch, dono da maior rede de jornais do mundo, é um ativo protagonista da política britânica, apesar de ter nascido na Austrália e ser cidadão norte-americano.

A esquerda radical sempre acusou a imprensa de agir como partido político. Era uma acusação mais ideológica do que estrutural. Hoje a transformação do “quarto poder” no virtual “quarto partido” passou a ser um processo político institucional. Não se trata de achar bom ou mau. É um fato, embora as partes envolvidas tratem de classificá-lo de acordo com seus interesses e projetos.

No Brasil, a oposição dos grandes jornais e emissoras de televisão ao governo do presidente Lula já ultrapassou os limites da função fiscalizadora que fundamentava a idéia de “quarto poder”. Passou a ser uma estratégia para tentar esticar o mais possível os benefícios estatais à mídia visando ganhar tempo para a reorganização corporativa destinada a manter posições do jogo político na nova realidade digital.

Esta é a única explicação possível para a grande imprensa nacional “pegar no pé” de Lula por qualquer motivo, mesmo admitindo que o empresariado nacional não tem queixas maiores do presidente e que o governo do PT deu ao setor privado tudo aquilo que ele queria e muito mais. Não se trata de uma trama golpista, que alguns estigmatizaram na sigla PIG (Partido da Imprensa Golpista), mas de uma ação calculada dentro do jogo do poder.

A partidarização da imprensa é também um sintoma da debilidade dos partidos que se perderam no emaranhado do fisiologismo e da corrupção na tentativa de manter privilégios institucionais. Hoje os políticos e os partidos estão nos últimos lugares na escala de credibilidade e simpatias do público, esvaziando quase todo o sentido da expressão “representantes do povo”.

Em sua estratégia de ação partidária para sobreviver à crise estrutural da mídia, a imprensa corre risco de deixar de ser vista como um vigilante “quarto poder”  para se transformar num “quarto partido” , tão desacreditado quanto os demais.

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