A queda da esquerda latino-americana

mousewheelA partir de 2003 parecia que a América do Sul realizaria seus desejos mais antigos de justiça social e redução das desigualdades. Kirchner, Lula, Morales, Mujica, Rafael Correa e, é claro, Chavez personificaram o ressurgimento de governos populares depois de (para não jogar a retrospectiva muito longe) duas décadas de governos, digamos, mais alinhados à direita norte-americana e europeia.

Com o fim progressivo das últimas ditaduras sul-americanas (principalmente a brasileira, chilena e argentina) nos anos 1980 e sentindo os efeitos mais claros da crise do petróleo e dos juros na nossa dívida externa (que no Brasil significaram a pá de cal na falta de legitimidade dos governos militares na figura do cansado Gen. Figueiredo), chegamos aos anos 1990 flertando com as políticas do chamado Consenso de Washington que criaram resultados sociais bastante negativos, queda do nível de emprego, privatização de empresas públicas para pagamento do custeio da máquina do Estado. Ampliando profundamente a vulnerabilidade à crises externas, como a da dívida argentina e russa.

Até que a consecutiva eleição de governos “progressistas” acabou denunciando a fragilidade do modelo oposto devidamente castrado de suas propostas ditas mais radicais, principalmente a reforma agrária. O respeito ao tripé macroeconômico (juros, câmbio e superávit primário) durante o início do governo Lula, já declarada na Carta ao Povo Brasileiro, significava algum compromisso com o “capital estrangeiro” tão demonizado pelas esquerdas. As políticas sociais chavistas navegaram em barris de petróleo de US$ 100 dólares e dilapidaram a produção nacional de praticamente todas as outras coisas, enquanto sustentava uma retórica “anti-imperialista”. Morales triplicou as receitas do Estado plurinacional boliviano renegociando sucessivas vezes o preço do gás exportado ao Brasil. Renegociações que nós, no Brasil, concordamos enquanto apostamos no longo prazo da convergência das economias e da infra-estrutura energética.

Mas, além das medidas de valorização das políticas sociais (que são um fim em si mesmo e eu vou defender sempre), algumas questões centrais continuaram desatendidas. No Brasil a persistência do personalismo e do compadrio no processo decisório descambou numa série de investigações que destruíram a cúpula do Partido dos Trabalhadores e ressuscitou a interpretação do dilema institucional brasileiro: o presidencialismo de coalizão. Ou seja, um parlamentarismo a posteriori forjado com pequenos favores aqui e grandes favores acolá, por qualquer que seja o partido no poder. O que reafirma sugestões de que o PMDB é o Brasil. Somos governados pelo “centrão” desde o fim do governo Vargas, mas ninguém fala disso.

A poupança interna continua baixa (coisa recente, desde a República Velha, pelo menos) o que nos torna particularmente dependentes do investimento direto estangeiro (com suas condicionalidades e extorsões), a infra-estrutura produtiva continua deficitária, principalmente no que poderia dar suporte à indústria e a participação da nossa benção-maldição, o agronegócio, no PIB continua aumentando; o que se reflete no conservadorismo ruralista no congresso federal. Enquanto isso o governo perdeu estatura para por em prática projetos de longo prazo de interesse de Estado (quer seja  o plano nacional de logística e transportes, quer seja o acordo Mercosul/União europeia).

O fim do boom das commodities representa a primeira rachadura no pacto intra-elites que permitiu por pouco mais de uma década a permanência dos governos populares no poder. O esgotamento da política cepalina/furtadiana de criação de demanda interna por ação do governo (que resultou em ampliação da dívida pública, aumento dos juros, desvalorização do câmbio, baixo crescimento e inflação acima da meta) a partir de 2011 é a segunda (e quase mortal) destas rachaduras representadas na última eleição por dois candidatos diferentes negociando basicamente com os mesmos grupos: Aécio e Marina.

Uma coisa parece certa. Existe um profundo desrespeito pela democracia que permanece presente entre as elites políticas de qualquer tendência ideológica no nosso continente. Cristina F. de Kirchner deixa o mandato com ordem judicial porque não quer entrar num acordo sobre onde transferir a faixa presidencial, para em seguida (acredite se puder), se recusar a devolver a conta do twitter usada institucionalmente pela Casa Rosada; Nicolás Maduro diz que reconhece pero no mucho as eleições que elegeram ampla maioria oposicionista na Venezuela; Aécio Neves nunca deixou de fazer propaganda contra as eleições que perdeu, e nem usou os microfones que aparecem sempre graciosamente disponíveis para desmentir rumores sobre a confiabilidade das urnas eletrônicas ou sobre a legitimidade do governo eleito.

Comportamentos que têm resultado político nulo (não favorecem quem os comete, nem tampouco atrapalham seus alvos) e significam manifestações de infância política que os nossos duzentos anos de independência formal não foram capazes de eliminar.

Em suma, acabou o projeto. O do governo Lula/Dilma, que significava cooptar uma parcela da elite com financiamentos públicos para projetos de infra-estrutura e subsídios à produção nacional, acabou por falta de grana. O projeto da esquerda “mais à esquerda” acabou por crônica falta de assunto e o da direita por crônica falta de educação. A novela, porém, ainda parece longe de acabar. Enquanto isso a gente fica aqui se fazendo de observador atento. E palpiteiro.

FMI e Ebola

A matéria tem limitações importantes mas levanta um argumento razoável: até que ponto as políticas ditas “de austeridade” que priorizam o pagamento da dívida sobre os gastos “sociais” podem ser responsáveis por danos muito mais graves às sociedades que porventura precisem das suas linhas de crédito?

FMI, parcialmente responsable de crisis de Ébola: estudio http://t.co/78xryTV3qZ