Resposta a http://oleopardiano.wordpress.com/2009/03/23/a-igreja-catolica-e-a-concepcao/
A distinção entre religião e Estado é um dos pilares fundamentais da organização social ocidental. Tão importante quanto esta é a constatação de que há atos de natureza privada (que só me interessam a mim) e atos de natureza pública (cujos efeitos importam a todos e cuja tutela é do Estado).
Assim, resta evidente a constatação de que a escolha de uma fé, uma religião, credo ou seita são atitudes de ordem privada que de maneira alguma importam aos demais e sobre cujos resultados só os indivíduos se responsabilizam. No entanto é importante reconhecer a origem destas escolhas e mais ainda: se houve de fato direito ou chance de escolha.
Coincidentemente, a recente viagem do Cardeal Ratzinger passou por Angola e Camarões, países cuja invasão católica se deu em terras do animismo e demais religiões tribais, às custas da colonização portuguesa (seu tráfico de escravos, proselitismo religioso e demais males) contra os quais a igreja nunca se levantou; ao contrário, participou ativamente como emissário do poder divino na legitimação do desmando e opressão.
O Estado machista do Vaticano, que conta com um deus masculino (o deus) e milênios de descaso quanto a importância das mulheres para além do papel de reprodutora e mantenedora de um bem chamado família, não seria nunca atento o suficiente para constatar que tal conduta deposita carga extra sobre os ombros da mulher. Uma vez aceitando que qualquer ingerência em seu próprio corpo é pecaminosa (pílulas anticoncepcionais, DIU’s, etc) e qualquer uso de preservativo também, a Igreja impõe à mulher a sorte da roleta russa SEM SE RESPONSABILIZAR PELOS RESULTADOS do nascimento de um sem-número de crianças sem condições mínimas de crescimento e dignidade (entendidos pelo bom senso e como positivado pela declaração universal dos direitos humanos).
Durante os séculos de opressão do continente africano, a Igreja, pacientemente, assistiu seu holocausto, fazendo quando muito as vezes de um profeta Jeremias, chorão e inativo. Inútil. Que quer Ratzinger agora, ingerir-se na conduta privada de um sem-número de fiéis, tornando suas práticas num peso extra para os países do continente?
O esforço na construção de um Estado laico, independente e baseado no desenvolvimento integral da pessoa, manifestado na declaração universal dos direitos humanos, diz o seguinte:
Artigo XXV
1. Toda pessoa tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e a sua família saúde e bem estar
I. Toda pessoa tem direito à instrução.
Artigo XXIV
1. Toda pessoa tem deveres para com a comunidade, em que o livre e pleno desenvolvimento de sua personalidade é possível.
2. No exercício de seus direitos e liberdades, toda pessoa estará sujeita apenas às limitações determinadas pela lei, exclusivamente com o fim de assegurar o devido reconhecimento e respeito dos direitos e liberdades de outrem e de satisfazer às justas exigências da moral, da ordem pública e do bem-estar de uma sociedade democrática.
3. Esses direitos e liberdades não podem, em hipótese alguma, ser exercidos contrariamente aos propósitos e princípios das Nações Unidas.
Considerando que os povos das Nações Unidas reafirmaram, na Carta, sua fé nos direitos humanos fundamentais, na dignidade e no valor da pessoa humana e na igualdade de direitos dos homens e das mulheres, e que decidiram promover o progresso social e melhores condições de vida em uma liberdade mais ampla…
A eloquência do texto salta aos olhos de modo que é impossível não se maravilhar com a possibilidade de criação de uma comunidade de Estados nestas condições. E é impossível não notar que no relacionamento entre pessoas que se espera construir, as escolhas de caráter privado não importam. E é ai que o discurso oficial da igreja atrapalha, uma vez que a escala de seguidores é suficiente para desencaminhar políticas públicas que porventura tentem resolver a questão de maneira científica e séria.
Assim, se se quer que todos gozem de liberdade para a escolha de suas próprias religiões e suas cruzes no calvário para carregar durante a vida, espera-se que tenham tido ANTES acesso aos meios e ferramentas de filtrar, nos diversos discursos religiosos, sua natureza e implicações. De outro modo, ingerir-se na vida privada das pessoas, sem lhes dar ferramentas de defesa e sem salvaguardas sociais dos resultados é mais um dos atos de violência perpetrados pela Igreja.