Universo Fer

24/10/2009

O erro e a negação da arte

Arquivado em: Dá licença?, Música, Sociedade — Fernando Leme @ 5:56 pm

Não teria coragem de redefinir a arte. Eu a sinto, entretanto, como uma oposição à natureza humana imperfeita e ao ruído desorganizado do mundo. Ainda que imperfeito, descontínuo, o homem busca recriar na natureza (e através dela) um sentimento de beleza sem correspondente no mundo natural. Sentimento que, indepentendemente de qualquer racionalidade aplicada ao objeto, reconhece nele a tentativa de perfeição. O desejo angélico.

Ou ainda, como diria o Zé Wisnik em “O som e o sentido”, tratando das experiências vocais:

“Cantar em conjunto, achar os intervalos musicais que falem como linguagem, afinar as vozes significa entrar em acordo profundo e não visível sobre a intimidade da matéria, produzindo ritualmente, contra todo o ruído do mundo, um som constante (um único som musical afinado diminui o grau de incerteza no universo, porque insemina nele um princípio de ordem).”

O problema é que essa busca se depara com o fastio humano pela repetição indefinida dos mesmos temas e propósitos. Buscar limites novos para os sons (e para as imagens) incluiu admitir e tornar natural ao ouvido o que antes era entendido (e sentido) como ruidoso, desagradável. As tensões harmônicas, admitidas passo a passo pela produção erudita, deixaram de representar o diabo para personificarem-se em colorido novo ao mesmo encadeamento.

O ruído, finalmente entendido, não começou com  a bateria corajosa de Bonham, nem com guitarras saturadas e vocais desafinados. Estas representações, na verdade, são uma simplificação do processo que chegou em Sex Pistols, que embora crias de um caminho inaugurado no mesmo instante do nascimento da música ocidental, arrogavam-se certa originalidade. E prepararam gerações seguintes para a ausência de critérios na escolha do que ouvir. Segundo Caetano:

“Recentemente ouvi de Arto Lindsay que os músicos e produtores dessas formas mais em voga de dance music (techno) são consumidores vorazes justamente desse repertório heroicamente defendido por Augusto. Assim, muito mais do que Paul (McCartney) pode ter ouvido Stockhausen, esses garotos ouvem Varèse e Cage, Boulez e Berio. E, me diz Arto, só falam nisso. O que pensar? Nos anos 70, vozes conservadoras (e muito úteis) já se levantavam para protestar contra “o modernismo nas ruas”. Mas onde e como se formará o ouvido coletivo naturalmente familiarizado com a música dos pós-serialistas ou pós-dodecafônicos? E que mundo será esse em que uma música assim soe como música ao ouvido de “todos”?”

Ou como a arte dadá, que começa mentirosa no nome, a verdade é que o “erro” e o ruído sempre precisaram de justificação teórica (consciente ou não) para sua existência. E somente justificados sagram-se como verdade e estabelecem um novo limite do suportável.

Só que eu sinto uma certa tristeza com a valorização do erro em si. Do erro enquanto erro, enquanto preguiça de consertar. Um colega (Armando Coló), legitimamente defendendo um ponto de vista, disse certa vez:

“Obrigado pela retífica, passou-me despercebido o erro. Hoje em dia, creio que concorde comigo, estamos encerrados num mundo onde não podemos errar. Qualquer erro serve para deteriorar, senão aniquilar, todos os acertos. É uma pena, é até injusto. Mas é real. Aproveitarei, contudo, para não corrigir o texto. Se assim fizesse, além de tirar o sentido do solitário comentário objetivo que você fez, estaria eu admitindo e corroborando para que os erros nunca sejam, nunca aconteçam: mas eles acontecem. Sim, acontecem.”

Ou ainda a iniciativa mais recente de Tom Soares, o ErroDito, em suas próprias palavras:

“Parte do Projeto ErroDito. Gravado ao vivo, sem edição de áudio ou vídeo, testando meu sistema orgânico e a tecnologia do novo Ichat da Apple.”

Porque isso é a negação do processo de buscar (ou impor) ordem no universo. Principalmente porque o erro, ainda que justificado pela busca da incorporação do ruído, não tem nada de novo, nada de original e representa, no máximo, a continuação de um processo milenar. O improviso, a ausência de edição e revisão sempre foram o caminho mais simples em qualquer processo, e  por isso seu avesso (o cuidado, a edição bem feita, o texto corrigido, etc.) sempre foram valorizados.

Ou vai ver eu é que sou da velha guarda.

09/10/2009

Maria Bethania e Omara Portuondo – Talvez

Arquivado em: Música — Tags:, — Fernando Leme @ 2:02 am

Difícil explicar isso para alguém não-latino. Grande som…

08/10/2009

The pentatonic scale, for some reason…

Arquivado em: Música — Fernando Leme @ 1:01 am

It could only be Mr. Mcferrin.

05/10/2009

Maroon 5!

Arquivado em: Música — Fernando Leme @ 1:07 am

09/09/2009

A ficção e a propaganda

Arquivado em: Música, Sociedade — Fernando Leme @ 11:32 pm

De que valeu, em suma, a suma lógica
Do máximo consumo de hoje em dia,
Duma bárbara marcha tecnológica
E da fé cega na tecnologia?

Há só um sentimento que é de dó e de
malogro…

Lenine – É Fogo

A superioridade mecânica sobre a falibilidade humana é uma constante subjacente à grande parte da produção de ficção científica. À parte os anos gloriosos de Júlio Verne e Exupery, inventar futuros para as máquinas foi a grande distração dos herdeiros de Asimov.

A aventura mítica de Star Wars foi o que me deu a dica de que a imaginação de como seria ou pareceria a tecnologia de alguns anos à frente quase sempre resultou verdadeira.

Estas imagens do futuro acabam criando as fronteiras que os tecnólogos procuram superar. Se parece risível que os botões gigantes em “O Império Contra-ataca” poderiam ser um objetivo sério é só prestar atenção em qualquer equipamento eletrônico da década de 80, com seus botões brilhantes. “Eu robô”, com sua semiopacidade clean já é a realidade de iphones e touchtables por aí.

A nova fronteira parece ser os monitores e discos de armazenamento transparentes de Minority Report. Fronteira que recebeu um incremento com a construção biológico-molecular-3D do “Exterminador do Futuro IV”; filme em que nossa modernidade plástica de páginas 2D na internet se vê obsoleta antes de consolidada.

Ao invés de restabelecer limites, a ficção presta-se ao papel fútil de criar novas imagens de desejo, onde a inventividade e a utilidade são acessórios da estética futurística. Máquinas fotográficas com um número interminável e inútil de megapixels (a não ser que alguém pretenda revelar fotos do cachorro ou do churrasco num outdoor), sistemas operacionais com necessidades infinitas de memória aleatória que, no bojo, não trazem nenhuma nova funcionalidade.

A realidade é que existe um número razoavelmente restrito de necessidades humanas solúveis neste modelo de produção e nesta organização do trabalho e a imaginação do futuro poderia nos servir de guia para o que de fato precisamos, não de peça publicitária travestida.

22/08/2009

Um país na vanguarda do mundo

Arquivado em: Música — Tags:, — Fernando Leme @ 2:26 am

É raro presenciar tamanho grau de sofisticação, cuidado e qualidade técnica.

Outono, o disco mais recente do baterista brasileiro Nenê conta com um pianista (Írio Jr.) que traz do erudito uma profundidade harmônica meio Jobim/Koellreutter enquanto o Nenê, sempre verborrágico e adepto de andamentos estratosféricos, desta vez joga com o time, diminui a velocidade e produz uma obra-prima com o baixista Alberto Lucas.

Um disco com tamanho aprimoramento artístico e qualidade de gravação coloca o Brasil na vanguarda do mundo.

17/02/2009

Richard Bona

Arquivado em: Música — Tags:, , — Fernando Leme @ 3:10 am

2 da manhã, fim de expediente e Richard Bona para dar razão à madrugada.

06/02/2009

Aniversários

Arquivado em: Música — Tags: — Fernando Leme @ 12:19 am

Pausa em tudo, nas ciências e ignorâncias, doutrinas e misticismos, convergências e discordâncias.

Pausa na briga entre direita e esquerda; enquanto não decido se leio Keynes ou Marx; pausa na minha vontade de estudar no MIT e ajudar o MST.

Vou dar uma pausa em tudo e em homenagem ao aniversário do Lenine, vamos à pipoca e ao DVD.

23/01/2009

Aqueles que valem a pena

Arquivado em: Música — Tags:, — Fernando Leme @ 1:34 am

Procure por:

Gustavo Santaolalla, músico argentino;

Carlos Henrique Machado, músico brasileiro;

Idelber Avelar, professor universitário em Tulane.

05/10/2008

Te amaré y después

Arquivado em: Música — Fernando Leme @ 2:07 am

Te amaré, te amaré como al mundo
Te amaré, aunque tenga final
Te amaré, te amaré en lo profundo
Te amaré, como tengo que amar

Te amaré, te amaré, como pueda
Te amaré, aunque no sea la paz
Te amaré, te amaré, lo que queda
Te amaré cuando acabe de amar
Te amaré, te amaré, Si estoy muerta
Te amaré, el día siguiente además
Te amaré, te amaré, como siento
Te amaré con adiós, con jamás

Te amaré, te amaré, junto al viento,
Te amaré, como único ser
Te amaré, hasta el fin de los tiempos
Te amaré, y después te amaré

Marina de la Riva

Link para a música.

Posts mais antigos »

Blog no WordPress.com.