O rolezinho e Raul Pompéia

O “rolezinho” é o assunto de destaque da Globonews, o “rolezinho” virou a conversa preferida do happy hour, todo mundo tem opinião sobre o “rolezinho”.

É por isso que eu não quero falar dele. Vamos falar sobre os shoppings… estes paraísos em que o mundo deu certo; em que o excedente econômico consegue financiar pisos de granito, paredes de mármore, estacionamento “for all and for free”, temperatura constante e, acima de tudo, segurança. Ah, a segurança.

É impressionante o contraste com o mundo que não deu certo da vida real para além do consumo. A falência dos espaços comuns, as ruas mal iluminadas, asfalto com buracos, calor, poluição e perigo.

Mas é assustadora também a contradição interna nos templos dos tempos (pós)modernos em meio à pornografia dos preços nas vitrines. Preços que não refletem as antigas relações de custos e lucros, mas estratégias distintas de marketing. O produto que furtou a mão de obra nos países “menos desenvolvidos”, vem furtar os juros das compras a prazo nos países “em desenvolvimento” ávidos a plasmar os hábitos do centro da civilização com a boca meio torta e sotaque indisfarçável. E viva a “black friday” que dura uma semana inteira ou as promoções de 50% “off” que não são desconto. A distinção ali não é entre pobres e ricos, mas entre quem consegue parecer menos pobre ou fingir-se mais rico. No fundo, a diferença não é o tamanho da conta, mas o tamanho do crédito e a necessidade de comprometê-lo.

Quando Raul Pompéia escreveu “O Ateneu” parte de seu poder expressivo foi enxergar as circunstâncias além das aparências. Sobre ele escreveu Alfredo Bosi:

“Mas o trágico é que a escola, como a sociedade, na sua dinâmica de aparências, finge ignorar a iniquidade sobre que se funda. Tomando hipocritamente o dever-ser como a moeda corrente e o que é como exceção a ser punida, a praxe pedagógica não baixa o tom virtuoso que se ouve nos discursos de Aristarco e se perpetua nas máximas gravadas nos ladrilhos do colégio. São a eterna “boa consciência” e pairam acima da fealdade dos gestos violentos ou chulos que formam a rotina do meio adolescente. Mas, como todo sistema sempre à beira do desequilíbrio, a escola terá suas válvulas de escape. A figura agoniada, o rebelde castigado e reincidente, é um exemplo de bode expiatório, no qual todos exorcizam a má consciência que os rói em meio a tantas contradições… Como os criminosos e as meretrizes, que é preciso apontar à repulsa geral, para de algum modo esconjurar as tentações de ódio e de perversão que assediam a alma do homem comum. Franco deve ser escormentado pelo colégio em peso.”

Por isso, quando se sentir ameaçado pela presença maciça dessa “gente morena” (como dizia Darcy Ribeiro), não se esqueça de chamar a polícia, demonstrar seu pavor e indignação por esse povo “que não sabe seu lugar”.

Triste mesmo é que estamos todos disputando o shopping enquanto as bibliotecas permanecem vazias.

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