O silêncio como única opção

Às vezes a gente fica em silêncio porque precisa, às vezes a gente fica em silêncio por que quer e às vezes a gente fica em silêncio por que não tem nada a dizer mesmo.

Os últimos anos foram as três coisas. Minhas últimas tentativas de lidar com minha inabilidade literária tinham sido uma tentativa de terapia e dali pra frente o buraco era tão mais embaixo que escrever ficou impossível.

Daí que agora parece que esse tempo passou. Tenho sentido vontade de novo, passou aquela necessidade chata de soar complicado e a experiência como um todo parece divertida outra vez.

Hamlet assoviando um tema pro Bird

charlie_parkerFuçando em volta das coisas que eu tenho aqui em casa, ouvindo Charlie Parker e pensando ferozmente sobre qual ponto da lista de coisas pra fazer começar amanhã eu decidi dar uma olhadinha no saudosíssimo “História Social do Jazz” (do mais saudosíssimo ainda num nível membro da família, Eric Hobsbawm) que eu li quando moleque e que depois deveria reler mas só arranhei por pedaços depois de ficar velho e chato.

E daí que no comecinho ele sai falando sobre essa loucura do Jazz ter surgido como música popular, música de baile e música de entretenimento, embora aspirasse e merecesse algo melhor. E daí que o vô Hobs decide usar justamente o Parker como exemplo desse desarranjo:

“O jazz não tem uma cota anormal dessa figura tão cultivada pela imaginação romântica, o artista martirizado pelo próprio gênio, talvez porque seja uma arte esquizofrênica, uma arte obrigada a conviver no mercado de entretenimento popular sabendo que merecia outra coisa. Charlie Parker morreu com 35 anos vítima dos seus apetites mas também da frustração, desse desencontro entre o que era, e sabia que era, e o reconhecimento que podia esperar no meio a que estava preso.”

Esse último período doeu quando eu li. A fuga mais direta é aquela em que  gente diz pra gente mesmo: ora, mas quem não tem suas frustrações? E nem por isso eu entrei num caminho autodestrutivo igual o Charlie Parker.

O que é verdade tanto quanto o fato de que você não é o Charlie Parker em nenhum dos outros aspectos também. Incluindo os positivos. Ou seja, recolha-se a sua insignificância.

Mas isso me lembrou uma coisa sobre esse negócio da relação conflituosa que a gente tem com o desejo de reconhecimento e o reconhecimento do desejo (que o facebook encerra pelo menor denominador comum da estatística de curtidas das misérias que a gente tem pra dizer sobre a gente mesmo todo dia).

Em “Fundamentos da Psicanálise”, Marco Antonio Coutinho Jorge trata dessa relação em Lacan dizendo:

“Na histeria, Lacan fala de um desejo insatisfeito (no passado), e no obsessivo, de um desejo impossível (no futuro). Se o histérico permanece preso à repetição do trauma, o obsessivo posterga para depois a realização do desejo. Essa postergação do obsessivo encontra seu sentido quando se percebe que ele adia o encontro com a morte: eis o sentido do “to be or not to be”. Hamlet foge do desejo precisamente porque foge da morte”.

Aí é que está a pegadinha. Se Hamlet foge da morte, Parker a procura. Em parte porque tem uma certa histeria quanto a seu próprio lugar no mundo (imagina só você mandando o melhor improviso da sua vida na última música da noite e o bar lotado de três bêbados discutindo no caixa sobre o valor da cachaça). E em parte porque não tinha o menor interesse em “esperar” que o mundo lhe outorgasse esse reconhecimento (que afinal de contas viria “só” duas décadas depois).

E daí que a postergação do Parker é definitiva. É agora ou nunca.

A moral da história é que o Marx tinha razão quando diz lá no XVIII Brumário que os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem. E daí que entre o Hamlet que faz trezentos anos que não sabe se é, o Parker que desde os vinte sabia que era mas ninguém dava bola, o histérico em remoer seu próprio passado e o obsessivo em adiar o próprio futuro não existem escolhas muito coloridas.

A queda da esquerda latino-americana

mousewheelA partir de 2003 parecia que a América do Sul realizaria seus desejos mais antigos de justiça social e redução das desigualdades. Kirchner, Lula, Morales, Mujica, Rafael Correa e, é claro, Chavez personificaram o ressurgimento de governos populares depois de (para não jogar a retrospectiva muito longe) duas décadas de governos, digamos, mais alinhados à direita norte-americana e europeia.

Com o fim progressivo das últimas ditaduras sul-americanas (principalmente a brasileira, chilena e argentina) nos anos 1980 e sentindo os efeitos mais claros da crise do petróleo e dos juros na nossa dívida externa (que no Brasil significaram a pá de cal na falta de legitimidade dos governos militares na figura do cansado Gen. Figueiredo), chegamos aos anos 1990 flertando com as políticas do chamado Consenso de Washington que criaram resultados sociais bastante negativos, queda do nível de emprego, privatização de empresas públicas para pagamento do custeio da máquina do Estado. Ampliando profundamente a vulnerabilidade à crises externas, como a da dívida argentina e russa.

Até que a consecutiva eleição de governos “progressistas” acabou denunciando a fragilidade do modelo oposto devidamente castrado de suas propostas ditas mais radicais, principalmente a reforma agrária. O respeito ao tripé macroeconômico (juros, câmbio e superávit primário) durante o início do governo Lula, já declarada na Carta ao Povo Brasileiro, significava algum compromisso com o “capital estrangeiro” tão demonizado pelas esquerdas. As políticas sociais chavistas navegaram em barris de petróleo de US$ 100 dólares e dilapidaram a produção nacional de praticamente todas as outras coisas, enquanto sustentava uma retórica “anti-imperialista”. Morales triplicou as receitas do Estado plurinacional boliviano renegociando sucessivas vezes o preço do gás exportado ao Brasil. Renegociações que nós, no Brasil, concordamos enquanto apostamos no longo prazo da convergência das economias e da infra-estrutura energética.

Mas, além das medidas de valorização das políticas sociais (que são um fim em si mesmo e eu vou defender sempre), algumas questões centrais continuaram desatendidas. No Brasil a persistência do personalismo e do compadrio no processo decisório descambou numa série de investigações que destruíram a cúpula do Partido dos Trabalhadores e ressuscitou a interpretação do dilema institucional brasileiro: o presidencialismo de coalizão. Ou seja, um parlamentarismo a posteriori forjado com pequenos favores aqui e grandes favores acolá, por qualquer que seja o partido no poder. O que reafirma sugestões de que o PMDB é o Brasil. Somos governados pelo “centrão” desde o fim do governo Vargas, mas ninguém fala disso.

A poupança interna continua baixa (coisa recente, desde a República Velha, pelo menos) o que nos torna particularmente dependentes do investimento direto estangeiro (com suas condicionalidades e extorsões), a infra-estrutura produtiva continua deficitária, principalmente no que poderia dar suporte à indústria e a participação da nossa benção-maldição, o agronegócio, no PIB continua aumentando; o que se reflete no conservadorismo ruralista no congresso federal. Enquanto isso o governo perdeu estatura para por em prática projetos de longo prazo de interesse de Estado (quer seja  o plano nacional de logística e transportes, quer seja o acordo Mercosul/União europeia).

O fim do boom das commodities representa a primeira rachadura no pacto intra-elites que permitiu por pouco mais de uma década a permanência dos governos populares no poder. O esgotamento da política cepalina/furtadiana de criação de demanda interna por ação do governo (que resultou em ampliação da dívida pública, aumento dos juros, desvalorização do câmbio, baixo crescimento e inflação acima da meta) a partir de 2011 é a segunda (e quase mortal) destas rachaduras representadas na última eleição por dois candidatos diferentes negociando basicamente com os mesmos grupos: Aécio e Marina.

Uma coisa parece certa. Existe um profundo desrespeito pela democracia que permanece presente entre as elites políticas de qualquer tendência ideológica no nosso continente. Cristina F. de Kirchner deixa o mandato com ordem judicial porque não quer entrar num acordo sobre onde transferir a faixa presidencial, para em seguida (acredite se puder), se recusar a devolver a conta do twitter usada institucionalmente pela Casa Rosada; Nicolás Maduro diz que reconhece pero no mucho as eleições que elegeram ampla maioria oposicionista na Venezuela; Aécio Neves nunca deixou de fazer propaganda contra as eleições que perdeu, e nem usou os microfones que aparecem sempre graciosamente disponíveis para desmentir rumores sobre a confiabilidade das urnas eletrônicas ou sobre a legitimidade do governo eleito.

Comportamentos que têm resultado político nulo (não favorecem quem os comete, nem tampouco atrapalham seus alvos) e significam manifestações de infância política que os nossos duzentos anos de independência formal não foram capazes de eliminar.

Em suma, acabou o projeto. O do governo Lula/Dilma, que significava cooptar uma parcela da elite com financiamentos públicos para projetos de infra-estrutura e subsídios à produção nacional, acabou por falta de grana. O projeto da esquerda “mais à esquerda” acabou por crônica falta de assunto e o da direita por crônica falta de educação. A novela, porém, ainda parece longe de acabar. Enquanto isso a gente fica aqui se fazendo de observador atento. E palpiteiro.

O rolezinho e Raul Pompéia

O “rolezinho” é o assunto de destaque da Globonews, o “rolezinho” virou a conversa preferida do happy hour, todo mundo tem opinião sobre o “rolezinho”.

É por isso que eu não quero falar dele. Vamos falar sobre os shoppings… estes paraísos em que o mundo deu certo; em que o excedente econômico consegue financiar pisos de granito, paredes de mármore, estacionamento “for all and for free”, temperatura constante e, acima de tudo, segurança. Ah, a segurança.

É impressionante o contraste com o mundo que não deu certo da vida real para além do consumo. A falência dos espaços comuns, as ruas mal iluminadas, asfalto com buracos, calor, poluição e perigo.

Mas é assustadora também a contradição interna nos templos dos tempos (pós)modernos em meio à pornografia dos preços nas vitrines. Preços que não refletem as antigas relações de custos e lucros, mas estratégias distintas de marketing. O produto que furtou a mão de obra nos países “menos desenvolvidos”, vem furtar os juros das compras a prazo nos países “em desenvolvimento” ávidos a plasmar os hábitos do centro da civilização com a boca meio torta e sotaque indisfarçável. E viva a “black friday” que dura uma semana inteira ou as promoções de 50% “off” que não são desconto. A distinção ali não é entre pobres e ricos, mas entre quem consegue parecer menos pobre ou fingir-se mais rico. No fundo, a diferença não é o tamanho da conta, mas o tamanho do crédito e a necessidade de comprometê-lo.

Quando Raul Pompéia escreveu “O Ateneu” parte de seu poder expressivo foi enxergar as circunstâncias além das aparências. Sobre ele escreveu Alfredo Bosi:

“Mas o trágico é que a escola, como a sociedade, na sua dinâmica de aparências, finge ignorar a iniquidade sobre que se funda. Tomando hipocritamente o dever-ser como a moeda corrente e o que é como exceção a ser punida, a praxe pedagógica não baixa o tom virtuoso que se ouve nos discursos de Aristarco e se perpetua nas máximas gravadas nos ladrilhos do colégio. São a eterna “boa consciência” e pairam acima da fealdade dos gestos violentos ou chulos que formam a rotina do meio adolescente. Mas, como todo sistema sempre à beira do desequilíbrio, a escola terá suas válvulas de escape. A figura agoniada, o rebelde castigado e reincidente, é um exemplo de bode expiatório, no qual todos exorcizam a má consciência que os rói em meio a tantas contradições… Como os criminosos e as meretrizes, que é preciso apontar à repulsa geral, para de algum modo esconjurar as tentações de ódio e de perversão que assediam a alma do homem comum. Franco deve ser escormentado pelo colégio em peso.”

Por isso, quando se sentir ameaçado pela presença maciça dessa “gente morena” (como dizia Darcy Ribeiro), não se esqueça de chamar a polícia, demonstrar seu pavor e indignação por esse povo “que não sabe seu lugar”.

Triste mesmo é que estamos todos disputando o shopping enquanto as bibliotecas permanecem vazias.

O tempo não passa

“A manutenção do envolvimento [eleitoral] popular em níveis baixos foi um traço constante da lógica do sistema político, monárquico ou republicano. A justificativa para tal procedimento entre os teóricos era a da qualidade do voto e da lisura nas eleições. A participação ampliada, sobretudo a do analfabeto, era considerada uma das principais causas da corrupção eleitoral pois, alegava-se, faltava a esta população condições de entendimento e de independência para exercer adequadamente a função do voto”.

em “Construção da ordem, teatro das sombras”.

O José Murilo de Carvalho, neste trecho, está tratando da política eleitoral do império no Brasil, no século XIX. Como se pode perceber, a natureza das críticas de determinados setores da sociedade (incluindo a esquerda radical e suas críticas ao bolsa-família) em relação à participação popular não mudaram desde então.

O PIBinho e civilização brasileira

Nesta semana divulgaram-se os dados oficiais sobre o crescimento da economia brasileira em 2012. Alguns analistas mencionaram que o crescimento de 0,9% é pífio, considerando-se o desempenho dos demais países em desenvolvimento, notadamente os Brics e os demais países sul-americanos. A unanimidade com que os veículos tradicionais se referem ao tema, e a insistência com que o fazem, porém, levantam mais dúvidas do que certezas sobre o desempenho não apenas da economia (tomada aqui enquanto medida de incremento de riqueza privada), mas do bem-estar da sociedade como um todo.

Variacao-anual-do-PIB-1994-2012

Uma das questões importantes e negligenciadas diz respeito aos mecanismos pelos quais a riqueza eventualmente produzida por um país é distribuída pela população em suas diversas faixas de renda, mediante política salarial e tributária e acesso ao emprego. Historicamente, o Brasil apresentou períodos de expressivo crescimento econômico que acabaram concentrando mais renda nas mãos das elites econômicas. O período mais recente corresponde aos anos do milagre econômico (o que tornou Delfim Neto e Roberto Campos figuras respeitáveis, ainda sob regime militar), entre 1968 e 1973, em que o país cresceu o correspondente ao padrão chinês atual e, no entanto, concentrou riqueza correspondente a 50% do total produzido pelo país nas mãos dos 5% mais ricos. Por outro lado, os mais pobres acabaram vendo uma diminuição da sua renda no mesmo período. O que significa dizer que para a grande maioria da população brasileira, os anos do chamado “milagre” corresponderam, na verdade, a um período de empobrecimento em que o crescimento do PIB, para além de manchetes elogiosas, produziu efeito nulo.

O período iniciado com o primeiro mandato do presidente Lula correspondeu a uma inflexão na tendência da economia brasileira de produzir riqueza sem distribuí-la. Iniciativas como o aumento real do salário mínimo, ampliação e fortalecimento dos programas de transferência de renda e do acesso ao ensino superior transformaram o Brasil num caso de sucesso reconhecido internacionalmente por tirar da miséria milhões de pessoas, criar um mercado de consumo interno e despontar mundialmente como uma exceção ao processo de concentração de renda hoje em curso nos países desenvolvidos. Medidas como o coeficiente de Gini (que mede o grau de concentração de renda, e varia de 0, numa sociedade absolutamente igual, a 1, noutra totalmente desigual), comprovam que o país conseguiu aliar, na última década, crescimento econômico e distribuição de renda.

Fonte: IPEA.

Fonte: IPEA.

Países como os Estados Unidos, por outro lado, têm assistido desde a década de 1970 a um aumento da concentração de renda nas mãos dos super ricos. Processo que tem o efeito de minar as bases de uma sociedade construída sobre o consumo interno (por volta de 70% do PIB norte-americano), fato apontado por alguns economistas como um dos responsáveis pela superdependência de crédito, que por sua vez foi uma das causas da crise iniciada em 2007/8. Uma vez que não se veem no horizonte sinais de alteração desta tendência, o crescimento do PIB norte-americano em 2012 se deu num contexto de alto nível de desemprego (por volta de 8%, o nível brasileiro está em torno de 4%) em que os mais pobres, mesmo quando empregados, ganham menos.

Fonte: Mother Jones

Fonte: Mother Jones

Desta forma pode-se perceber que o crescimento do PIB, embora necessário como medida de ampliação do bem-estar e das oportunidades desta geração e das próximas, não é a única (e, nos casos apresentados, nem a mais importante) medida de sucesso de um país ou de uma sociedade. Países extremamente desiguais, como o Brasil infelizmente ainda é, devem ampliar a lente sobre a qual observam sua própria realidade, de modo a não comprar e defender pontos de vista que em última análise não correspondem nem à verdade, nem aos seus interesses.