O PIBinho e civilização brasileira

Nesta semana divulgaram-se os dados oficiais sobre o crescimento da economia brasileira em 2012. Alguns analistas mencionaram que o crescimento de 0,9% é pífio, considerando-se o desempenho dos demais países em desenvolvimento, notadamente os Brics e os demais países sul-americanos. A unanimidade com que os veículos tradicionais se referem ao tema, e a insistência com que o fazem, porém, levantam mais dúvidas do que certezas sobre o desempenho não apenas da economia (tomada aqui enquanto medida de incremento de riqueza privada), mas do bem-estar da sociedade como um todo.

Variacao-anual-do-PIB-1994-2012

Uma das questões importantes e negligenciadas diz respeito aos mecanismos pelos quais a riqueza eventualmente produzida por um país é distribuída pela população em suas diversas faixas de renda, mediante política salarial e tributária e acesso ao emprego. Historicamente, o Brasil apresentou períodos de expressivo crescimento econômico que acabaram concentrando mais renda nas mãos das elites econômicas. O período mais recente corresponde aos anos do milagre econômico (o que tornou Delfim Neto e Roberto Campos figuras respeitáveis, ainda sob regime militar), entre 1968 e 1973, em que o país cresceu o correspondente ao padrão chinês atual e, no entanto, concentrou riqueza correspondente a 50% do total produzido pelo país nas mãos dos 5% mais ricos. Por outro lado, os mais pobres acabaram vendo uma diminuição da sua renda no mesmo período. O que significa dizer que para a grande maioria da população brasileira, os anos do chamado “milagre” corresponderam, na verdade, a um período de empobrecimento em que o crescimento do PIB, para além de manchetes elogiosas, produziu efeito nulo.

O período iniciado com o primeiro mandato do presidente Lula correspondeu a uma inflexão na tendência da economia brasileira de produzir riqueza sem distribuí-la. Iniciativas como o aumento real do salário mínimo, ampliação e fortalecimento dos programas de transferência de renda e do acesso ao ensino superior transformaram o Brasil num caso de sucesso reconhecido internacionalmente por tirar da miséria milhões de pessoas, criar um mercado de consumo interno e despontar mundialmente como uma exceção ao processo de concentração de renda hoje em curso nos países desenvolvidos. Medidas como o coeficiente de Gini (que mede o grau de concentração de renda, e varia de 0, numa sociedade absolutamente igual, a 1, noutra totalmente desigual), comprovam que o país conseguiu aliar, na última década, crescimento econômico e distribuição de renda.

Fonte: IPEA.

Fonte: IPEA.

Países como os Estados Unidos, por outro lado, têm assistido desde a década de 1970 a um aumento da concentração de renda nas mãos dos super ricos. Processo que tem o efeito de minar as bases de uma sociedade construída sobre o consumo interno (por volta de 70% do PIB norte-americano), fato apontado por alguns economistas como um dos responsáveis pela superdependência de crédito, que por sua vez foi uma das causas da crise iniciada em 2007/8. Uma vez que não se veem no horizonte sinais de alteração desta tendência, o crescimento do PIB norte-americano em 2012 se deu num contexto de alto nível de desemprego (por volta de 8%, o nível brasileiro está em torno de 4%) em que os mais pobres, mesmo quando empregados, ganham menos.

Fonte: Mother Jones

Fonte: Mother Jones

Desta forma pode-se perceber que o crescimento do PIB, embora necessário como medida de ampliação do bem-estar e das oportunidades desta geração e das próximas, não é a única (e, nos casos apresentados, nem a mais importante) medida de sucesso de um país ou de uma sociedade. Países extremamente desiguais, como o Brasil infelizmente ainda é, devem ampliar a lente sobre a qual observam sua própria realidade, de modo a não comprar e defender pontos de vista que em última análise não correspondem nem à verdade, nem aos seus interesses.

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