Universo Fer

07/11/2009

O Muro, por Thomas Hoepker

Arquivado em: Sociedade — Fernando Leme @ 11:15 pm

Resolução maior neste link.

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01/11/2009

Obama, as paixões e o messianismo

Arquivado em: Política, Sociedade — Tags: — Fernando Leme @ 2:10 pm

Cresce o descontentamento na Europa com o governo Obama. Como toda paixão (irrefletida, apressada, irracional) esses movimentos seguem a trajetória de produzir uma senóide em que altos e baixos correspondem mais ao acaso e às expectativas do que medidas sérias tomadas no curso de uma administração no mundo real.

A Foreign Policy publicou dois artigos em que menciona o desgaste da imagem do Obama e o fim de sua lua-de-mel. Um deles ironicamente anuncia logo no título: “Bush era melhor para a Europa, juro”. Artigo em que um dos principais argumentos era o fato de que, apesar da retórica do “ou está concosco ou está contra nós” da política externa no governo W. Bush, ele dependia muito mais de consultas sobre decisões específicas do que tem demonstrado o governo Obama; que faz o contrário: fala sempre em multilateralismo e cooperação mas tem tomado muitas decisões isoladamente.

O artigo na íntegra está aqui.

O outro artigo, de Peter Rashish, consultor estratégico e colunista da New Left Review, menciona as pressões para a adoção de uma estratégia de saída mais rápida para as duas guerras no Oriente Médio. Região em que, segundo o autor, Obama tem oscilado entre estratégias distintas sem nenhum objetivo claro. Quem quiser ler o artigo na íntegra, clique aqui.

Pedindo perdão antecipado pela ousadia, acredito que sempre haverá um articulista capaz de sentir, intuir, movimentos de opinião pública e sobre tais movimentos basear seu texto. O qual tende a realimentar o sentimento geral e criar um climão em qualquer direção. Desde Antonio Conselheiro, John Kennedy e Jimmy Carter eu desisti de esperar a ressurreição e posterior eleição em pleito majoritário do Messias. Acredito nos métodos do atual presidente americano e desconto fato de que Obama encontrou um país destruído economicamente, desacreditado moralmente e enfiado em duas guerras. E enquanto tenta resolver estes problemas tem que lidar com o raciocínio raso da direita americana.

Que tal dar um tempo pro cara?

24/10/2009

O erro e a negação da arte

Arquivado em: Dá licença?, Música, Sociedade — Fernando Leme @ 5:56 pm

Não teria coragem de redefinir a arte. Eu a sinto, entretanto, como uma oposição à natureza humana imperfeita e ao ruído desorganizado do mundo. Ainda que imperfeito, descontínuo, o homem busca recriar na natureza (e através dela) um sentimento de beleza sem correspondente no mundo natural. Sentimento que, indepentendemente de qualquer racionalidade aplicada ao objeto, reconhece nele a tentativa de perfeição. O desejo angélico.

Ou ainda, como diria o Zé Wisnik em “O som e o sentido”, tratando das experiências vocais:

“Cantar em conjunto, achar os intervalos musicais que falem como linguagem, afinar as vozes significa entrar em acordo profundo e não visível sobre a intimidade da matéria, produzindo ritualmente, contra todo o ruído do mundo, um som constante (um único som musical afinado diminui o grau de incerteza no universo, porque insemina nele um princípio de ordem).”

O problema é que essa busca se depara com o fastio humano pela repetição indefinida dos mesmos temas e propósitos. Buscar limites novos para os sons (e para as imagens) incluiu admitir e tornar natural ao ouvido o que antes era entendido (e sentido) como ruidoso, desagradável. As tensões harmônicas, admitidas passo a passo pela produção erudita, deixaram de representar o diabo para personificarem-se em colorido novo ao mesmo encadeamento.

O ruído, finalmente entendido, não começou com  a bateria corajosa de Bonham, nem com guitarras saturadas e vocais desafinados. Estas representações, na verdade, são uma simplificação do processo que chegou em Sex Pistols, que embora crias de um caminho inaugurado no mesmo instante do nascimento da música ocidental, arrogavam-se certa originalidade. E prepararam gerações seguintes para a ausência de critérios na escolha do que ouvir. Segundo Caetano:

“Recentemente ouvi de Arto Lindsay que os músicos e produtores dessas formas mais em voga de dance music (techno) são consumidores vorazes justamente desse repertório heroicamente defendido por Augusto. Assim, muito mais do que Paul (McCartney) pode ter ouvido Stockhausen, esses garotos ouvem Varèse e Cage, Boulez e Berio. E, me diz Arto, só falam nisso. O que pensar? Nos anos 70, vozes conservadoras (e muito úteis) já se levantavam para protestar contra “o modernismo nas ruas”. Mas onde e como se formará o ouvido coletivo naturalmente familiarizado com a música dos pós-serialistas ou pós-dodecafônicos? E que mundo será esse em que uma música assim soe como música ao ouvido de “todos”?”

Ou como a arte dadá, que começa mentirosa no nome, a verdade é que o “erro” e o ruído sempre precisaram de justificação teórica (consciente ou não) para sua existência. E somente justificados sagram-se como verdade e estabelecem um novo limite do suportável.

Só que eu sinto uma certa tristeza com a valorização do erro em si. Do erro enquanto erro, enquanto preguiça de consertar. Um colega (Armando Coló), legitimamente defendendo um ponto de vista, disse certa vez:

“Obrigado pela retífica, passou-me despercebido o erro. Hoje em dia, creio que concorde comigo, estamos encerrados num mundo onde não podemos errar. Qualquer erro serve para deteriorar, senão aniquilar, todos os acertos. É uma pena, é até injusto. Mas é real. Aproveitarei, contudo, para não corrigir o texto. Se assim fizesse, além de tirar o sentido do solitário comentário objetivo que você fez, estaria eu admitindo e corroborando para que os erros nunca sejam, nunca aconteçam: mas eles acontecem. Sim, acontecem.”

Ou ainda a iniciativa mais recente de Tom Soares, o ErroDito, em suas próprias palavras:

“Parte do Projeto ErroDito. Gravado ao vivo, sem edição de áudio ou vídeo, testando meu sistema orgânico e a tecnologia do novo Ichat da Apple.”

Porque isso é a negação do processo de buscar (ou impor) ordem no universo. Principalmente porque o erro, ainda que justificado pela busca da incorporação do ruído, não tem nada de novo, nada de original e representa, no máximo, a continuação de um processo milenar. O improviso, a ausência de edição e revisão sempre foram o caminho mais simples em qualquer processo, e  por isso seu avesso (o cuidado, a edição bem feita, o texto corrigido, etc.) sempre foram valorizados.

Ou vai ver eu é que sou da velha guarda.

22/10/2009

Inventar o Brasil

Arquivado em: Política, Sociedade — Tags:, — Fernando Leme @ 1:40 am

Dois projetos, distintos e hegemônicos, de país prometem um choque cruento nas eleições do ano que vem. Enquanto a gente se perde na agenda da Lina Vieira e nas denúncias da Veja, há algo latente, que pede para ser ouvido e para nortear qualquer discussão sobre o futuro. O velho sábio dirá melhor:

20/10/2009

O jogo é o jogo

Arquivado em: Economia, Sociedade — Tags: — Fernando Leme @ 11:00 am

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Família reconstrói barraco após incêndio em São Paulo

Política e economia de vez em quando se enroscam. Toda teoria econômica, como tal, não é muito útil até que alguma escolha política a ponha em prática.

Mike Nichols, o diretor de Charlie Wilson’s War, demonstrou que, pelo menos no que dizia respeito ao Afeganistão, não havia qualquer interesse do governo americano em evitar catástrofes humanitárias ou mesmo em preservar geopoliticamente um território que proveria o acesso do bloco soviético às reservas de petróleo do Oriente Médio.

O importante era manter o jogo. Em que toda uma estrutura burocrática, em graus diferentes de cinismo, brincava de interesse público e de liberdade. O pior foi desconsiderar a obviedade de que não bastava jogar o joguinho da guerra fria. Era importante reconstruir as escolas…

Mas como resumu o próprio Charlie Wilson: “These things happened. They were glorious and they changed the world…

and then we fucked up the end game“.

No Brasil, políticas econômicas sucessivas têm sido incapazes de resolver o problema do inchaço das cidades. Curiosamente este problema não começou ontem; é um fenômeno que remete à ondas sucessivas de expulsão dos moradores das zonas rurais, das quais as mais recentes são a industrialização (!!!!) e a catástrofe meteorológica infinita do Nordeste.

A solução é complicada e passa pela redistribuição do campo, reorganização da estrutura econômica da produção agrícola, difusão do investimento público e estrangeiro (que por sua vez depende de infraestrutura) e portanto, muito capital político e idealismo seriam necessários para começar a resolver o problema.

Afora o fato de que correntes ideológicas distintas vêem soluções diferentes para o mesmo fato (quando não soluções mutuamente excludentes, de modo que ao aplicar uma política desfaz-se o efeito de outra), o que se vê ultimamente é a ausência de qualquer corrente ideológica. O jogo é o jogo, a desassistência é a regra (e não estamos falando de neoliberalismo).

Torço encontrar motivação legítima, comoção com o drama humano e com a ausência de perspectivas. Motivação honesta.

11/10/2009

A análise superficial

Arquivado em: Internet, Política, Sociedade — Fernando Leme @ 10:25 pm

O post mais recente de Cláudio Cordeiro, enquanto prima pela informalidade, comete aqueles erros de análise próprios da leitura superficial dos temas e da falta de disposição em entender os assuntos.

Em meio a comentários que não me interessam cometeu os seguintes parágrafos:

Ao mencionar o prêmio Nobel: “Um cara que administra duas guerras, do Iraque e do Afganistão que bombardeou a Lua esta semana recebeu o Premio Nobel da Paz, se o Lula receber o Nobel de Física minha surpresa nõ será maior ou menor.”

Por favor, Cláudio, as duas guerras (pelo que consta) foram herdadas da administração anterior. Herdadas, por sinal, com a promessa de encerrá-las responsavelmente (vide Charlie Wilson’s war) e de mudar o foco de uma guerra tradicional para o tipo de confronto que a “ameaça terrorista” (como vista da perspectiva americana) precisa. A explicação dada pelo próprio Conselho do Nobel diz que a escolha recaiu sobre Obama porque ele conseguiu mudar o clima político e restaurar uma atmosfera de confiança internacional (restabeleceu vínculos com a Rússia, iniciou um diálogo com o Irã, etc.). Clima e confiança estes que haviam sido destruídos pelos oito anos de fundamentalismo cristão e de direita de W. Bush. O comentário ao Nobel de Física beira o preconceito característico da turminha Leblon-Paulista-OAB-Cansei, e além de preconceituoso, não acrescenta ao debate.

O segundo comentário: “Por falar em Lula, o programa “Minha Casa Minha Vida” parece que deu certo, o primeiro a conquistar este direito foi o presidente deposto de Honduras, está em nossa embaixada com vários convidados e para variar o Planalto não sabia de nada.”

Deixando de lado as referências diplomáticas e o apoio unânime dos analistas e organismos internacionais quanto à postura adotada pelo governo brasileiro, o “Minha casa, minha vida”, não obstante sua vida ainda breve, é responsável pelo ressurgimento do crédito no mercado interno após a pior parte da crise do sistema financeiro, e pela aparente recuperação do setor imobiliário (incluída a construção civil). Assim, o programa em questão tem sido mesmo bem-sucedido, embora seja alvo da sanha criticista de comentaristas políticos mais ao centro-direita como Alexandre Garcia e Míriam Leitão.

Ah, os argumentos, sempre os argumentos.

08/10/2009

O Afeganistão

Arquivado em: Sociedade — Tags:, — Fernando Leme @ 6:29 pm

Capturadetela2A invasão americana no Afeganistão completou ontem oito anos, consolidando-se como uma das mais longas, caras e improdutivas ações militares da história mundial, aproximando-se perigosamente do tempo total dispendido no Vietnã na década de 1960.

Neste período os EUA já gastaram um total de US$ 300 bilhões para financiar a permanência de suas tropas numa tresloucada tentativa de combater células terroristas internacionais numa guerra convencional, baseada no território de um Estado que há muito deixou de ser o “centro” irradiador da intelligentsia da Al-Qaeda.

A chamada “guerra contra o terrorismo” contribui, assim, para cavar mais fundo o assustador deficit das contas públicas norte-americanas (que neste momento se encontra na casa dos US$ 3 trilhões!!!), transformou o Afeganistão num país ainda mais devastado (competindo com Níger e Serra Leoa entre os piores IDH’s do mundo), cujo mandatário (Hamid Karzai) se vê às voltas com alegações de fraude nas eleições.

A dívida humana, entretanto, se acentua enquanto a ineficácia evidente da estratégia se impõe. Mais uma das dívidas insanáveis do poderio americano.

29/09/2009

Diplomacia de alto nível

Arquivado em: Sociedade — Tags:, , , , — Fernando Leme @ 2:35 am

Enquanto estamos ainda acompanhando como a uma novela os desdobramentos em Honduras, a diplomacia norte-americana da gestão Obama acabou de dar uma demonstração de organização, coerência e uso adequado dos serviços de inteligência.

Esta demonstração acabou por deixar claro que enquanto alguns trabalham, há os que preferem o palpite. Uma série de medidas tomadas pelo governo americano (de diversos níveis) foram alvo da grita da direita, que aqui no Brasil acusou Obama de  ser um “estagiário patético”. Os argumentos foram:

1. Render-se à pressão da Rússia na desistência da instalação do “escudo antímísseis” no leste europeu. Esse argumento nem precisa de contexto. O tal “escudo” caiu por um motivo simples: ele não funciona. Depois de quase dez anos e milhões de dólares em investimentos o protótipo a que se chegou simplesmente não serve como escudo. Sabe-se lá quantos anos e dólares mais seriam necessários para uma proteção efetiva. Obviamente a direita americana escolheu o argumento de que Obama estaria tornando a “América” menos segura. Argumento repetido pela matilha nacional.

2. Ser “manso” com o Irã. A verborragia belicista da administração Bush não conseguiu NENHUM resultado positivo no que diz respeito ao enriquecimento de urânio e possível construção de um artefato nuclear no Irã. Por outro lado, Ahmadinejad já está fragilizado por causa das dúvidas em relação ao processo que lhe outorgou mais um mandato e a possibilidade de diálogo com o Ocidente desmonta seu argumento reincidente de que Satã é o outro, e desta forma conseguir alguma coesão nacional. Bom, quando Satã estende a mão, a quem culpar?

3. Pregar um mundo sem armas nucleares. Não sei você, mas eu não pretendo morrer incinerado nem enfrentar um pós-guerra nuclear. De qualquer forma, estas declarações emprestam ao governo americano um ar de coerência e compromisso com a criação de um mundo menos violento (ou pelo menos sem extinção em massa). Além disso, a possibilidade de que armamento atômico caia nas mãos de extremistas é um risco grande demais (para qualquer país) e, portanto, pregar a não-proliferação e a diminuição do número dos artefatos já existentes é uma meta honrosa.

4. Ser condescendente com a canalha Hondurenha. Vale ressaltar que a “canalha” a que as críticas se referiam são o presidente deposto e seus seguidores. Em Honduras havia uma ordem constitucional em risco, cuja solução deveria se dar pelos canais democráticos. O golpe militar, seu arrepio por direitos e garantias fundamentais (que culminaram no estado de sítio em que o país se encontra hoje) são, em si, o fim da democracia hondurenha. A falácia extrema deste argumento é antiga: vamos acabar com a democracia para defendê-la.

5. Que se submete à discurseira cretina do aquecimento global. Quanto a isso tenho a dizer o seguinte: “O Ministério da Saúde adverte: feiura, burrice e maldade não tem limites”.

Somente depois desta série de medidas o governo Obama revelou as mais recentes fotografias de construções não-declaradas em solo iraniano que poderiam servir para o enriquecimento de urânio. Assim,  ao posicionar-se tão claramente naqueles temas, Obama conseguiu a simpatia da reticente Rússia quanto às possíveis sanções contra o governo iraniano (às quais sempre se opôs) e o apoio pessoal de Gordon Brown e Nicolas Sarkozy quanto à defesa clara da segurança internacional. Bingo!

Quem é patético mesmo?

21/09/2009

A tendência autoritária

Arquivado em: Internet, Sociedade — Fernando Leme @ 5:14 pm

Não sou condescendente com falta de cérebro. Não tenho paciência com gente mal educada. Numa discussão tenho obsessão pelos argumentos, pelo foco. E, acima de tudo, respeito pelo outro.

Minhas discussões são sempre sobre idéias. Quando, excepcionalmente, tratam de gente, o sujeito tem que estar ali para se defender. Quando não, passo.

Não compartilho da regra comumente utilizada para a definição de simpatias e antipatias. Coisa que as pessoas fazem usando seus próprios critérios de vantagem e favorecimento. Se, por um lado, isso deixa menos pessoas na minha lista telefônica, por outro me dá garantias suficientes de que o interesse mútuo é verdadeiro, sincero.

Há um tipo de gente desfrutando das liberdades individuais que, no entanto, tem um tendência autoritária incompatível com a realidade. Foi o que algumas conversas recentes indicaram.

Curiosamente, como já afirmei pelo twitter, as mesmas pessoas que fazem uso de sua “liberdade de expressão” são ávidas em condenar o exercício alheio do mesmo direito. A opinião, uma vez pensada, escrita, publicada e assinada, é um testamento de que se você diz o que quer, submete-se ao contraditório, a ter que ouvir o que os demais pensam sobre o mesmo assunto.

Basicamente: quem fala o que quer, ouve…

Será que isso é tão difícil de entender?

Não tenho paciência com burrice (principalmente a minha), grosseria e intolerância. Torço para que as pessoas cresçam e se permitam dividir razões.

No final das contas há os que ainda não decidiram se isto é a vida ou é um concurso de popularidade. Que aprendam a pensar! Ditadorezinhos de chapéu de palha e grama no vão dos dentes. Ruminar sujeito-verbo-predicado não dá à ninguém atestado de veracidade.

09/09/2009

A ficção e a propaganda

Arquivado em: Música, Sociedade — Fernando Leme @ 11:32 pm

De que valeu, em suma, a suma lógica
Do máximo consumo de hoje em dia,
Duma bárbara marcha tecnológica
E da fé cega na tecnologia?

Há só um sentimento que é de dó e de
malogro…

Lenine – É Fogo

A superioridade mecânica sobre a falibilidade humana é uma constante subjacente à grande parte da produção de ficção científica. À parte os anos gloriosos de Júlio Verne e Exupery, inventar futuros para as máquinas foi a grande distração dos herdeiros de Asimov.

A aventura mítica de Star Wars foi o que me deu a dica de que a imaginação de como seria ou pareceria a tecnologia de alguns anos à frente quase sempre resultou verdadeira.

Estas imagens do futuro acabam criando as fronteiras que os tecnólogos procuram superar. Se parece risível que os botões gigantes em “O Império Contra-ataca” poderiam ser um objetivo sério é só prestar atenção em qualquer equipamento eletrônico da década de 80, com seus botões brilhantes. “Eu robô”, com sua semiopacidade clean já é a realidade de iphones e touchtables por aí.

A nova fronteira parece ser os monitores e discos de armazenamento transparentes de Minority Report. Fronteira que recebeu um incremento com a construção biológico-molecular-3D do “Exterminador do Futuro IV”; filme em que nossa modernidade plástica de páginas 2D na internet se vê obsoleta antes de consolidada.

Ao invés de restabelecer limites, a ficção presta-se ao papel fútil de criar novas imagens de desejo, onde a inventividade e a utilidade são acessórios da estética futurística. Máquinas fotográficas com um número interminável e inútil de megapixels (a não ser que alguém pretenda revelar fotos do cachorro ou do churrasco num outdoor), sistemas operacionais com necessidades infinitas de memória aleatória que, no bojo, não trazem nenhuma nova funcionalidade.

A realidade é que existe um número razoavelmente restrito de necessidades humanas solúveis neste modelo de produção e nesta organização do trabalho e a imaginação do futuro poderia nos servir de guia para o que de fato precisamos, não de peça publicitária travestida.

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