Universo Fer

01/11/2009

Obama, as paixões e o messianismo

Arquivado em: Política, Sociedade — Tags: — Fernando Leme @ 2:10 pm

Cresce o descontentamento na Europa com o governo Obama. Como toda paixão (irrefletida, apressada, irracional) esses movimentos seguem a trajetória de produzir uma senóide em que altos e baixos correspondem mais ao acaso e às expectativas do que medidas sérias tomadas no curso de uma administração no mundo real.

A Foreign Policy publicou dois artigos em que menciona o desgaste da imagem do Obama e o fim de sua lua-de-mel. Um deles ironicamente anuncia logo no título: “Bush era melhor para a Europa, juro”. Artigo em que um dos principais argumentos era o fato de que, apesar da retórica do “ou está concosco ou está contra nós” da política externa no governo W. Bush, ele dependia muito mais de consultas sobre decisões específicas do que tem demonstrado o governo Obama; que faz o contrário: fala sempre em multilateralismo e cooperação mas tem tomado muitas decisões isoladamente.

O artigo na íntegra está aqui.

O outro artigo, de Peter Rashish, consultor estratégico e colunista da New Left Review, menciona as pressões para a adoção de uma estratégia de saída mais rápida para as duas guerras no Oriente Médio. Região em que, segundo o autor, Obama tem oscilado entre estratégias distintas sem nenhum objetivo claro. Quem quiser ler o artigo na íntegra, clique aqui.

Pedindo perdão antecipado pela ousadia, acredito que sempre haverá um articulista capaz de sentir, intuir, movimentos de opinião pública e sobre tais movimentos basear seu texto. O qual tende a realimentar o sentimento geral e criar um climão em qualquer direção. Desde Antonio Conselheiro, John Kennedy e Jimmy Carter eu desisti de esperar a ressurreição e posterior eleição em pleito majoritário do Messias. Acredito nos métodos do atual presidente americano e desconto fato de que Obama encontrou um país destruído economicamente, desacreditado moralmente e enfiado em duas guerras. E enquanto tenta resolver estes problemas tem que lidar com o raciocínio raso da direita americana.

Que tal dar um tempo pro cara?

22/10/2009

Inventar o Brasil

Arquivado em: Política, Sociedade — Tags:, — Fernando Leme @ 1:40 am

Dois projetos, distintos e hegemônicos, de país prometem um choque cruento nas eleições do ano que vem. Enquanto a gente se perde na agenda da Lina Vieira e nas denúncias da Veja, há algo latente, que pede para ser ouvido e para nortear qualquer discussão sobre o futuro. O velho sábio dirá melhor:

11/10/2009

A análise superficial

Arquivado em: Internet, Política, Sociedade — Fernando Leme @ 10:25 pm

O post mais recente de Cláudio Cordeiro, enquanto prima pela informalidade, comete aqueles erros de análise próprios da leitura superficial dos temas e da falta de disposição em entender os assuntos.

Em meio a comentários que não me interessam cometeu os seguintes parágrafos:

Ao mencionar o prêmio Nobel: “Um cara que administra duas guerras, do Iraque e do Afganistão que bombardeou a Lua esta semana recebeu o Premio Nobel da Paz, se o Lula receber o Nobel de Física minha surpresa nõ será maior ou menor.”

Por favor, Cláudio, as duas guerras (pelo que consta) foram herdadas da administração anterior. Herdadas, por sinal, com a promessa de encerrá-las responsavelmente (vide Charlie Wilson’s war) e de mudar o foco de uma guerra tradicional para o tipo de confronto que a “ameaça terrorista” (como vista da perspectiva americana) precisa. A explicação dada pelo próprio Conselho do Nobel diz que a escolha recaiu sobre Obama porque ele conseguiu mudar o clima político e restaurar uma atmosfera de confiança internacional (restabeleceu vínculos com a Rússia, iniciou um diálogo com o Irã, etc.). Clima e confiança estes que haviam sido destruídos pelos oito anos de fundamentalismo cristão e de direita de W. Bush. O comentário ao Nobel de Física beira o preconceito característico da turminha Leblon-Paulista-OAB-Cansei, e além de preconceituoso, não acrescenta ao debate.

O segundo comentário: “Por falar em Lula, o programa “Minha Casa Minha Vida” parece que deu certo, o primeiro a conquistar este direito foi o presidente deposto de Honduras, está em nossa embaixada com vários convidados e para variar o Planalto não sabia de nada.”

Deixando de lado as referências diplomáticas e o apoio unânime dos analistas e organismos internacionais quanto à postura adotada pelo governo brasileiro, o “Minha casa, minha vida”, não obstante sua vida ainda breve, é responsável pelo ressurgimento do crédito no mercado interno após a pior parte da crise do sistema financeiro, e pela aparente recuperação do setor imobiliário (incluída a construção civil). Assim, o programa em questão tem sido mesmo bem-sucedido, embora seja alvo da sanha criticista de comentaristas políticos mais ao centro-direita como Alexandre Garcia e Míriam Leitão.

Ah, os argumentos, sempre os argumentos.

31/08/2009

A Míriam a soldo

Arquivado em: Jornalismo, Política — Tags:, , , — Fernando Leme @ 4:49 pm

Embora o tema careça de resultados e provas objetivos, Míriam Leitão decidiu bater na mesma tecla. Indefinidamente.
Se ao tratar de economia, o jargão e a indefinição próprios do tema permitem certa margem para interpretações as mais descabidas, em política sua escolha pessoal (ou profissional) deixa evidente um projeto de desestabilização do governo e de inviabilização da candidatura Dilma.
Hoje a Míriam cometeu os seguintes argumentos:

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Milton Jung: O resultado da fiscalização na receita caiu sob a gestão Lina. É o que os números mostram?
Míriam: Eu acho que estão manipulando os números e portanto não se pode confiar neles. O governo está querendo desmoralizar a Lina, desautorizando-a divulgando informações que reduzam o respeito por ela e tal.
Fernando: A arrecadação caiu sob a gestão Lina, isso é um fato. Claro, deve-se a diversos fatores, mas não há que se falar em factóide em relação à arrecadação.
O “governo está tentando” é um recurso fácil demais, Míriam, e você sabe disso. A própria Globo está supervalorizando um tema paralelo, explicado em detalhes no “Entre Aspas” (com direito a um mico da Mônica Waldvogel) com um painel de interesses distintos, mas unânimes em admitir a incompetência da ex-secretária; resultado claramente diverso do que esperava a direção do programa.

Míriam: Se os assessores de Lina são incompetentes, porque foram nomeados? Porque foram nomeados pelo próprio ministro Guido Mantega.
Fernando: Os assessores de Lina foram nomeados por ela, seguindo sua lógica sindical particular. E você sabe disso.

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É uma pena constatar o jornalismo à serviço de projetos outros que não a construção de um país. Ou o besta sou eu.

Vou pedir uma carona para o Belchior.

25/08/2009

Um incentivo à deduragem

Arquivado em: Direito, Política — Tags: — Fernando Leme @ 12:08 pm

Fonte: http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2009/08/13/um-incentivo-a-deduragem/

Delatar é um ato não raro possuído por uma exuberante certeza – e desejo – de poder sobre a vida dos outros. A delação encontra trânsito e é incentivada pelo Estado policial (ou com vocação policial) e exerce o papel de controle do cidadão sobre o cidadão, no pressuposto de que cada indivíduo é potencialmente um fiscal, um agente do Estado capaz de apontar os pretensos inimigos da “ordem”; e cada indivíduo é pontencialmente um criminoso. Do lado do indivíduo que delata, o poder a ele conferido pela delação é o de sair da planície dos cidadãos com os mesmos direitos e regidos pelas mesmas leis e o de ascender ao aparelho de Estado, mesmo que pela porta da atividade repressiva.

Os dois lados, do delator e do Estado que incentiva a delação, são alimentados e justificam seus atos pela ideia de que sobre o que julgam verdade e justiça não há possibilidade de dissenso – a controvérsia é condenável, intolerável e em princípio pode ser criminosa. O nazismo, a União Soviética de Stálin e o Estado policial incentivado pela ação do senador Joseph Raymond McCarthy entre 1950 e 1956, nos Estados Unidos, são os exemplos clássicos da relação entre delação e autoritarismo. Nesses casos históricos, a delação serviu igualmente para alimentar ambientes políticos fortemente radicalizados e forçar “consensos” aparentes, formados na verdade por ações repressivas que incluíam a inserção do cidadão no papel de vigia de seu vizinho. Pelo medo, portanto.

A Lei Antifumo do governador José Serra parte de uma premissa altamente democrática – a de que o não-fumante tem o direito de preservar a sua saúde, ameaçada pelo uso do cigarro em ambientes fechados. A partir desse correto entendimento do direito do não-fumante, foi elaborada uma lei conceitualmente discutível. Todo o texto legal foi montado em torno da delação. A pessoa que fuma em locais públicos fechados não será punida, ou melhor, ela apenas será punida se for denunciada pelo dono do estabelecimento em que fumou. Quem delata fica com a razão; quem não delata assume o crime. Se o fumante acende um cigarro dentro de um restaurante e um fiscal flagra a transgressão, o dono do restaurante será multado. O fumante irá para casa sem que nada tenha acontecido a ele. Se, todavia, o dono do restaurante chamar a polícia e delatar o fumante, estará livre de punições, e o transgressor será punido. Nessa hipótese, o dono do restaurante será premiado pela delação e não sofrerá as sanções previstas na lei para os estabelecimentos cujo ambiente não está livre do fumo.

Pela lei, a delação passa a ter status de prova. Uma pessoa qualquer que estiver no restaurante quando alguém acender um cigarro lá dentro poderá ligar para um 0800 e fazer uma denúncia, ou preencher um “formulário” na internet. A sua palavra é prova contra o restaurante e dela decorrerão sanções legais. Para a lei, basta que o denunciante diga que não mentiu para que a sua denúncia seja considerada verdade. O estabelecimento acusado, no entanto, terá que provar que a denúncia foi mentirosa para ser considerado inocente.

Outra situação: o morador de um condomínio pode usar o mesmo 0800, ou o site da lei antifumo, para denunciar um vizinho que tenha fumado em áreas fechadas e públicas do condomínio. O vizinho-delator tem autoridade, pela lei, de autorizar a entrada dos fiscais no condomínio. Mais uma vez, a denúncia será a prova, e certamente não existirá uma outra: até que os fiscais cheguem ao condomínio, o morador delatado pelo uso do cigarro certamente já terá dado um sumiço no cigarro. É uma situação onde dificilmente ocorrerá um flagrante. Nesse caso também a multa é do condomínio. Aí também prevalece o conceito de que é preciso vigiar o vizinho para que não haja prejuízo coletivo.

A ideia da delação é central na lei, e essa intenção foi propagandeada pelo governo do Estado. O secretário de Justiça do Estado, Luiz Antônio Marrey, ao comentar uma pesquisa do Instituto GPP e da InformEstado que indicava que 64,9% dos entrevistados não pretendem denunciar locais com fumantes, disse que, num primeiro momento, a “metade que vai denunciar é suficiente para colaborar com a fiscalização”. A tendência é que a delação aumente, para o bem de todos, disse o secretário de Estado da Saúde, Luiz Roberto Barradas Barata: “O uso do cigarro em ambiente interno é culturalmente aceito há anos. Começamos a mudar isso só agora. Por isso, nesse primeiro momento, a intenção de denunciar não aparece. Acredito que, com a aplicação da lei e os donos de bares se engajando em preservar os estabelecimentos, as denúncias vão surgir”.

Portanto, o governo do Estado julga desejável que os paulistas se dediquem à delação. E seus representantes deixam claro que a intenção da lei é exatamente essa.

A tempo: sou ex-fumante e a fumaça do cigarro me incomoda profundamente, mas não mais do que o incentivo à deduragem.

18/08/2009

Sarah Palin – the best of

Arquivado em: Política, Sociedade — Fernando Leme @ 3:38 am

Esta mulher foi candidata a vice-presidente dos Estados Unidos na chapa do McCain. Dá para acreditar? O TPM se deu ao trabalho de editar os melhores momentos da besta neste vídeo:

ps. É este tipo de pessoa que recebe o apoio de gente como o Reinaldo Azevedo e do Noblat.

ps 2. A referência ao “the horror, the horror” no começo foi genial.

ps 3. Ainda faço a legenda…

15/08/2009

Esquecimento útil

Arquivado em: Política — Tags:, , — Fernando Leme @ 1:03 am

A direita brasileira e seus canais de comunicação andam tão ocupados numa briquinha fraticida entre a direita que finge apoio ao governo e a direita que tenta fazer oposição que utilmente se esqueceu de mencionar a vergonhosa conduta da direita norte-americana.

Segundo alguns estrategistas políticos do lá de lá do Caribe, embora o partido republicano tenda à irrelevância, seu comportamento atual ainda consegue respaldo de uma parcela crescentemente envelhecida e desinformada da sociedade americana.

Não se pode classificar seu comportamento de nada menos que vergonhoso. A mentira mais óbvia, a manipulação mais crua e cara-de-pau mais evidente se encontram por lá. Dignamente representados pelos apresentadores da Fox News.

Coincidentemente a imprensa nacional decidiu ignorar o tema da reforma do sistema de saúde americano, fazendo análises pontuais e irrelevantes sobre uma ligeira queda na popularidade do Presidente Obama. Tudo bem, este é um lado da questão; mas será que ficaram todos envergonhados da postura nazista dos membros e entusiastas do partido republicano?

Não sei por aqui, mas na CNN e na MSNBC o bicho tá pegando.

23/03/2009

Atos de violência

Arquivado em: Direito, Política, Sociedade — Tags:, — Fernando Leme @ 12:40 pm

Resposta a http://oleopardiano.wordpress.com/2009/03/23/a-igreja-catolica-e-a-concepcao/

A distinção entre religião e Estado é um dos pilares fundamentais da organização social ocidental. Tão importante quanto esta é a constatação de que há atos de natureza privada (que só me interessam a mim) e atos de natureza pública (cujos efeitos importam a todos e cuja tutela é do Estado).

Assim, resta evidente a constatação de que a escolha de uma fé, uma religião, credo ou seita são atitudes de ordem privada que de maneira alguma importam aos demais e sobre cujos resultados só os indivíduos se responsabilizam. No entanto é importante reconhecer a origem destas escolhas e mais ainda: se houve de fato direito ou chance de escolha.

Coincidentemente, a recente viagem do Cardeal Ratzinger passou por Angola e Camarões, países cuja invasão católica se deu em terras do animismo e demais religiões tribais, às custas da colonização portuguesa (seu tráfico de escravos, proselitismo religioso e demais males) contra os quais a igreja nunca se levantou; ao contrário, participou ativamente como emissário do poder divino na legitimação do desmando e opressão.

O Estado machista do Vaticano, que conta com um deus masculino (o deus) e milênios de descaso quanto a importância das mulheres para além do papel de reprodutora e mantenedora de um bem chamado família, não seria nunca atento o suficiente para constatar que tal conduta deposita carga extra sobre os ombros da mulher. Uma vez aceitando que qualquer ingerência em seu próprio corpo é pecaminosa (pílulas anticoncepcionais, DIU’s, etc) e qualquer uso de preservativo também, a Igreja impõe à mulher a sorte da roleta russa SEM SE RESPONSABILIZAR PELOS RESULTADOS do nascimento de um sem-número de crianças sem condições mínimas de crescimento e dignidade (entendidos pelo bom senso e como positivado pela declaração universal dos direitos humanos).

Durante os séculos de opressão do continente africano, a Igreja, pacientemente, assistiu seu holocausto, fazendo quando muito as vezes de um profeta Jeremias, chorão e inativo. Inútil. Que quer Ratzinger agora, ingerir-se na conduta privada de um sem-número de fiéis, tornando suas práticas num peso extra para os países do continente?

O esforço na construção de um Estado laico, independente e baseado no desenvolvimento integral da pessoa, manifestado na declaração universal dos direitos humanos, diz o seguinte:

Artigo XXV
1. Toda pessoa tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e a sua família saúde e bem estar
I. Toda pessoa tem direito à instrução.

Artigo XXIV
1. Toda pessoa tem deveres para com a comunidade, em que o livre e pleno desenvolvimento de sua personalidade é possível.
2. No exercício de seus direitos e liberdades, toda pessoa estará sujeita apenas às limitações determinadas pela lei, exclusivamente com o fim de assegurar o devido reconhecimento e respeito dos direitos e liberdades de outrem e de satisfazer às justas exigências da moral, da ordem pública e do bem-estar de uma sociedade democrática.
3. Esses direitos e liberdades não podem, em hipótese alguma, ser exercidos contrariamente aos propósitos e princípios das Nações Unidas.
Considerando que os povos das Nações Unidas reafirmaram, na Carta, sua fé nos direitos humanos fundamentais, na dignidade e no valor da pessoa humana e na igualdade de direitos dos homens e das mulheres, e que decidiram promover o progresso social e melhores condições de vida em uma liberdade mais ampla…

A eloquência do texto salta aos olhos de modo que é impossível não se maravilhar com a possibilidade de criação de uma comunidade de Estados nestas condições. E é impossível não notar que no relacionamento entre pessoas que se espera construir, as escolhas de caráter privado não importam. E é ai que o discurso oficial da igreja atrapalha, uma vez que a escala de seguidores é suficiente para desencaminhar políticas públicas que porventura tentem resolver a questão de maneira científica e séria.

Assim, se se quer que todos gozem de liberdade para a escolha de suas próprias religiões e suas cruzes no calvário para carregar durante a vida, espera-se que tenham tido ANTES acesso aos meios e ferramentas de filtrar, nos diversos discursos religiosos, sua natureza e implicações. De outro modo, ingerir-se na vida privada das pessoas, sem lhes dar ferramentas de defesa e sem salvaguardas sociais dos resultados é mais um dos atos de violência perpetrados pela Igreja.

22/03/2009

Que o Papa vá à merda

Arquivado em: Política, Sociedade — Tags:, , , , — Fernando Leme @ 2:14 pm

As recentes declarações do Papa Ratzinger não poderiam ser mais apropriadas. A compreensão da estratégia da Igreja de manutenção do servilismo ideológico a qualquer preço combinam com a aparência cruel e irredutível do ex-inquisidor alçado a Papa.

Servilismo este que depende de uma estrutura que mantenha à todos alheios a si mesmos. Alheios aos seus problemas (e principalmente da solução deles). Em resumo, a desinformação, o obscurantismo e a ignorância SEMPRE foram as ferramentas mais eficazes para a sustentação da propaganda religiosa.

Ao declarar que o uso da camisinha, na verdade, piora o problema, Joseph Ratzinger se vê obrigado a usar dos argumentos mais baixos à disposição. O santo padre avisa que o único meio seguro de se proteger da AIDS e, portanto, evitar sua disseminação, é a abstinência sexual.

Claro! Se a comida em determinado restaurante está podre, deixe de comer. Pena que este é o único restaurante disponível! Mais triste ainda é que bastaria lavar as mãos para estar novamente habilitado às refeições. De agora em diante, se o ar não lhe agrada, deixe de respirar.

A constatação impressionante, entretanto, é que o argumento do santo padre não consegue nem convencer seus padres envolvidos em casos de pedofilia ao redor do mundo.

Qualquer opinão pessoal é defensável como tal. Quando as mesmas declarações atingem status de declaração política, entretanto, deveriam ver-se revestidas de respeito às políticas públicas que procurem, cientificamente, resolver o problema.

Tanta contundência e determinação não são vistas nas palavras do Cardeal Ratzinger ao tratar da tragédia humanitária em Darfur, às guerrilhas de Mogadício.

Talvez porque genocídio, indefinição política e AIDS sejam os parceiros defintivos para a consecução dos objetivos últimos da igreja, dentre os quais não encontro fé legítima.

06/03/2009

Uma nova esfera de controle e transparência

Arquivado em: Direito, Internet, Linux, Política, Sociedade — Fernando Leme @ 2:19 am

Se existe a tal sociedade da informação e amplia-se de fato o número de pessoas com acesso à computadores e à internet, cresce a necessidade de busca de alternativas tendentes à publicização de suas ferramentas, agregando-se aos já conhecidos direitos sociais o direito ao software.

Não se trata, contudo, de uma solução jurídica para um problema social, mas principalmente numa solução política para um problema econômico e ético.

Neste sentido urge a criação de uma biblioteca ou repositório públicos de códigos de lógica. Uma série de programas tidos como fundamentais (sistemas operacionais, ferramentas de edição de texto e navegadores de internet, por ex.) compiláveis em qualquer plataforma e expostos continuamente a auditoria pública.

Esta busca se dará em dois sentidos. O primeiro é o da proteção da liberdade e privacidade dos usuários; porque livrando-os da esfera aprisionadora dos grandes fornecedores de códigos (concentradores de renda e inacessíveis do ponto de vista técnico em seus objetivos práticos) e criando condições para que os alfabetizados nas diversas linguagens de programação submetam ao escrutínio constante os códigos públicos, de modo a torná-los melhores, mais confiáveis, mais seguros e ao mesmo tempo, livres de esferas de espionagem e roubo de informações de caráter privado.

O segundo é o da criação de ferramentas públicas de acesso aos mecanismos de gestão das diferentes esferas administrativas. Existe uma preocupação com o desenvolvimento e aplicação de políticas públicas mais eficazes, os quais podem ser exponencialmente melhorados com a aplicação de canais de transparência e responsabilidade jurídica dos gestores. Existe a possibilidade de criação destas ferramentas, nascidas no contexto de uma  sociedade educada, informada, livre e capaz de auditar e exigir de seus governantes a aplicação dos princípios fundamentais de uma sociedade como a brasileira como a solidariedade e a justiça social.

Nenhuma das tendências é nova ou original, o que falta é integrá-las de modo a contribuir com a construção de uma sociedade em que a informação não seja um valor absoluto. A informação não tem valor em si. Vale, entretanto, quando se torna apta ao desenvolvimento social e à outorga de poder aos destinatários últimos de um Estado Democrático de Direito.

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